NOTA PRÉVIA: Após mais de cinco anos a escrever neste espaço, senti a necessidade de atualizar alguns dos textos. Assim, ao longo dos próximos meses, sairão versões atualizadas que tomarão o lugar das antigas. As antigas, contudo, continuarão acessíveis. A versão antiga deste texto pode ser lida aqui.

AS COISAS QUE SE HERDAM
Lutei muitas vezes contra a evidência de não conseguir controlar todos os aspetos da minha existência. Gostaria de ser perfeitamente moldável, integrar-me na realidade em meu redor sem esforço e esquecer as parvoíces que se vão acumulando, o cansaço e a raiva e todas as pequenas memórias. Contudo, um dia uma pessoa acorda, reflete sobre onde está, o que fez, o que disse e como o disse, e descobre que nunca foi isento, que o sangue não é apenas água num moinho, parte mecânica de um mecanismo. Ser herdeiro, mais do que uma responsabilidade ou injustiça, é uma inevitabilidade.

Claro que uma pessoa acorda e também pensa outras coisas menos bombásticas. Por vezes, uma pessoa acorda com meio corpo ainda preso num sonho, e adiciona-se uma camada irreal à realidade, como se essa tal uma pessoa nem fosse bem capaz de acreditar que o sonho foi mesmo só um sonho, se ainda há pouco lhe influía os sentidos com as mais variadas emoções. Se calhar uma pessoa é o Martim Manhã, e hoje acordou e é César ou Cleópatra ou o seu tetravô que batia na sua tetravó porque desconfiava que ela pedia a Deus em orações que a libertasse daquele casamento. Noutras vezes, uma pessoa acorda e pensa que tem fome, que tem sono, que não se quer levantar, que preferia partir uma perna que o forçasse a ficar na cama a ser saudável e ter de cumprir os requisitos mínimos de um indivíduo funcional. Depois uma pessoa sente-se culpada, porque recorda-se dos vídeos que ainda ontem lhe apareceram no feed de pessoas que perderam membros num bombardeamento espetacular, com uma cinematografia impecável, e também daquelas crianças cheias de doenças que apareciam nos mealheiros da UNICEF em que já não pensava há décadas, mas mesmo essa culpa, agora que ninguém está a ver, parece um bocado tola já que não é por se levantar que vai fazer alguma coisa sobre isso. Claro que uma pessoa não é estúpida, e sabe que tudo isto é um jogo de desculpabilização que todos podem fazer, até os maiores criminosos, e assim viverem menos chateados com os seus crimes, se por acaso lhes pesarem na alma. Por tudo isto, uma pessoa acaba por se levantar, por ir tomar banho, por tomar o pequeno-almoço e por sair de casa.

Tudo isto para dizer que somos incríveis criadores de histórias, afinal, veja-se a quantidade de coisas que uma pessoa pode pensar só ao despertar! Já estaríamos extintos se não inventássemos coisas tão magníficas como uma nacionalidade, fronteiras, propriedade, dever cívico, justiça, e tudo o resto que tem permitido a estabilidade suficiente para procriar e multiplicar. Somos também crentes, porque acreditamos nestas histórias com convicção e contra toda a evidência; afinal, cai uma bomba, vem uma tempestade, um cometa do espaço, um incêndio apocalíptico, e nada respeita estas histórias que criámos, as fronteiras de nada nos servem nem a justiça salva os coitados que se descobrem no caminho dessas calamidades.

Quando, ainda há pouco, referi que não controlava todos os aspetos da minha vida, em boa parte falava destas histórias. Do plano do mundo, de cima, falando das pessoas como se falássemos de formigas, há muitas histórias sobre-humanas que recebemos e prolongamos, dependendo do quando e do onde nascemos. Os portugueses são saudosos e sebastianistas, os europeus são humanistas e civilizados, os outros são um bocado esquisitos com os seus deuses estranhos, e os americanos ora são perigosos porque têm armas, ora são sexy porque fazem bonitos discursos e ações pela paz mundial. Coisas assim. Depois, há um plano menor, mais concreto, menos dado a generalizações e, por isso, mais próximo dessa tal uma pessoa que acorda e pensa que não quer sair da cama.

