PEDRO NUNES
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ARTISTA – A Revolução Tem Instagram, Somos Todos Artistas

NOTA PRÉVIA: Após mais de cinco anos a escrever neste espaço, senti a necessidade de atualizar alguns dos textos. Assim, ao longo dos próximos meses, sairão versões atualizadas que tomarão o lugar das antigas. As antigas, contudo, continuarão acessíveis. A versão antiga deste texto pode ser lida aqui.
SINCERIDADE E EXPRESSÃO
É curioso que provavelmente já me teria esquecido da existência daquela creche naquela casa naquele ano, se não se desse o caso de ter escrito sobre ela. É verdade o que escrevi em 2021, havia mesmo um infantário perto da casa onde vivia e, nos intervalos, as crianças a brincar geravam uma barulheira desgraçada que entrava pelo exaustor a cair de velho na cozinha, todo tapado com fita-cola para impedir as formigas de entrar. Fita-cola? pensarão vocês, pessoas decentes e capazes, que não recorrem ao que está mais à mão para tapar buracos. É verdade; quando primeiro as descobri, as formigas, usei fita-cola para tapar as frinchas entre a madeira velha do exaustor e as paredes, pensando que isso resolveria o assunto sem grandes chatices. O destino assim não o quis e, de semana para semana, lá descobriam elas um novo buraquinho por onde entravam em filinha pirilau, e obrigavam-me a uma investigação minuciosa, seguindo a tal filinha pirilau, até ao novo ponto minúsculo que rapidamente cobria com fita-cola. Não demorou a que, observando a cozinha a partir da sala, verificasse que tinha toda uma parede cheia de fita-cola a cobrir frinchas e cantos e desgastes no isolamento.
Noutra casa noutra cidade noutro ano, vivi com baratas, que são muito mais desagradáveis do que formigas, posso assegurar. As baratas são o pior tipo de divindade, e despertam-me um nojo traumático e irracional, mas com conhecimento de causa. Na verdade, este é dos poucos assuntos em que me posso apresentar como entendido, do qual posso falar com experiência, o que é certamente atípico neste espaço. Nessa tal casa nessa tal cidade nesse tal ano, despertei muitas vezes a ponderar se valeria mesmo a pena levantar-me da cama. Poderão estar, talvez, a imaginar uma esbelta personagem, com cabelo e maquilhagem imaculados, deitado numa bela e espaçosa cama num quarto de imaculada decoração que, atingido por uma depressão sexy, fica deitado com uma lágrima no canto do seu reluzente olho azul. A situação não era essa por duas razões: 1) porque nem o deitado (eu) nem o meu quarto eram imaculados; o deitado acordava com um ar algo sonâmbulo e doente e sem olho azul, e o meu quarto – que era, aliás, era uma sala transformada em quarto – pertencia a um velho apartamento de um velho edifício que tinha um curioso detalhe: acaso alguém se lembrasse de saltar, sentia-se o chão abanar como se todo o prédio oscilasse com o movimento; e 2) porque o que me passava sempre pela cabeça ao acordar, não era uma depressão profunda, mas a terrível necessidade de atravessar o corredor. Ora, este corredor era o habitat natural das baratas que invadiam energicamente o apartamento, impedidas de ir para qualquer outra divisão da casa por força de uns isolamentos improvisados nas portas, colocados aquando do primeiro avistamento preocupante. Ao saírem dos seus esconderijos (nomeadamente, de debaixo da bancada da cozinha), estas divindades, imortais mas não invulneráveis (o que ficou amplamente comprovado no ano que lá vivi), atravessavam um chão totalmente impregnado em veneno para baratas lá colocado e renovado a cada noite, como parte do ritual do deitar: pijama, lavar os dentes, xixi, veneno, cama (a ordem tinha mesmo de ser esta, pois a casa de banho ficava do outro lado do corredor, relativamente aos quartos, e ninguém gosta de pisar chão acabado de envenenar só para fazer um xixi).
Poderão pensar: ter veneno de baratas no corredor não ventilado e sem janelas de uma casa será saudável?, e a resposta correta será universalmente não. Não é preciso chamar um especialista, eu próprio o reconheço e reconheceria também na altura. Contudo, se me dessem a escolher entre queimar os meus próprios alvéolos pulmonares ou acordar para uma barata no parapeito da porta do quarto, pronta a fazer um voo aquando da minha passagem e aterrar em cima da minha cabeça, não hesitaria por um segundo na minha decisão. Veneno seria, e veneno foi. Poderão então perguntar: o que faz o veneno no chão de um corredor infestado de baratas? Sem surpresas, o veneno no chão matava-as, ao longo da noite. Ora, se o lado positivo era portanto evitar o tal cenário da barata em queda-livre, o lado negativo, e que liga ao que estava a dizer sobre levantar de manhã, era que os meus dias começavam com um corredor repleto de baratas mortas. Sem querer exagerar, até porque este relato tem uma importância histórica inquestionável, penso que em certos dias chegaram às duas dezenas. Poderão perguntar: qual era, portanto, a tua primeira atividade do dia? Pois é, era arrastar baratas mortas com uma vassoura para uma pá, um pós-armagedão se quiserem. Isto dito agora parece realmente absurdo; mas não minto quando digo que, a dado ponto, até esta atividade se tornou rotineira.
