NA ORIGEM DE TUDO, A PALAVRA
A porção de mim que quer viver irrefletidamente sucumbe, diariamente, às exigências de racionalização que herdei. A reflexão é um esforço natural, pois desperto cada dia consciente do cansaço, de nem no sono se ter estancado a corrente contínua de deduções e induções, as implicações do tempo e do espaço que nunca se libertam de mim, não fosse eu um ser temporal e espacial – pelo menos, na superfície prática da vida. Anterior a esta consciência, no entanto, entre os estados de sono e vigília, há uma qualquer forma animal de viver que logo se dissipa quando lhe procuro as rédeas, um doce toque alegórico que tomo por real, um comedido som que só deixa o fantasma de si, um eco dissipante.

Também o terminar do dia é em tudo semelhante ao seu início: pode o corpo conhecer a exaustão, a carne ambicionar o repouso de um dia interminável, mas é ainda a engrenagem de um cérebro que pressupõe uma ordem, e depois a procura na exterioridade, tudo o que consigo ouvir no âmago da sonoridade quotidiana. Ainda que o cosmos fosse inaudível ou eu privado de audição, e ainda o cérebro remoeria, incansável na angústia do viver. É que a vida ruge em desordem, o caos sem sentido dos dias que se sucedem encavalitados uns nos outros, indiferentes à objetividade que a ciência tanto prometeu mas que, como é próprio das criações humanas, colapsou sobre o seu próprio peso. Os alicerces iludidos de certeza.

Haverá nisto alguma finalidade? É que tanto as perguntas como as respostas parecem apontar para o mesmo, ainda que se distingam conceptualmente. A distinção é simples: perguntar é das ações mais fáceis do mundo, enquanto que as respostas teimam em pedir evidência, clareza. Até as erradas envolvem grandes esforços, porque por mais que tente iludir-me das falhas, a razão que coabita comigo em mim – esta necessidade de analisar, definhando os alicerces e implodindo as mais vastas construções – permanece teimosa, como se oferecesse algo mais do que dificuldades, círculos lógicos e silogismos.

E na origem de tudo isto, a palavra; essa fulcral criação que se desprendeu de nós. Sempre a palavra. Na origem de cada conceção, cada representação, cada traço emotivo ou visceral, cada vislumbre, cada desenho emocional, cada margem do universo infinito – a palavra. A vida conhece sempre a solidão quando toma noção de si mesma, quando reflete sobre o que é e reconhece nas suas humanas paredes celulares, os limites do seu domínio. Os animais não sabem onde terminam; conectam-se a tudo o que alcançam como um universo em expansão, tocando cada presa, cada árvore, cada estrela com a sua própria existência, absorvendo-os em si e entregando-se simultaneamente. Mais nenhum viver tem tamanha extensão. É na reflexão, no reconhecimento próprio e exemplar do homem, que se estabelece uma divisão; daí se expressa a forma primordial da solidão, sem recriações poéticas. A palavra, enquanto início da individualidade.

Anos depois do meu nascimento – tanto carnal como individual – estou ainda enclausurado nas limitações que as palavras me impõem, modestamente: a mais fulcral é a de ser espectador do universo que elas criam. É a palavra, na origem de tudo isto: do senhor à minha frente, que limpa o rosto cansado do comboio com uma longa esfregona; da rapariga que se atravessa entre mim e ele, equipada de balde e panos com que limpará as entranhas do comboio; da tosse que nasce ao meu lado, violenta e perturbada, retendo a minha atenção com o seu trespasse. Ouço-a desapegada de um rosto, porque não tenho as forças para me importar com quem tossiu. Talvez tenha morrido ao meu lado, coitado, o homem que a trouxe ao mundo, a tosse como ponto final, como derradeiro som; mas tenho mais pena da imagem que dele guardo do que se o visse estendido no chão. Será talvez com excesso de dramatismo que falo; ou talvez só meia-verdade. Para ser verdade, teria de acrescentar que, por não olhar para ele – aquele que ao meu lado tosse – dou azo à imaginação para escrever o que quiser sobre o vulto, para criar narrativas tão extensas e viscerais que o aproximam de mim, tornam-no familiar, amigo até. E no entanto, se este homem a que não digno um olhar morresse ao meu lado, se caísse inanimado e eu, animal puro no cerne, voltasse o rosto numa desesperada tentativa de entender se o som seco da sua queda era uma ameaça ao meu bem-estar, não veria o meu amigo, o meu ridículo companheiro de viagens. Veria o triste homem que morreu à espera de um comboio, entre caminhos, sem chegar mas já partido; e teria mais dó por ele morto do que vivo, mas menos, ainda assim, do que a que teria pelo meu amigo que morria com ele.

Por isso, talvez fosse melhor que se perdessem as retas linhas por onde escrevo, palavra a palavra. Que se perdessem as tentativas frustradas de conferir ordem ao perpétuo caos. É essencial aceitar que um texto nunca traduz o que lhe é pedido, nem ao autor nem ao leitor; como um filho que se desprende e reformula, uma metástase com novas propriedades, um corpo prenhado com uma forma alienígena de vida; como tudo isto, o que nasce na expressão é vida própria, autónoma, independente e indiferente ao criador. A palavra é, por isso, livre; tem livre-arbítrio, é uma forma de vida atípica, é certo, mas concreta. E tudo isto se confirma no surreal dado de que não consigo conceber uma limitação ao que ela pode expressar, mas nem o total da minha humana mão tem o menor dos domínios sobre ela, sobre o que ela expressa, sobre o que ela cria em mim. Mantenho com ela, parece, uma relação recíproca – pois eu crio-a mas sou refém daquilo que ela cria em mim, e quanto mais tento criar num desespero de libertação, mais o mundo, enquanto palavras, ideias, conceitos, estruturas, me enclausura.

Assim, na origem de tudo, a palavra; esta relação recíproca onde me origino, a minha perspetiva particular cujo esforço contínuo é de lhe descobrir um sentido ou, na menor das ordens, defini-la, delimitá-la. Diante de um espelho, o meu corpo são letras; toda a minha experiência é uma contínua leitura do mundo. Uma inconsciência perpetuamente em expressão, consciente da impossibilidade de se traduzir.

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