NOTA PRÉVIA: Após mais de cinco anos a escrever neste espaço, senti a necessidade de atualizar alguns dos textos. Assim, ao longo dos próximos meses, sairão versões atualizadas que tomarão o lugar das antigas. As antigas, contudo, continuarão acessíveis. A versão antiga deste texto pode ser lida aqui.

NUDEZ
O oposto de estar nu, diria eu, numa frase que não me parece polémica, seria estar vestido. Acho que a maioria da população concordaria, portugueses e outros, assim que esta afirmação fosse traduzida para as suas respetivas línguas. Contudo, vejo-me forçado a perguntar até onde é que se tem de levar a noção de vestido para ser verdadeiramente o oposto da nudez. Se fôssemos picuinhas, e certamente que o somos, o vestido teria de ser total, se também total for a nudez, o que nos leva, então, ao fato de apicultor ou àqueles fatos de proteção química. Está dado o primeiro passo.

Uma vez que a nudez implica exposição, então o vestido­ não pode ser apenas ter uma película qualquer sobre a pele. Ou seja, façamos um esforço para nos entendermos, se eu tiver um plástico transparente sobre o meu corpo nu, deixo de estar nu? O rigor exige-me a responder não… com reticências pois não deixo de ficar na dúvida. Contudo, como na minha noção de nudez está implicada, como disse, a exposição, não seria por ter um plástico transparente sobre o meu corpo nu que deixaria de me sentir exposto. Assim, por A mais B, conduzi-me a uma nova exigência ao tal fato de corpo completo, apicultor ou químico, que quer ser oposto à nudez: tem de ser baço.

O que é baço? Baço é um adjetivo e um nome, nome de um órgão que recebe eritrócitos velhos e ressequidos, come-os e rouba-lhes o ferro, que depois entrega à medula óssea para que esta produza novos e bonitos eritrócitos. É uma boa lição para quando formos todos velhos e ressequidos, vem sempre alguém para nos roubar o ferro, o que pode parecer cruel mas, convenhamos, o que fazem velhos e ressequidos com ferro? Já dizia a Bíblia: “Em todas as coisas vos mostrei que assim deveis trabalhar para socorrerdes os fracos, recordando-me das palavras do Senhor Jesus, porque ele próprio disse: “É mais bem-aventurado dar do que receber.””.

Assim é o baço enquanto nome, mas também é ele adjetivo, como disse, e enquanto adjetivo, diz-se, por exemplo, de alguém que não aprendeu a sair da frente de outra pessoa, que é demasiado baço para espelho. É quase um insulto, é quase um ataque, mas fica-se pela provocação. Não se pede carinhosamente para sair da frente, não se agarra e atira-se o indivíduo como um saco de batatas para o outro canto da sala; em vez, diz-se que ele é demasiado baço para espelho. Também isso é, de certa forma, o oposto de estar nu, o quase insulto, quase ataque, quase carinho, o quase em geral, é uma oposição à nudez. Bem vistas as coisas tudo parece então ser oposto à nudez, tudo se enverga e só se vislumbra, tudo se mistifica e se desdobra.

*

Há um corpo que se desnuda. Ninguém o vê, nem sabe quem é, ou pelo menos nós não o sabemos. É um corpo neutro, sem genitais ou glândulas, uma espécie de amostra amorfa de humano, como uma criação em laboratório para mostrar aos bilionários vitalícios, aborrecidos com o entretenimento que o mundo tem para oferecer. E este, o que acham?, pergunta o cientista, e os bilionários gostam das possibilidades mas já sabem que, mais tarde ou mais cedo, fartar-se-ão dele também como de tudo o resto. Há barreiras que se quebram e já não se podem voltar a erguer, qualquer bilionário gostaria de ser novamente uma criança de olho vivo e luminoso, curiosa com as mais simples coisas do mundo.

