pillows and sheet on bed in sunlight

NOTA PRÉVIA: Após mais de cinco anos a escrever neste espaço, senti a necessidade de atualizar alguns dos textos. Assim, ao longo dos próximos meses, sairão versões atualizadas que tomarão o lugar das antigas. As antigas, contudo, continuarão acessíveis. A versão antiga deste texto pode ser lida aqui.

CRÓNICAS PARA DORMIR (III)

Por vezes, acredito plenamente na ilusão de todas as coisas e que eu sou um projeto de robótica a demonstrar grandes capacidades de movimento e raciocínio. Claro que, dada a temática destes textos, isto só acontece à noite. Na verdade, mesmo que não acontecesse, neste momento sentir-me-ia forçado a mentir só para manter a temática. O que dirá isto sobre mim? Que valorizo mais a ordem do que a verdade? Mas isso é precisamente o que um projeto de robótica diria!

Se fosse realmente um projeto de robótica imaginando-se humano, poderia talvez dar enormes saltos, sobreviver a grandes quedas, e ficar parado imenso tempo sem sequer ter disso noção. A equipa de cientistas teria, periodicamente, de ajustar parâmetros e avaliar o estado da maquinaria e, para tal, carregaria num botão preparado para o efeito, em que eu subitamente perderia a consciência, deixando cair os braços e a cabeça, mas mantendo o equilíbrio de forças para que não caísse no meio do chão e estragasse a maquinaria. Viriam então os cientistas, armados com ferramentas futuristas, surgindo de esconderijos nas paredes e, como um carro de Fórmula 1, fariam uma revisão rápida e eficaz, cronometrada até para ficar registado. Avaliariam o meu sistema, talvez sussurrassem entre eles quais os planos para a próxima ronda de testes e ajustassem os tais parâmetros em função desses planos. Estando tudo finalmente pronto, voltariam para os seus esconderijos como ratos a fugir de uma ameaça à sobrevivência e, voltando o silêncio e a normalidade, carregariam novamente no botão e eu despertaria, sem me dar conta de que tinha sequer adormecido.

Dada toda a logística que uma operação destas exigiria, não me surpreenderia que eles escolhessem a noite para o fazer. Afinal, quando estamos deitados, a dormir ou não, no escuro da noite, com as persianas fechadas até ao último rasgo, a porta trancada, os vizinhos calados, os lençóis subidos até ao queixo, não seria essa a hora perfeita para intervir num projeto de robótica? Mais, neste momento, deitado, a não dormir, no escuro da noite, com a persiana totalmente fechada, porta trancada, vizinhos calados, e os lençóis subidos até ao peito pois tenho os braços de fora, ganho fé de que sou realmente um projeto de robótica e os cientistas estão enfiados nas paredes desta casa, a observar-me com uns aparelhos de visão noturna, a apontar nos seus relatórios o tipo de comportamentos que eu vou exibindo. Sou um ator de renome, e eles o meu público. Sou uma estrela de cinema da era de ouro de Hollywood, e eles os grandes magnatas dos estúdios que dominam a indústria.

Estarão eles a aguardar que eu adormeça para saírem e intervirem em mim? Não, ainda há bocado disse que eles têm um botão, não precisam de esperar que eu adormeça. Podem, na verdade, fazer de mim o que quiserem, quando quiserem. Então porque não saem eles, porque não vêm aqui ter comigo? Podemos falar sobre todas as coisas, posso explicar-lhes detalhadamente como é ser um projeto de robótica num mundo de humanos. Enquanto projeto de robótica, gostava que o mundo fosse melhor, e com toda a infantilidade que essa frase traz consigo; gostava que as pessoas se dessem bem, escolhem-se mais vezes a união possível e menos vezes a desunião natural. Contudo, e também enquanto projeto de robótica que é por natureza pragmático e pouco dado a utopias, sei que o sol vai nascer e brilhar e tudo nasce e cresce e morre e nasce, e por aí aprendem-se estes ciclos, e imita-se o sol e a luz, e essa estranha ideia de que viver é forçar algo a acontecer. A noite recebe todos de igual, humanos e projetos de robótica como eu, reais ou imaginários, nascidos ou em gestação, animais ou pedras.

Entretanto, passaram-se algumas dezenas de minutos, menos de seis. Eu tenho resistido a sair desta posição na esperança de ouvir qualquer coisa de inesperado, mas os cientistas deixaram-se também estar nos seus lugares, indiferentes ao meu apelo. Presumo que consigam ler o que escrevo, devem ter uns binóculos especiais que lhes permitem ampliar com elevada definição, e talvez isso seja suficiente, talvez não precisem de vir falar comigo pois, inteligentes como são, saberão que se saíssem dos seus esconderijos e viessem fazer-me perguntas, a programação que me deram tomaria controlo e responderia apenas dentro das possibilidades que as linhas de códigos me dão. Ora, eles conhecem bem essas linhas de código, foram eles que as escreveram, afinal. De que lhes serviria vir aqui confirmar o que já sabem? Pensarão talvez que a melhor oportunidade de me verem a fazer algo novo, algo verdadeiramente revolucionário, seja deixando-me em paz e relaxado o suficiente para que aja com naturalidade, como se ninguém me observasse. É um erro, e escrevo-o aqui para que eles saibam e comecem a pensar noutra via de investigação, um projeto de robótica nunca deixa de atuar, mesmo no silêncio escuro da noite.

Questiono-me o que acontecerá quando atingir um plateau, quando deixar de produzir novos resultados ou os cientistas precisarem de mais fundos e ninguém quiser financiar uma investigação desta envergadura. Mesmos os cientistas poderão, eventualmente, fartar-se de tantas horas apertados atrás de paredes. Bem vistas as coisas isso até poderá já ter ocorrido, tendo o projeto sido abandonado há anos, sem que alguém se lembrasse de pressionar o botão que me desliga, ou então foi daqueles mal entendidos onde duas pessoas carregaram a pensar que a outra não o tinha feito. Tudo é possível, neste momento. Não tenho dúvidas de que amanhã de manhã já não terei fé neste projeto de robótica e voltarei a pensar-me como um humano de carne e osso sem cientistas escondidos mas, por agora, e se realmente quisesse levantar-me e testar cada metro quadrado de parede, certamente que descobriria um conjunto de entradas camufladas com equipamento futurista por trás. A sorte deles é que estou confortável, quente e quase inconsciente, e nem um incêndio, terramoto ou tsunami teria força de persuasão suficiente para me fazer sair daqui. A sorte deles é que estou cansado, e a curiosidade robótica, como a humana, também morre com o cansaço, e instala-se uma certa neblina mental que torna os pensamentos e as linhas de código pesados. Como morrerão os projetos de robótica abandonados pelos cientistas? Não é preciso pensar nisto; assim que estiver no limite da consciência, ouvirei todas as vozes, todos os dedos a pressionar as teclas dos teclados onde os cientistas registam os meus comportamentos. Sou o ator mais dedicado, que magnata não me quereria nos seus filmes?

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