SOBRE AÇÃO E LIBERDADE

Maria tapou os olhos como se, não vendo, ficasse por sua vez imunizada dos olhares e ninguém a pudesse descobrir; todos passavam e de facto a reconheciam (…) mas naquela reação tão primitiva de negar a sua presença, encerrando em si os sentidos, estava afinal a história do seu tempo, que durava há muitos, muitos séculos. Porque, mais do que nunca advertia Maria, nós não somos a realização espontânea apenas duma época, não somos um nome, um fácies, uma identidade isolada dentro duns costumes, dum povo, duma rua com árvores de ambos os lados e bancos de pedra nos passeios e candeeiros públicos; não somos só uma etapa entre o nascimento e morte, e a história desse percurso. Somos também, acima de tudo, uma forma viva de recordação, o sedimento por todo o passado que se atualiza no nosso conhecimento, na nossa razão, na presença única e comunicada do sangue, pensamento, ação dessa linha perecível e eterna do humano. Em vão pousamos as mãos sobre os nossos olhos e ouvidos, e dizemos não assistir, não comparticipar, não sermos responsáveis dum simples cortejo fúnebre, dessa fisionomia carregada e alvar que o segue, não acompanharmos nem a sua frieza, nem a sua dor, nem a fealdade desse corpo mutilado. (…) De facto, nós estamos lá; em consciência, até ao fim do mundo, nós estamos lá, recusando ou aceitando, negando três vezes como Pedro e chorando a nossa cobardia (…) em todos os crimes, em todas as redenções nós somos cúmplices, e aliados, e irmãos.”

Os Incuráveis – Agustina Bessa-Luís

A larga maioria dos momentos cruciais da minha vida – aqueles cuja centralidade me é inegável – são momentos de desprezo. Talvez aí se vislumbre o fator preponderante para o envelhecimento porque, acredito, ninguém envelhece sem ser desprezado; que é o mesmo que dizer que nada impede uma criança de compreender a humanidade. Numa palavra, por vezes, prende-se tudo o que há a saber sobre esta espécie; ou até o silêncio, no momento certo, pode albergar o universo humano. De resto, só a literatura barata procura estabelecer relações de causa-efeito entre palavras diretas, propositadas, e mágoas profundas. Quem se fere, verdadeiramente, com uma palavra antecipada? Quem pode sentir o rasgo visceral que só os outros nos podem infligir, quando ouve as palavras que já pressentia? Pelo contrário, é nesse pressentimento – independente do que é concretamente dito – que reside a verdadeira agressão. A mágoa origina-se, precisamente, dessa violência do subentendido, aquilo que é dito sem pensar – e, por vezes, até, sem dizer -, nos minuciosos jogos entre palavras e silêncio. Por isso, tantas vezes, podemos até suspeitar, mas raramente compreendemos a extensão das nossas ações. O pior erro, aquele que verdadeiramente assombra, é o que nem sabemos identificar, o que se perde na penumbra dos dias, como uma memória de infância longe da exatidão e que já só sobrevive esteticamente, na perceção não ponderada, como um reflexo.

Agir é, a cada instante, esta complexa relação entre o que fazemos e o que se gera das ações, entre o que antevemos e o que extrapola a antevisão. Agimos invariavelmente – pois ninguém existe somente em pensamento – e a própria vida poderia ser reduzida a esta obrigação catastrófica de ação, para a qual nascemos e onde nos descobrimos já integrados, conformados até, com essa coexistência. Existimos e, enquanto tal, originamos consequências. A tragédia humana é, no fundo, somente esta: a inevitabilidade da ação e a sua consciência. Pudéssemos nós apenas supor, apenas conceber, ou então agir sem qualquer conhecimento de causa, e a vida perderia todo o seu carácter, tornar-se-ia noutra coisa qualquer, irreconhecível. Como é, no entanto, nesta conjuntura em que nos descobrimos, cada momento é enlouquecedor, porque cada decisão é um excesso enigmático que nos ultrapassa sempre e que de nós exige o maior ato de fé. Afinal, vemo-nos a cada instante na exigência de uma decisão, por mais terrivelmente mundana e insignificante que ela seja, e aprendemos, com a repetição, a atentar somente no que diretamente nos implica. De que forma me afeta isto? O que posso conquistar? Como me posso proteger?, pensamos. É um exercício contínuo de esquecimento, não vá eu recordar-me que afeto os outros quando ajo, não vá eu confrontar-me com as minhas limitações e fraquezas! A ação, ainda assim, ultrapassa-nos sempre – não só por desconhecermos como se irá manifestar, fora de nós, na dimensão dos outros; mas também porque não compreendemos sequer as suas origens. Agir é assombroso precisamente porque cada gesto é simultaneamente milenar – ao expressar todo o sangue de uma linhagem, todas as gerações atualizadas num momento, todas as aprendizagens, toda a violência e amor que a constituem – e súbita, imediata, um instante que logo se escapa por entre os dedos, em perpétua transfiguração. E nada disto – nem a consciência nem a letargia, o esforço ou a indiferença – apagam a absoluta necessidade de agir, de existir num determinado espaço e tempo, herdeiros de todo o sangue que nos antecede, e mexer, transformar, comunicar.