Há um corpo que se desnuda. Desnuda-se conforme a roupa lhe cai de sobre os ombros, escorregando pela pele suave até ao chão, onde uma pedra fria o recebe. Os pés descalçam-se também, indo também de encontro à pedra fria, meio bicuda aqui e ali, não perfura a pele mas aleija e incomoda. O corpo que se desnuda avança uns passos calmos, como se estivesse a ir para a cama depois de um dia longo, abre a janela, recebe a brisa matinal como o toque impossível de um morto amado. O esperado agora seria que este corpo desnudado fizesse algo bonito com esta brisa, algo nostálgico e saudável, que se agarrasse às memórias e talvez chorasse ou pelo menos se entristecesse pelos erros que cometeu no passado, quando era um jovem corpo sem genitais ou glândulas, ainda ingénuo sobre as coisas que o mundo lhe poderia fazer e que ele poderia fazer ao mundo. Contudo, este texto tem como título Nudez, antes do asterisco há sete instâncias dessa palavra sem que se tenha chegado a uma definição, apenas à ideia de que o seu oposto é um fato químico ou de apicultor totalmente baço, e de que mesmo o baço (nome) é baço (adjetivo). O corpo que se desnuda não pode agora, como se fosse uma personagem consciente de ser personagem, enveredar por um momento de rememoração cinematográfica, com o olhar no amanhecer e o cabelo ao vento e uma narração suave e emotiva a explicar as imagens das memórias que vão passando com opacidade reduzida. Enquanto humano, embora fictício, o corpo que se desnudou tem necessidades, e não vale a pena estarmos com vergonha destas coisas naturais que todos fazemos, todos temos intestinos todos temos bexiga temos de comer e beber e a água e a comida têm de ir para algum lado, e embora nem todos tenhamos uma portinha na barriga como este corpo desnudado, não devemos julgá-lo, pois já dizia a Bíblia: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois pela sentença com que julgardes sereis julgados; e pela medida com que medirdes sereis medidos. Porque miras o cisco no olho do teu irmão e não te dás conta da trave que está no teu? Ou como dirás ao teu irmão: “Deixa que eu te tire o cisco do olho”? E eis a trave no teu próprio olho. Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então verás melhor para tirares o cisco do olho do teu irmão.”

Sim, é verdade, o corpo desnudo tem realmente uma portinha na barriga. Para lá da ausência de genitais e glândulas, também as aberturas habituais nos humanos foram negadas a esta aberração, nem boca nem ânus. Como come ele? Como bebe?, perguntais vós, inteligentemente. Uma PEG, gastrostomia percutânea endoscópica, é assim que sobrevive. Depois, chegada a hora das necessidades, como é a presente hora, o corpo desnudo tem de abrir a portinha na sua barriga (é daquelas que se pressiona primeiro para dentro para se soltar), e, uma vez aberta, procura pelas pontas da uretra e do reto. Tenta sempre deixá-las no mesmo sítio pois não é assim tão fácil encontrá-las no meio de tanta víscera, mas com o movimento do dia a dia, elas acabam sempre noutro lugar qualquer, e o corpo desnudo vê-se forçado a enfiar a mão pela barriga adentro, a percorrer o estômago e os rins, o intestino delgado e os ureteres, o intestino grosso e a bexiga, até finalmente agarrar as pontas dos respetivos sistemas. Parcialmente satisfeito, tira-as para fora, como uma palhinha num caso e um tubo no outro, e num sistema já há muito montado, que envolve duas tubagens distintas que entram pela parede do edifício, percorrendo alguns metros até se conectarem com o sistema de esgotos municipais, o corpo desnudo enfia cada terminação na sua respetiva tubagem colorida, vermelho para o urinário, azul para o digestivo. Limpo e esvaziado, o corpo desnudo, agora plenamente satisfeito, pode finalmente começar o dia.

O dia do corpo desnudo consiste em: 1) acordar; 2) esvaziar a bexiga e os intestinos; 3) tomar banho; 4) maquilhar-se; 5) trabalhar. Já, melhor ou pior, percorremos os dois primeiros, e o terceiro não tem nada de especial para relatar, para lá da limpeza das pontas mas que pode ser imaginado por qualquer um. Seja qual for a forma em que estão a pensar, seja qual for a forma que acham que seria mais eficaz ou a que escolheriam se fossem vocês este corpo desnudo, posso assegurar que ele já as tentou todas. A sua escolha, nos últimos anos, tem sido usar papel higiénico húmido antes de entrar na banheira.

