PEDRO NUNES
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NOTA PRÉVIA: Após mais de cinco anos a escrever neste espaço, senti a necessidade de atualizar alguns dos textos. Assim, ao longo dos próximos meses, sairão versões atualizadas que tomarão o lugar das antigas. As antigas, contudo, continuarão acessíveis. A versão antiga deste texto pode ser lida aqui.
SOBRE LIBERDADE
Escrever sobre temas específicos é uma pescadinha de rabo na boca. Por um lado, não tenho autoridade, conhecimento ou experiência para falar sobre estes temas; por outro, posso fazê-lo na mesma, como um ditador que coloca o reino todo à procura do próximo bobo da corte… Bem vistas as coisas, isso não é bem uma pescadinha de rabo na boca, não é verdade? É até, diria, uma pescadinha sem o rabo na boca, dado que posso fazer o que quiser aqui, tenho saída de várias maneiras, a pescadinha nem precisa de ver o rabo se olhar em frente e deixar o rabo em paz na sua posição traseira.
Talvez este início de texto venha um dia comprovar que a televisão e os algoritmos reduziram a minha capacidade de reter e processar informação, que estou a ficar mais estúpido com os anos pois nunca escreveria algo assim antigamente, e antigamente teria algo muito mais bonito para dizer sobre liberdade. Como as coisas são, contudo, diminuído das minhas capacidades de dizer coisas bonitas, a questão que fica é a de saber o que pode eventualmente dizer alguém como eu sobre um tema destes. Afinal, vivemos todos as nossas respetivas vidas, não é? Sabemos a diferença entre estar preso e não estar, na generalidade das coisas, e as coisas bonitas e ser livre têm isto em comum, a leviandade que as suas conversas permitem.
Há uns tempos, vi uma senhora idosa toda dobrada, um cajado em cada mão como varas verdes. Cada movimento custava-lhe horrores, cada passo exigia nada menos do que tudo o que aquele corpo nonagenário podia oferecer. Talvez a senhora tenha sido uma pessoa horrível, que batia em órfãos e andava de saltos altos às três da manhã enlouquecendo a vizinha de baixo, quem sabe, só ela e, pela idade, mais ninguém lúcido e capaz de fazer essa avaliação. De qualquer forma, conjeturar razões que justifiquem o que ela possa merecer ou não é um exercício fútil para mim, enquanto observador, ainda que não deixe de ser curioso que tente justificar o sofrimento dela com uma qualquer maldade. Saiu-me naturalmente, agora mesmo enquanto escrevia, este desejo de que ela fosse maléfica e assim assegurar-me de que o mundo tem um sentido. Infelizmente, nunca saberei a verdade; no melhor dos casos, talvez ela tenha um diário onde confessa os seus crimes e, depois de morrer, os filhos ou netos ou bisnetos darão com ele por acaso, na gaveta da mesinha de cabeceira, e ficarão pasmados com os crimes que a senhora cometeu ao longo da vida. É por isso que devemos ter cuidado com os diários, ou acham que é mera coincidência que tantos escritores tenham ordenado a queima dos seus escritos na hora da morte?
Aquela velha senhora perdeu a liberdade do corpo, era aí que queria chegar. Foi ao observá-la que me apercebi que o corpo, por si, antes das leis e dos costumes e das prisões, é um perímetro de liberdade possível. Há quanto tempo não penso nas unhas dos pés ou no umbigo ou na maçã de Adão ou na fístula ou nas fáscias? Uma pessoa, sem querer, toma todas estas coisas por adquiridas quando se é minimamente saudável. Na verdade, não fosse eu minimamente saudável – e com minimamente saudável estou a comparar-me com a velhota que quase não se mexe – e, honestamente, pouco me importava com o resto das liberdades. Podia ter um ditador maléfico sobre mim ou um estado corrupto e violento, o que é que importava? O que me iam fazer? Torturar? Se me abanassem com demasiada força ia logo desta para melhor, nem tempo tinha para revelar os meus segredos. Roubar? Quanta riqueza pode uma pessoa doente acumular num mundo saudável?
Sei o que estão a pensar: é uma criatura muito egoísta, esta, que, só porque está doente, nem sequer quer saber dos outros que também viveriam nesse país demoníaco. A coisa é, se estivesse mesmo doente – e com mesmo doente, mais uma vez, a escala começa naquela senhora caquética – não posso andar aqui em mentiras a dizer que ia querer saber das outras pessoas. É pecado, eu sei! Mas qual é o doente, a cair de podre, todo raquítico e vomitoso, constantemente em sofrimento e afrontamentos, que ia estar verdadeiramente preocupado com os revolucionários? Isso é tema para os saudáveis, os que não perdem 99% do dia estatelados na cama ou no sofá, no reino da semiconsciência onde embalam a dor para que adormeça e os deixe em paz. Aliás, uma revolução tem a tendência de gerar, no imediato, uma grande confusão; afinal, não se muda de sistema de um dia para o outro. E se os meus medicamentos se esgotassem e demorassem semanas a ser repostos? E se as enfermeiras que me vêm limpar as feridas e mudar as fraldas fossem apanhadas no fogo cruzado? Há muitas coisas que se têm de ponderar quando se é doente, coisas que nem ocupam espaço numa mente saudável.
