
O NASCIMENTO
Na noite em que nasceu Celeste, o inverno vociferava um vento gélido, insuportável, capaz de esfriar a vida à estagnação. Foi, aliás, esse frio toque, o seu primeiro contacto com o mundo exterior. Começara a vida no ventre da mãe; onde, de resto, teria permanecido com agrado, perfeitamente inconsciente da existência de outra realidade além das mucosas e humidades maternas, não fosse a incomensurável força que a expulsou, naquela noite, por mais que ela procurasse resistir. “Não tinha ainda grandes forças…”, explicou ela, uma vez, numa atividade escolar que envolveu as professoras e as turmas da primária. Os rostos oscilavam entre a indiferença – dos seus colegas – e o sarcasmo e desdém – das professoras –, mas Celeste, entregue de coração à tarefa de narrar a sua (então ainda curta) vida, tresloucada por aquele fulminante momento em que o seu corpo foi expulso do de sua mãe, nem sequer reparava. Só retornou à colorida sala, quando a voz de uma das professoras quebrou a ilusão da memória vivida, com uma pergunta que lhe pareceu, de todos os ângulos, absolutamente ridícula. Perguntou-lhe a professora “mas como é que te lembras disso?”, e despertou o riso geral entre as adultas, inclusive as funcionárias que, entretanto, se tinham acumulado à entrada da sala para ouvir o seu relato.
Há que ter em conta que, até este singular momento, nunca tinha ocorrido a Celeste que alguém pudesse viver sem se recordar do seu próprio nascimento. Afinal, bem vistas as coisas, seria de pensar que um acontecimento de tal forma marcante, de tal forma traumatizante, não fosse facilmente apagado da memória. Para Celeste, aquele primeiro vislumbre do mundo que, não o olhar, mas a sua pele tinha feito, ao absorver, sedento, o gélido vento de inverno, tinha-a marcado como nada mais. Toda a sua vida (curta, é certo) era fundamentalmente reduzível àquela primeira sensação, àquele deslumbrante e aterrador segundo. É só no íntimo deste contexto que se pode compreender a resposta que Celeste articulou à professora; mas, claro está, a professora e as restantes adultas naquele espaço – as crianças estavam, na sua maioria, abstraídas desta situação – não conheciam Celeste com tamanho detalhe que lhes permitisse executar esse salto argumentativo. Foi por isso que o riso, já então apaziguado em todas elas, voltou a irromper como um feroz lince sobre a presa distraída, quando Celeste, desconcertada, perguntou “então, se não me lembrasse, como poderia saber que tinha nascido?”
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