
A SUBTILEZA DA VIDA ADULTA
A subtileza da vida adulta está na serenidade com que nos engole. Podemos afirmá-lo aqui, entre amigos, porque a prova está na própria realidade, na de cada um de nós. Afinal, quem é que verdadeiramente tem pressa? Claro que já todos vivenciámos o nervosismo latente ao trânsito, ao trabalho, aos miúdos que têm de chegar à escola, à velhota que não sossega quando era suposto ser só uma visitinha de médico. Contudo, subjacente a esse nervosismo passageiro, está inevitavelmente a crença de que o tempo que temos – a duração da vida – é suficiente para tudo o que verdadeiramente queremos concretizar. Afinal, se assim não fosse, se ouvíssemos o grito apressado que reverbera, nas vísceras, a debilidade das nossas vidas, em vez de todas estas pequenas pressas com que preenchemos o dia-a-dia, ocuparíamos o tempo exclusivamente com o que verdadeiramente significasse alguma coisa para nós. Tudo o que nos irrita, tudo o que nos frustra, só é tolerável nesta narrativa do tempo porvir. Contudo, na maioria dos casos, mesmo que estejamos semiconscientes deste facto – ou seja, ainda que pensemos nele, distraidamente, enquanto esperamos que o palerma da frente ganhe coragem para se meter na rotunda –, tomaremos, ainda assim, as mesmas decisões, o que nos redireciona à ideia inicial: a subtileza da vida adulta está na serenidade com que nos engole.
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