PEDRO NUNES
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NOTA PRÉVIA: Após mais de cinco anos a escrever neste espaço, senti a necessidade de atualizar alguns dos textos. Assim, ao longo dos próximos meses, sairão versões atualizadas que tomarão o lugar das antigas. As antigas, contudo, continuarão acessíveis. A versão antiga deste texto pode ser lida aqui.
SOBRE APRENDER
Certa vez, num lugar agora já esquecido, nasceu um burro muito inteligente, mais do que qualquer outro burro antes dele. O azar da sua vida prendia-se em ter nascido assim, peludo, quadrúpede, sem grandes possibilidades de ascensão social. Não fosse a insuficiência anatómica natural num burro para dizer as palavras humanas, e talvez tivesse conseguido dar o salto, superar até o mais bem-sucedido da sua espécie e abrir portas a uma nova geração asinina que poderia ter vivido em cidades, contraído créditos e adquirido os seus próprios apartamentos. Infelizmente, não o conseguiu; e não o conseguiu não porque não entendesse o que as pessoas diziam, veja-se bem. Na verdade, como cresceu rodeado de moços a brincar aos berros e velhos que lhe faziam confidências, o burro aprendeu as palavras como qualquer outra criança humana. Contudo, diferente de muitas crianças humanas, o burro não vivia numa casa, claro está, tinha em vez um estábulo só para si pois a mãe tinha morrido a dá-lo à luz, e por isso passava também várias horas por dia sozinho, em silêncio ou no silêncio possível de um sítio remoto onde o vento oscila a madeira e o feno e os ratinhos dão guinchos aqui e ali enquanto vão também fazendo as suas vidas.
Ora, talvez por isso o burro demorou-se mais do que as crianças humanas a sentir-se fluente em português. Tinha quinze anos quando se sentiu, pela primeira vez, capaz de manter uma conversa coerente com outro falante… Não fosse, claro, o impedimento anatómico. Saber nomes e verbos e complementos é muito interessante, mas quando tudo o que se consegue é zurrar, só se pode conversar até certo ponto. E este ponto, para o burro, já não era pouco! Os donos gabavam-no muito com os outros donos de burros, dizendo que ele era tão esperto que até parecia que respondia às perguntas que lhe iam fazendo. Na verdade, o burro respondia mesmo, não só parecia. À falta de melhor, abanava a cabeça e zurrava um para sim e dois para não. Os donos, infelizmente, só sabiam rir e dar-lhe umas palmadinhas no lombo, que ele até agradecia, mas teria preferido ser levado a sério. Afinal, o burro tinha muitas perguntas, e forma nenhuma de as satisfazer.
Um dia, já o burro se aproximava dos seus vintes e, como todos os adultos, estava confortado pela repetição sucessiva dos fazeres diários, quando o progenitor de um dos seus donos faleceu, deixando ao filho em herança os dois burros que tinha na sua propriedade. Subitamente, de um dia para o outro, o burro passou a ter dois companheiros da sua espécie com quem partilhar o estábulo e passar os dias. Ora, não tinha ainda decorrido muito tempo desta nova conjuntura, e o burro descobriu-se em total estupefação. Os seus novos colegas de casa também percebiam português, também abanavam a cabeça, e também zurravam, embora, invertidamente, um para não e dois para sim.
Vejo-me agora forçado a pedir desculpa aos leitores, enquanto narrador destes eventos. Quando foi referido que o burro era muito inteligente, isto foi escrito da perspetiva do próprio burro. Infelizmente, esta perspetiva devia-se em grande medida ao seu isolamento, e com a chegada dos novos companheiros, o burro teve de confrontar-se com a evidência de não ser assim tão inteligente. Era, aliás, perfeitamente mediano. Sabia praticamente o mesmo que os outros burros e, já que estamos a ser honestos, mesmo que a anatomia lhe tivesse permitido falar, dificilmente seria capaz de impressionar os humanos, ultrapassado aquele choque inicial de ouvir um bicho falar. Afinal, pensemos nos papagaios. O primeiro humano a ouvir um papagaio falar deve ter ficado abismado, provavelmente entrou numa crise de fé profunda, questionando o Novo e mesmo o Antigo Testamento. Hoje, já todos sabemos que os papagaios repetem palavras. Não nos impressiona assim tanto, principalmente para quem com eles convive frequentemente. Ora, no caso do burro, os eventos não teriam sido assim tão diferentes, e essa tal surpresa inicial teria normalizado assim que se percebesse que o burro podia dizer sim e não e até indicar onde lhe doía e pedir uma guloseima, mas que também não tinha a resposta para os grandes mistérios que nos atormentam. Se lhe perguntássemos, por exemplo, para onde vamos nós quando morremos, ele pouco mais poderia dizer do que repetir a palavra morte e talvez zurrar numa tentativa de nos distrair, ao ser tomado pelo embaraço.
