OS ÚLTIMOS DIAS
– “A fé de nada me serve, agora.” – Diz ele, a voz enegrecida como a penumbra, porque ainda não despertou, verdadeiramente. Ainda persiste naquela forma exclusiva de paz que só a noite pode oferecer, sem a evidência das coisas, sem o concreto que tanto oprime, a perda, o luto, o silêncio onde as memórias fulguram sons familiares, inebriantes – “Que Deus aceita um homem às portas da morte?

– “Olha que não sabes… Preferias um crente desonesto ou um ateu sincero?” – A pergunta confundiu o velho que, ainda deitado, ponderou seriamente em qual das alternativas o seduzia mais. Já só depois de se endireitar na cama, num doloroso esforço, sentiu alguma confiança numa resposta.

– “Depende do estado de espírito. Alguém desanimado preferiria – imagino – um beato reconfortante, ainda que duvidasse das palavras dele…

– “Então e achas que Deus está desanimado?” – Pergunta ela. Uma certa malícia na voz fez o velho sorrir.

– “Que conversa parva…” – Diz ele, ocultando o sorriso – “Como te sentes hoje, Teresinha?