Tudo o que se defronta é possível de ser vivido pela autonomia dos fenómenos e de consciência; mas o que se ama extermina a expressão do nosso eu, é a morte na anulação admirável do indivíduo, para a sobre-humana ressurreição noutro indivíduo. Há, nesta correspondência de amor e de morte, um compromisso divino.”

Os Incuráveis – Agustina Bessa-Luís

Em todo este discurso, há uma tónica que nunca o liberta, que o impregna doentiamente, como o vírus mais asqueroso: tudo parece partir e retornar ao mesmo ponto, a este pegajoso Eu. Cada um descobre-se, inesperadamente, na terrível posição de existir, e com essa angústia no centro da sua atenção. Em todos os segundos desde que a consciência nos assola, debatemo-nos com as nossas coordenadas no cosmos, a posição absoluta que instintivamente ocupamos no centro da vida. Enfim, o universo, na sua magnitude, parece ainda girar à volta de cada de um de nós, e o mundo moderno, não obstante as suas conquistas, nada quebrou dessas velhas ilusões. É certo que hoje nos iludimos do contrário, aludindo a uma sociedade aberta e democrática, a tal ponto que juraríamos viver melhor do que todos os outros antes de nós, porque temos possibilidade de escolha onde antes havia imposição. Na realidade, contudo, são ainda os mesmos mecanismos a atuar, o nosso cérebro a decidir por nós, a conferir-nos um atenuar momentâneo da exorbitância da ação. Seduz-nos – e até nos convence – mais uma promessa de emancipação, do que a verdadeira liberdade. É certo que há ainda esse desejo, o que atravessa todas as juventudes, todas as gerações, que está na raiz de todas as revoluções ao prometer, messianicamente, um futuro melhor, mas a sua fraqueza – ainda e sempre –, o tendão de Aquiles que perpetuamente o destrói e assiste à sua regeneração, é a facilidade com que é dominado e canalizado. E assim, de súbito, esse sonho lindo acaba, reduz-se a mera ficção produtiva, a uma nova máquina de propaganda.

Entre o dedo e o ecrã, entre o rosto e o espelho, extingue-se a liberdade; tal como a presa, nos dentes do predador, tem o seu destino delineado. Na prática, a vida na margem do estímulo nada mais é do que aparente passividade; pois somos ainda seres ativos, que criam e atuam, as consequências ainda lá estão, só não as vemos ou aprendemos a ignorá-las. No pior dos casos, passamos até a apreciá-las, a extasiar-nos com o desprezo e a violência. Afinal, ser carne para canhão não é mero acaso probabilístico; é consequência direta de tudo o que consumimos, tudo o que nos atrai, tudo o que nos alivia. A verdadeira eficácia dessa realidade vivemo-la nós hoje: a ilusão plena que segrega na utopia da unidade, que enclausura na utopia da independência, que desumaniza na utopia da tolerância.

A única liberdade – e, com ela, o verdadeiro altruísmo e amor – está em reconhecer a enraizada ilusão da importância, do indivíduo que se idolatra, do reflexo agigantado. Afinal, não será por acaso que os momentos que se realçam numa vida são, geralmente, aqueles em que nos esquecemos de nós próprios, momentos de entrega absoluta à ação que, no fim, nada têm que ver connosco, mas com tudo o resto para além de nós. Cada terrível segundo de quem nunca se desprende de si, de quem nunca aprende a conviver com o passado e os seus pecados, as suas consequências, é mais um segundo de crime cometido, das pequenas e grandes injustiças que perpetuamos, todos os dias, uns aos outros.

Caminhar sem orientação pela floresta mais densa, incapaz de assinalar por onde se veio ou para onde se vai e, ainda assim, caminhar, é o único ato que expressa o terror e a maravilha de viver. Será que alguém preferiria verdadeiramente sentar-se na orla da floresta, à espera de uma hipotética salvação, a embrenhar-se no mistério da natureza?