O quarto ponto merece um pouco mais de atenção, e relaciona-se também com o quinto. Ora, como uma parte da sua geração, o corpo desnudo formou-se na área da informática e isso permite-lhe trabalhar remotamente. Se isso já traz regalias para uma pessoa dita normal, para alguém sem boca na cara, essa possibilidade é uma bênção. Consegue assim evitar os olhares, as perguntas, os silêncios constrangedores e até a malícia que por vezes as pessoas demonstram. O corpo desnudo sabe que, pelo menos num primeiro momento, o choque e a repulsa são inevitáveis, há algo de universal em estranhar o estranho, em temer o bizarro, em distanciar a diferença. Não ter boca não tem, propriamente, nenhuma consequência para os outros, nem deveria afetá-los de maneira alguma; contudo, quem visse as reações a que o corpo desnudo já assistiu, rapidamente perderia a fé na humanidade. E isto sem saberem eles do resto, claro, de todo o processo a que ainda há pouco assistimos nós. Imaginem que alguém olhava pela janela enquanto o corpo desnudo tirava as tripas para fora… Seria um escândalo! Não é por acaso que o corpo desnudo se endividou quase loucamente só para poder ter uma varanda voltada para o meio do nada.

Dito isto, importa esclarecer a maquilhagem. Afinal, valerá a pena maquilhar-se só para fazer umas videochamadas com a equipa? Pois bem, excluindo o seu chefe direto, a quem teve de explicar a situação, mais nenhum dos seus colegas sabe que o corpo desnudo não tem boca. Logo quando recebeu a notícia de que tinha ficado com o emprego, o corpo desnudo fez uma investigação intensiva por alternativas. Após passar por coisas complicadas, como efeitos digitais em tempo real e avatares virtuais, acabou por dar com um kit de maquilhagem da TEMU por 5,99$ + portes de envio. O kit era, segundo a descrição, desenvolvido especificamente para pessoas sem boca (total ou parcial) em situações de videochamadas, e vinha com instruções detalhadas e um conjunto de peças em plástico coláveis. Assim, e desde então, há cerca de meia hora da manhã que o corpo desnudo perde a colar as peças de plástico e a seguir as instruções em termos de coloração, permitindo-lhe passar a imagem de que tem uma boca. A ilusão parece funcionar pois, nos feedbacks trimestrais que a sua empresa faz, a única crítica que os seus colegas lhe fazem é à sua falta de comunicação direta, mas o chefe ignora sempre essas críticas, felizmente, e tem-se mostrado muito contente com o trabalho do corpo desnudo.

*

A nave Artemis II deu a volta à Lua. Artemis, curiosamente, é não só uma nave espacial da NASA mas também uma deusa. O corpo desnudo, quando está deitado na cama, à noite, após mais um dia de trabalho intenso e reuniões, destapado porque está calor conforme o verão se aproxima a largos passos apesar de ainda ontem ter começado o ano, pondera sobre as suas decisões de vida. Está satisfeito, em parte, porque é hoje um corpo desnudo independente, trabalhador e sério, sem boca nem ânus, com uma portinha na barriga, sem que ninguém lhe possa dizer que não é um menino de verdade, ainda que seja só um produto imaginário numa folha de papel. Para si, a realidade à sua volta é real, acredita na pele que tem, nas vísceras que investiga todas as manhãs, no computador que tem na secretária por onde ganha o seu sustento, e na casa de banho onde usa o papel higiénico húmido antes de tomar banho. O que mais pode alguém querer?, pensa ele, sem conseguir observar o teto branco que se esconde na escuridão, a persiana fechada até ao último rasgo.

O corpo desnudo puxa subitamente os lençóis sobre si, cobrindo a nudez que tinha exposta. Vai agora fazer algo de que tem alguma vergonha, não o consegue negar. Desce a mão pelo corpo, por baixo dos lençóis, abre a portinha, enfia a mão pelo corpo adentro, retira a fita cola que colocou no diafragma depois de o ter furado, já há tantos anos, e enfia a mão pelo buraco. Respira fundo várias vezes, em ciclo, e sente, na mão, o movimento dos seus pulmões; no dedo anelar, o coração a bater. O corpo coberto arrepia-se pela espinha abaixo, de coração na mão, literalmente, consciente de que um movimento em falso, descuidado, pode ser suficiente para morrer assim, deitado na cama, coberto, sem emitir um único som. Acaba, por fim, por retirar a mão, recolocar a fita cola, fechar a portinha. Destapa-se, depois do ritual. Ocorre-lhe que talvez todos os seus colegas saibam que ele não tem boca; que talvez seja extremamente óbvio, mesmo pela câmara, que tem peças de plástico e maquilhagem e mais nada, nada de lábios ou gengivas ou língua. Talvez seja apenas uma daquelas coisas que, em grupo, se decide ignorar, não fazer perguntas; ou então é algo de que todos falam em reuniões em que ele não participa. Amanhã fará um maior esforço com a maquilhagem.

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