Uma história longa para justificar o meu trauma com baratas. Curiosamente, elas nunca me incomodaram na rua e, por várias vezes, nessa tal casa, tentei compreender o que me enojava tão profundamente nelas. Uma vez, e prometo que isto não é mentira, ao descobrir uma bem viva e feliz a percorrer a bancada da cozinha, por cima do cesto da fruta, demorei-me alguns minutos a observá-la. Não tirei qualquer conclusão, nessa altura, e tinha todos os nervos do meu corpo a exigir o maior baraticídio dos anais das baratas, um -cídio que acabou mesmo por acontecer, quando o nojo levou a melhor sobre a minha curiosidade científica. Mais tarde, contudo, apercebi-me que era a violação inesperada do espaço que mais me arrepiava. Ou seja, era o não saber quando e onde iam aparecer, era o não saber de onde vinham, e era o não saber como impedi-lo. Vê-se aqui que na raiz do meu problema estava a perda de controlo. Sempre tentei na minha vida uma via de maximização de controlo, tanto consciente como inconsciente. É uma escolha que faz todo o sentido no contexto de quem sou e dos meus problemas gerais; mas, se pensar verdadeiramente nela, todo esse sentido se perde pois o seu objetivo final – o controlo de toda e qualquer variável – é impossível.
Este caminho traz-me finalmente ao título deste texto. Acho que muitas vezes, na minha vida, quando falei de sinceridade, estava na verdade a falar de controlo. Acho que muitas vezes, na minha vida, quando me exprimi, não estava a tentar ser entendido, mas a tentar controlar como era entendido (que pode parecer o mesmo mas certamente não é). Aprendi de muito novo a dominar uma narrativa, a povoá-la com os elementos que queria. Para que fique claro, esta narrativa não são histórias de livros; são as histórias que contei a mim próprio e aos outros sobre mim, que disse que me definiram, que me marcaram, que me tornaram isto e aquilo. Há, certamente, trauma real e viscoso, daquele que não se desapega da memória e da pele, como os meus tempos no mundo das baratas, para dar um exemplo algo bizarro; mas há também tudo o resto. Afinal, nós vivemos milhares de milhões de experiências mas, de entre todas essas, selecionamos umas quantas que subitamente adquirem primazia. Dizemos que ouvir o hino de mão ao peito nos faz chorar, por exemplo; tal como dizemos que os tempos de infância é que eram bons, ou que o futebol não presta, ou que o melhor do mundo são as crianças. Dizemos estas coisas num esforço para controlar e definir quem somos e como somos percecionados pelos outros e até por nós próprios.
Vamos parar por aqui, um bocadinho. Irrito-me constantemente com a maneira como acabo a falar em “nós”, o que dá a isto um tom doutrinário que não faz qualquer sentido. Não tenho canudos que me autorizem a ensinar, nem sou exemplo algum que possa dar conselhos pela experiência de vida. Só estou a tentar dizer que expressão e sinceridade, que são palavras grandes e pesadas e que o jovem eu decidiu pôr no título e que o agora eu tem de usar, são também elas parte deste jogo de brincar. Quantas vezes já falei em sinceridade em textos? Muitas, posso assegurar. Contudo, se eu quisesse realmente ser sincero, só não escreveria e teria o problema resolvido, no problem como diria um antigo professor meu. Escrever, no entanto, é parte da identidade que eu defini sobre mim, e parar agora seria gerar um yes problem, algo que o meu professor não dizia. Onde é que isto me deixa? Bem, apercebi-me agora que não há grande diferença entre observar uma barata na bancada da cozinha, ou estar a reler e reescrever textos antigos. Pareço, também, retirar semelhantes lições de ambas as experiências. 1) Tenho a mania dos controlos, dos domínios. 2) Quero remover os imprevistos da minha vida. 3) Quero adequar estes textos para que se aproximem mais do que assumo agora como a minha identidade, tal como queria remover aquelas baratas nojentas daquela casa alugada para que não tivesse de lidar com elas. E 4) também o deslumbramento arrepiante nos meus olhos se assemelha, tanto a olhar para baratas como para estes textos.
Posso talvez afirmar que ando, de há uns anos para cá, a escavar as minhas histórias; que é o mesmo que dizer que estou a tentar atravessá-las e descobrir o que se esconde por detrás delas. Disse, no outro texto, que “procuro, mais do que tudo, a sinceridade; ser honesto comigo mesmo”, e apesar de tantas vezes falhar, de tantas vezes descobrir-me a encarnar uma qualquer personagem em todos os sentidos, a escolher a dedo as histórias que conto sobre mim para que expressem o que eu quero como um pequeno ditador da expressão, é ainda verdade que o meu interesse na vida é a sinceridade. Sou também humano, e por isso tenho medo e vergonha e inveja e aflição, e tudo isso sobrepõe-se quase sempre a qualquer desejo sincero, porque os dias são difíceis na maioria das vezes e qualquer defesa que se encontre não se manda fora só porque sim. Gostava de conseguir despir-me, salvo seja, e andar nu e feito parvo a conhecer todas as baratas do mundo, já que elas também andam despidas, como todos os animais, e devem saber algumas coisas sobre mim que eu não sei. Afinal, naquela casa, ter-me-ão visto a fazer tudo e mais alguma coisa. Talvez tenham reparado em algo que eu, partindo da minha perspetiva, não seja capaz de ver. Se daqui a uns anos ouvirem falar de uma pessoa que foi nua viver com as baratas, estará aqui a raiz dessa narrativa.
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