
NOTA PRÉVIA: Após mais de cinco anos a escrever neste espaço, senti a necessidade de atualizar alguns dos textos. Assim, ao longo dos próximos meses, sairão versões atualizadas que tomarão o lugar das antigas. As antigas, contudo, continuarão acessíveis. A versão antiga deste texto pode ser lida aqui.
CRÓNICAS PARA DORMIR (IV)
Agrupar um conjunto de textos sob a premissa de eles serem escritos à noite, antes de dormir, poderá parecer uma ideia muito engraçada quando ainda não se escreveu nenhum. Progressivamente, contudo, a ideia tem vindo a perder a piada quanto mais a coloco em prática, como tantas coisas que assim começam, devendo-se este desamor a duas principais razões: 1) porque exige que eu me mantenha acordado quando quero dormir, e 2) porque pressupõe que há alguma coisa interessante em escrever no limbo consciente/inconsciente.
A premissa de onde tudo isto partiu é essa segunda razão, claro, a ideia de que há alguma coisa, no limite da consciência, que se escapa sorrateiramente ao misto de embaraços e vieses e preconceitos e até, ou sobretudo, se é para ser honesto, à falta de feitiçaria na minha vida. Afinal, o que eu realmente espero deste momento é um truque de magia. É verdade, e não estou aberto a julgamentos, o universo tem tantos mistérios quantos quisermos e nada impede que seja este mais um. Ou é assim tão ridículo acreditar que, ao equilibrar-me neste limbo meio doentio – porque me faz sentir como um doente a entrar e sair de alucinações – por tempo suficiente, possa fazer um truque de magia? Nem sequer precisava que fosse algo de assombroso; honestamente, se o livro na mesa de cabeceira agora, subitamente, se mexesse um milímetro sem qualquer outra explicação plausível para lá dos meus poderes mentais, estaria satisfeito para o resto da vida, ia dormir descansado, nunca mais escreveria, compraria um farol numa ilha deserta e morreria lá dentro um dia, muito velho e barbudo, sem que ninguém soubesse que uma certa vez tinha feito um livro mexer-se um milímetro com a mente.
Pensarão, talvez, que estou a contentar-me com pouco, quando a magia permite tanta coisa. Claro que gostaria de estabelecer comunicação com um alien ou voar ou matar à distância, mas é precisamente quando nada se tem, que uma pessoa se satisfaz com pouquinho. E responderão então vocês que isso é tudo muito bonito, mas assim que visse o livro mexer um milímetro, ia logo querer dois e três e por aí fora. É a tal relação entre o dedo que se dá e o braço que se quer, quem se satisfaz com um dedinho quando é logo visível que a pessoa tem mais quatro, uma palma, um braço e, como se não chegasse, uma réplica espelhada no outro lado do corpo? Não quero ser arrogante e dizer-vos na cara, senhoras e senhores imaginários, que estão errados, mas acredito que me satisfaria com a mera sugestão de um truque de magia.
O livro não se mexeu. É verdade, se já admiti que quero um truque de magia, também posso admitir que, ao escrevê-lo, ganhei alguma esperança de que ele se desenrolasse aqui ao meu lado por relação causa-efeito com a escrita. Quão incrível seria? E uma ideia original também! Nunca foi pensada esta coisa de escrever algo num caderno e depois a realidade corresponder-lhe. Contudo, como o livro não se mexeu, a sequência há pouco proposta não se desenrolou, pelo que agora estou numa casa normal e aborrecida como são todas as casas, e não num alto farol cilíndrico a ficar velho (eu, não o farol, mas ambos na verdade). Se alguma mente imaginária ficou presa neste pormenor do farol, não se apoquente; é, em grande medida, produto de toda a construção imaginária que criei sobre feitiçaria. Afinal, pelo que sei, os truques de magia têm tendência a ocorrer em locais inóspitos e abandonados, dados naturalmente a pouca vizinhança, e nada para mim espelha essas qualidades como um farol numa ilha deserta.
O mais atento entre vós, imaginários, pensará que cometi aqui uma contradição. Afinal, há pouco disse que a sugestão do truque de magia seria suficiente, e depois iria para o farol e lá ficaria para morrer. Agora, no entanto, acabei de dizer “Os truques de magia têm tendência a ocorrer em locais inóspitos e abandonados”, o que parece sugerir que iria para o farol na esperança de lá encontrar mais truques mágicos. Clemência! Saltei alguns passos ao expressar-me, não tendo a sido a primeira vez, asseguro, mas acho que ainda vou a tempo de esclarecer o sucedido. Ora, voltemos a esta noite, ao agora mesmo, e ao eu escrevedor e ao livro adormentador. Imaginemos: o livro mexe-se subitamente. Pronto, colapsa-me o mundo por baixo dos pés, uma sugestão de truque mágico mesmo ao meu lado! Ter sido eu a causa ou outro feiticeiro qualquer pouca diferença me faz, honestamente, é a sugestão, a proposta de algo novo que me abala o universo. Tendo tal acontecido, seria incompreensível que continuasse só a minha vidinha como se nada fosse. Amanhã levantadinho e pronto para trabalhar, com o cabelo lambido e o polo e as calças caqui? Não há vida normal após ver-se um livro mexer um milímetro sem explicação aparente! O que me restaria fazer – e aqui então entramos na tal sequência de dormir descansado, não escrever, comprar um farol numa ilha deserta, morrer velho e barbudo – era tentar investigar esta sugestão, esta nova janela.
O que mais me despreza entre vós, imaginários, pensará que não há grande diferença entre o que disse agora e o que o mais atento entre vós pensou, mas a diferença é ainda considerável. Não me interessa ser feiticeiro, nem sequer voltar a fazer livros mexer um milímetro, após o primeiro; interessa-me sim essa sugestão, essa janela sugestiva de algo novo e promissor, como a criança que não conhece o mundo ou o cão que, sem saber ler nem escrever, segue euforicamente um rasto deixado por um mistério.
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Parei de escrever por um pouco. Estava encostado à almofada. Levantei-me. Fui beber água. Voltei a encostar-me. O vento faz barulho, lá fora, e vai abanando as persianas contra a janela, o que cria um barulho diferente mas subsequente ao do vento. Um carro ou outro vai atravessando a estrada, que também está lá fora, mas que em nada influencia as persianas, imagino eu. O livro continua quieto no seu sítio. Coloquei um lápis encostado à lombada, quando fui beber água, e voltei para a precisa mesma distância entre os dois objetos. Claro que qualquer feiticeiro que se preze poderia facilmente superar este meu teste do lápis, mas nunca se sabe. Posso ter a sorte de apanhar um mais verde, sem grande experiência de campo, um feiticeiro de laboratório que pouco saiba sobre a arte do encobrimento.
Estava eu preocupado com dar início a este texto e subitamente estou já no fim, foi só começar a falar sobre pessoas imaginárias e truques de magia. Realmente, escrever é tantas vezes tão simples, só requer a primeira palavra, um excesso de confiança e o desconhecimento concreto das coisas.
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