
A PAUSA
Não há indiferença perante uma porta fechada; é uma analogia perfeita. Ao erguer-se, autocrata, demarca o fim e o início do cosmos. Um mundo que acaba, um mundo que começa. O caminho, por entre, poderia ser direto, de fácil acesso e retrocesso; mas a porta impõe uma pausa. Nada se afirma, nada se nega, a porta só sustém e promete; e é neste suspenso promissor que se diferencia, pois as janelas nada prometem, as paredes tudo negam – só as portas não se comprometem.
O que sustenta a analogia? É que a vida exige movimento; é, em si, um exercício dinâmico. Um passo em frente nunca é só um passo em frente: é uma conjugação de forças, de atritos e reentrâncias, determinismos fatais que nos encaminham, solenemente. Até a hesitação no passo é-nos prescrita, o passo atrás também o é, e por entre estas violências que nos constringem e nos isolam, vemos a porta fechada à nossa frente e, por um momento, um breve, inóspito momento, reconhecemo-nos.
Eu sou a porta.
O pensamento trespassou-me assim, perante a porta, pronto a sair. Já tinha a mão a meia viagem da fria maçaneta, pelo que foi aí que ficou – a meio da viagem. Foi um pensamento bizarro mas não inocente; foi antes dos que se enraízam nos nervos e negam as sinapses, obrigando a uma qualquer forma de paralisia que sempre surge ou remete o mundo ao silêncio.
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