Ora, para nós, neste momento, poderá ser difícil de avaliar o impacto de uma revelação destas. Cada um tem as suas experiências, e talvez alguns se identifiquem com este burro que se descobriu mediano, mas é-nos difícil, ainda assim, verdadeiramente colocar na posição de um burro. É que a revelação não somente foi a de não ser inteligente; o burro descobriu, neste processo, que boa parte da sua personalidade, da sua perspetiva e postura, tinha sido construída com base numa mentira. Por isso mesmo, nos dias e semanas seguintes, o burro tornou-se muito cabisbaixo. Deixou de zurrar, deixou de abanar a cabeça, deixou de sair do estábulo ou saía apenas quando se via forçado. Os outros burros, os que agora moravam com ele, mostraram-se bondosos, falando-lhe várias vezes ao dia. O que se passa contigo, burro?, perguntavam-lhe, mas o burro nunca respondia. Sentia-se perdido, sem grandes razões para viver, diminuído a um mero animal cujas atividades se resumiam a ser burro de carga, lá está, e o resto do tempo a movimentar o sistema digestivo ou a dormir.
Certo dia, já arreliado com tanta e frequente pergunta, o burro não se conteve e respondeu em mau tom, mas vocês chamam-me burro porquê? Não somos todos burros aqui? Surpresa das surpresas, não eram. Novamente, vejo-me forçado a apelar à clemência dos leitores, voltei a adotar a mesma perspetiva quando falei dos novos burros. Respondeu um, burro, eu? O meu pai era um cavalo!, e a outra, e a minha mãe era uma égua! Se o burro já pouco tinha a que se agarrar, este momento foi o que definitivamente lhe arrancou o chão por baixo das patas. Sem rédeas, simbólicas ou reais, e com a frustração a cavalgar (burralgar?) dentro de si, o burro simplesmente começou a correr, saltou a cerca e desapareceu na linha do horizonte, pelo menos aos olhos da mula e do bardoto.
Ora, saberão os leitores que os burros não são propriamente famosos pela sua velocidade, mas sim pela sua resistência. O burro, na realidade, não foi muito longe, pelo menos nos primeiros dias mas, por pura persistência ou desespero, dependendo de como quisermos pensar a decisão do burro, ele lá continuou, quilómetro após quilómetro, parando apenas quando absolutamente necessário e apenas pelo tempo absolutamente necessário, pois mal as patas estagnavam sentia crescer novamente a frustração, a raiva heterogénea a alastrar como sangue, que rapidamente se tornava insuportável e sem outro remédio recomeçava a corrida.
Ao fim da primeira semana, era noite cerrada quando parou para dormir, ao descobrir um barraco abandonado nos limites de uma aldeia. Podia ter-se deitado mas, ciente de que já não estava em Kansas, decidiu manter-se de pé, não se desse o caso de ter de sair dali de um momento para o outro. Estava já no limbo do sono, quando pensou para si mesmo que nunca tinha estado tão dorido, tão cansado, como naquele momento.
Ao fim do primeiro mês, descansou um dia inteiro pela primeira vez desde que começara a correr. Era primavera e tinha descoberto um lugar resguardado ao pé de um rio e, de manhã, acordou com o sol a aquecer-lhe a pele depois da noite fria e os ouvidos preenchidos pelo som da água a correr livremente. Abriu os olhos e pensou para si mesmo que nunca tinha estado num lugar tão bonito como aquele.
Ao fim do primeiro ano, não exatamente ao dia mas ajustado à inflação, o burro chegou à fronteira entre a terra e o mar. O burro nem sabia que tal fronteira existia até a ver. Subia uma longa encosta quando, subitamente, surgiu à sua frente um enorme universo azul, estendido até ao horizonte onde se unia ao céu. O burro nada disse, não pela falta de ouvidos em seu redor pois, ao fim de um ano, já estava perfeitamente acostumado a falar sozinho, mas porque foi tomado por uma grande emoção que lhe preencheu o corpo cansado. Recordou-se da mãe, de uma forma que não saberia explicar, pois nunca a tinha conhecido nunca com ela tinha falado nunca sequer a ouvira ou cheirara ou tivera dela qualquer memória, mas recordou-se dela vividamente. O burro emocionou-se e ficou ali muito tempo, parado e de pé, a olhar para o que para ele era o fim do mundo.
Ao fim de cinco anos, o burro voltou para de onde tinha partido. Não foi bem propositado mas também não foi bem sem querer, na medida em que não pensara em lá voltar conscientemente, mas o corpo lá o levara. A este ponto, o burro já não era um burro jovem, já não conseguia saltar a cerca como tinha feito cinco anos antes, quando não tinha artroses nem cansaço crónico. Desta vez, deu a volta à cerca calmamente, e entrou pelo portão. A casa onde crescera tinha mudado muito, se degradado muito, talvez os donos tivessem partido ou morrido o que era certo é que já ninguém ali morava, nem bípede nem quadrúpede, só insetos com muitas e variadas patas. O estábulo também não resistiu à passagem do tempo, e era agora um entulho de madeira a simbolizar o passado. O burro parou e inspirou fundo. Recordou-se de todas as coisas que pensava, quando era jovem. Recordou-se de se achar inteligente, de pensar naquele lugar como se todo o mundo fosse e ele fosse para quem o mundo existia. Não resistiu a zurrar um riso, não de gozo embora não pudesse evitar o embaraço, mas o riso era de saudade, em parte, em parte era de tristeza por ter descoberto que havia mais mundo, em parte de felicidade por saber que não morreria sem saber tudo o que existia além daquela casa e daquele estábulo e dos terrenos em redor. O burro ali ficou mais um pouco, a recordar todas essas coisas, antes de voltar a sair pelo portão.
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