SOBRE TECNOLOGIA E RESPONSABILIDADE
Numa noite furiosa, deitado numa cama solitária no meu quarto privado, longe da casa onde cresci, julguei-me a morrer. Os pulmões perderam o fôlego, o coração arritmou-se e o meu cérebro, desconfiado, manobrou a libertação de adrenalina que me catapultou para fora da cama. Na casa de banho, confirmei a cor das gengivas, das mucosas dos olhos, pressionei-as e contei o tempo para recuperar a cor, sem me conseguir recordar do intervalo de normalidade. Observei-me como um corpo que morre de olhos abertos, perplexo perante a dimensão do medo, do pânico e do incógnito.

Não é curioso como construímos estes impérios; como cada pessoa tem uma versão própria do paraíso, dos sonhos que almeja com maior ou menor esforço mas que sempre residem como exaltações do ser, abstrações que nos dão algum sentido, alguma ambição de cumprimento da árdua tarefa ocidental de ser espelho divino. No entanto, assim que colapsa a rede, assim que, num fôlego, o fim rasga um universo de muralhas e se depara connosco, solene e absoluto; assim, subitamente, caem por terra os sonhos, os almejos de infindáveis, os pretextos que sustentam o sofrimento dos dias, e queremos só viver. Não morrer. Haverá algum soldado, enterrado nas trincheiras, envolto pela morte, que se aborreça indiferente? Que veja os seus companheiros morrer, trespassados pela violência das balas que rasgam a carne, os órgãos vitais, e pense “curioso como morrem tão facilmente!”?