O ABISMO
– “É como estar na fronteira do mundo.” – Declarou ele – “Um abismo sem fim.”

– “E o que significa?” – Perguntei.

– “O problema reside precisamente aí.”

*

Quando saí de casa, de manhã cedo, na esperança de que o ritmo temperado dos passos por entre a atmosfera do dia nascente – cinzenta e húmida, própria do inverno – corrigisse o desalinho em que acordei, ao alvorecer, não me ocorreu a possibilidade de reconhecer alguém. Na verdade, foi o acaso que me conduziu através de ruas adormecidas, cruzando-me aqui e ali com um ou outro transeunte madrugador, mas com os quais, respeitosamente, partilhei o desejo de ser ignorado. O mesmo aconteceu com o Henrique, de tal forma que, quando cruzámos caminhos, o vislumbre do seu rosto nada despertou em mim. Ter-se-ia somado, em poucos segundos, à amálgama de anónimos ignorados; não fosse aquele som peculiar.