
AO BALCÃO DE UM BAR
– “Uma terrível avalanche, por exemplo, é algo que pode ser lindíssimo, de encher o olho.” – Declarou Ernesto. Pelos olhares curiosos em seu redor, parecia justificar-se de algo dito anteriormente – “Tudo pode ser apreciado esteticamente, até as maiores violências, e não é esta confissão que faz de mim uma má pessoa.”
Para Ernesto, a vida poderia até preservar o seu progresso, a ascensão às grandes alturas, às grandes distâncias, e, com isso, sugerir as mais rigorosas éticas, mas o fundamento que nunca abandonava, mesmo à custa da salvação religiosa, era o da estética. A sensação, na sua forma mais basal, no âmago meta-ético, era a única verdade que aceitava, a única em que reconhecia uma forma de absolutismo. Contudo, por si, Ernesto dificilmente chegaria a essa conclusão ou sequer reconheceria o quanto adotava essa realidade.
– “Faça o que fizer de si, é certo que não o torna numa boa pessoa…” – Respondeu um rosto, um dos rostos que por ali caminhavam, por entre copos e pequenos aperitivos, meio esfomeados, meio desgraçados, mas na generalidade reformados e sem nada para fazer.
– “Então o que é que faz de mim uma boa pessoa, diga lá.” – Exigiu Ernesto, divertindo-se com a exaltação do rosto que não parecia preparado para a exigência, e a boca balbuciou descontroladamente, como um motor sem nada mais para dar do que o som repetitivo da ignição – “Tenha calma, não se enerve! Se lhe peço, é por mim, não para o envergonhar… Na verdade, ainda gostava de vir a ser uma boa pessoa.”
– “Tem de pensar nos outros, meu querido.” – Talvez como técnica de resgaste, quem falou foi a esposa do rosto exaltado, consideravelmente mais nova e com silvos franceses que espirravam dos gestos mínimos, das mãos, do olhar algo indiferente, do sorriso fino temperado com uma leve dose de desprezo – “Já viu onde acabaria o mundo, se todos fôssemos como o menino?” – O tom pejorativo com que acentuou o termo “menino” terá sido propositado, procurando sugerir uma forma de superioridade imerecida – “Como as coisas estão, já estamos no precipício!… Com um pé a dançar por cima da queda… Temos de voltar atrás, descobrir onde cometemos o erro, e não continuar a andar como se não fosse nada connosco! Senão… Bem, depois disto, só a queda.”
– “A queda…” – Repetiu Ernesto, procurando conferir à palavra o mesmo peso, a mesma teatralidade, enquanto deambulava o vinho tinto numa espiral, dentro do copo, tal como lhe tinham ensinado a fazer. Contudo, terá provavelmente falhado, investindo-a, em vez, de um certo sarcasmo – “E o que é a queda?”
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