Tudo isto para dizer que a senhora idosa com dois cajados, coitada, estava eu a pensar no que haveria de escrever, e vê-la foi suficiente para me atirar de volta ao chão. Que sei eu sobre o que quer que seja, se até me esqueço da liberdade de não estar doente? Por respeito a ela, tentei genuinamente concentrar-me nessa ideia, no privilégio de poder caminhar à velocidade expectável para um ser humano, a meu bel-prazer, conforme as vontades, de não ter dores por aí além, de poder tropeçar sem temer São Pedro. Ora, de nada me serviu. Não tem qualquer efeito imaginar-me nesses preparos, se sei por dados empíricos que posso dar a volta a esses preparos assim que me apetecer. Seria tão absurdo como dizer, por já ter tido larica, que sei o que é a fome. Não significa nada, nada se aprende ou toma consciência enquanto não for real para os sentidos, enquanto o tato visão olfato audição e palato não disserem que sim, que é mesmo assim a realidade.
Por questões narrativas, deu-se que passado pouco tempo de ter visto a tal velhota, fiquei doente. Nada de sério, claro, senão este texto teria um teor muito diferente, talvez fosse mais melodramático ou mais sarcástico, não saberia dizer, e esse é precisamente o problema, que posso eu dizer de experiências que nunca tive? A realidade é que foi só uma daquelas doenças chatas e nojentas, que todos atravessamos em algum ponto. Ora, estar de cama, tal como ver uma velhota raquítica, ensina algumas coisas interessantes sobre liberdade. Primeiro, porque teoricamente eu poderia levantar-me da cama, mas mãe do Céu que não me apetecia! Teriam de me ameaçar com grande vivacidade para que relutantemente aceitasse levantar-me dali. Isso fez-me novamente pensar na velha senhora. Aonde iria ela, tão lentamente? Com aquela idade, é difícil imaginar que fosse a um encontro urgente, até porque chegaria bastante atrasada àquele ritmo. E se não era urgente, que poder existia naquele corpo que motivasse tanto esforço? Foi então que me apercebi: mesmo que estivesse constantemente num estado semelhante ao dela, eu preservo uma perspetiva de futuro que infelizmente ela já não terá. Quero com isto dizer que há uma outra forma de liberdade em ter-se uma possibilidade de futuro, venha ele a chegar ou não. A velha senhora, na sua nona década, já não terá grande esperança de melhorar a sua condição física ou de prolongar muito mais o seu tempo entre nós. Eu, doentinho, a aproximar-se a largos passos da minha terceira, e apesar de não ser bruxo e de não conseguir prever com exatidão o futuro, acredito que me vou curar e voltar a levantar-me da cama sem queixumes e caminhar e fazer desporto e começar revoluções.
São duas formas de liberdade muito bonitas, estas, a liberdade do corpo e a liberdade de futuro. Se fosse consigliere de um pequeno ditador em ascensão, e fortemente obrigado a colaborar ao ameaçarem-me com a perda de um membro ou um dente, talvez lhe dissesse que deveria começar por aqui: se queres controlar as pessoas, dá-lhes tal sofrimento que para elas nem exista futuro, e o pequeno ditador, estúpido como tantos são, desataria à chicotada por todo o lado, sem perceber que o sofrimento físico é atroz e horrível de se viver, mas é quando a mente é vergada, quando se tolda por completo a esperança de possibilidades, que verdadeiramente se mata uma revolução. Se, por outro lado, fosse um pequeno revolucionário a ludibriar-me com as suas palavras bonitas ou com uma bolsa cheia de moedas de ouro, dir-lhe-ia o oposto: se queres libertar as pessoas, dá-lhes solução para o sofrimento num futuro concreto e possível. Isto soara, quer para um pequeno revolucionário quer para um pequeno ditador, como palavras muito básicas e insignificantes, que não têm o poder dos grandes discursos políticos, não instrumentalizam o que for que o povo especificamente sente num determinado momento, a raiva pelos estrangeiros ou o medo de perder os filhos, não asseguram a proteção das crianças ou a sustentabilidade da segurança social. Contudo, diria eu que sem qualquer ironia admito abertamente não ter qualquer autoridade nestes temas, as pessoas não são assim tão complexas, e isso não é insulto nenhum. As pessoas querem sentir-se bem e querem gostar do futuro; querem viver sem dor e que, caso ela surja, haja ainda esperança de que ela terminará e a vida voltará ao normal. Coletivamente, talvez sejamos mesmo assim tão simples, apesar de toda a complexidade que cada um de nós, individualmente, aparentemente possui; e talvez por isso a violência física possa certamente vergar uma mente individual, mas dificilmente a mente coletiva de um povo.
Acabei o outro texto com a magnânima frase de que conhecimento é liberdade. É certamente uma coisa bonita de se dizer, e ainda mais bonita de se acreditar, porque pressupõe, embora não explicitamente, um conjunto de coisas bonitas: que somos todos capazes de conhecer, que podemos todos ser livres, que temos algo em comum. Também contém outras coisas menos bonitas: a palavra conhecimento não é neutra, e carrega uma boa dose de privilégio, injustiça, dor, e ausência de futuro e liberdade. Em nome do conhecimento, já muita coisa se fez, e se repetimos todas as beldades que se criaram ao ponto da náusea, é o outro lado feio da moeda que se varre para debaixo do tapete. Essas histórias, contudo, não tenho eu a capacidade de as contar, que sou beneficiário delas, e seria um desserviço tentá-lo. Quem as deve contar, então? seria a pergunta óbvia, e descobrimos então numa nova bonita liberdade: a da escuta.
Tanto tempo vivemos em corredores que é fácil esquecer que há mundo para além deles; e tudo o que não vemos ou sentimos, pode sempre ser ouvido que é para isso que se contam histórias. Não sem algum dramatismo, e teremos de esquecer por um momento invenções práticas tão fantásticas como a sanita ou o telescópio, mas acho que não há muita coisa melhor que possamos fazer, enquanto indivíduos comuns, do que ouvirmos alguém livremente, mesmo que falte ao mundo os pozinhos de perlimpimpim que tornariam tudo bonito e fácil de resolver.
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