Se olharmos primeiro para esse grande plano, talvez descubramos que as guerras, as calamidades, os eventos trágicos e magníficos em grande escala têm algo em comum que reduz o número de histórias que daí nascem: é que foram vividos por muitos. E se pode acontecer que cada um, perspetiva única, viva essa experiência de forma particular, essa comunidade que se cria em redor de um evento vai, a longo prazo, constringir as metástases criativas que a mente humana é capaz. Eventualmente, surge uma narrativa estável, uma espécie de síntese normalizada que é, de forma geral, adotada e depois ensinada nas escolas para os meninos e as meninas aprenderem. Os pais contam aos filhos, os professores aos alunos e, em menos de um século, já a história se cristalizou. Mesmo que algum especialista venha pôr alguma coisa em causa, torna-se mais uma questão de interesse académico, de quem tem tempo para investigar essas coisas, do que do senso comum, que já tomou uma decisão sobre como se deram os eventos.

Ora, o mesmo não se passa, claro está, com as histórias mais pequeninas. Disse, e mantenho, que somos todos incríveis criadores de histórias – podemos não criar todos histórias universais, das que se ensinam na escola aos tais meninos e meninas, mas criamos as nossas próprias histórias. Acontece que, neste prisma, a situação é bastante mais complexa. Voltemos àquela uma pessoa que deixámos lá atrás. Depois daquele complexo início de manhã, chega ao trabalho e, umas horas depois, está a almoçar com os colegas. A conversa, por pura coincidência deste texto, depois de atravessar os tópicos de maior importância, recai sobre a forma como cada um desperta. Cada um, à vez, vai descrevendo como começa as suas manhãs. A nossa uma pessoa, chegando o seu momento, dá um toque da sua graça e embeleza aqueles minutos iniciais. Por exemplo, não falou sobre a preferência em partir uma perna em vez de se levantar porque lhe pareceu desapropriado para um ambiente de trabalho, mas disse que quase se convenceu de que estava doente e que devia ligar a avisar que não poderia ir trabalhar. Houve uma educada gargalhada geral. Depois, terminada a ronda, cada um voltou para o seu posto. Um ano depois, a nossa uma pessoa está num bar com um conjunto de amigos. Estão todos a queixar-se do facto de trabalharem e de como isso retira o tempo que gostariam de ter para fazer outras coisas. Falam sobre as manhãs, que são sempre a pior parte, principalmente no inverno. A nossa uma pessoa conta novamente a história “houve um dia que acordei e, genuinamente, quase me convenci que estava doente. Estava quase para ligar ao meu chefe e dizer-lhe que não conseguia ir, mas decidi levantar-me primeiro e deixar passar uns minutos. Então não é que estava tudo bem? Só não queria levantar-me!”. Passam-se mais uns bons anos, e a nossa uma pessoa conta pela enésima vez a mesma história aos filhos. Na sua cabeça, há uma resiliência importante naquela história, mostra dedicação e esforço, algo que falhou na educação que lhes deu. O mais velho está agora com um aspeto bastante frágil, teve uns dias complicados, quer desistir de tudo ou ir viajar para o sudeste asiático ou descobrir uma nova vocação. A nossa uma pessoa conta-lhe como, quando era jovem, ele até doente ia trabalhar. “Um dia acordei quase nem me conseguia levantar. Devia estar cheio de febre! Mas sabes o que fiz? Levantei-me e fui trabalhar.” O filho, anos mais tarde, já mais ajustado com as coisas da vida, num almoço no trabalho, descobre que um dos seus colegas meteu baixa porque estava em burnout. Todos, educadamente, expressam preocupação e reconhecem que pode acontecer a qualquer um. O filho da nossa uma pessoa, apesar de também expressar as mesmas ideias, em si, não consegue evitar pensar que aquele seu colega sempre foi fraco, dependente, incapaz de assumir responsabilidade a sério, um peso mais do que qualquer valor acrescentado para a empresa. “Pessoas destas”, pensa, “não deveriam ter estas oportunidades.”

São tudo histórias que se herdam, de aparência tão insignificante, das que se contam por piada em festas ou por saudade em funerais, que parecem sempre ser de outros tempos mas que na verdade nunca terminam, têm este hábito de retornar, ano após ano, década após década, geração após geração. Podem perder as palavras e já não serem contadas, não como se contam as coisas do dia e os resumos dos livros. Contudo, preservam-se de forma mais arrojada, nos gestos, nos atos, nos pensamentos, nas escolhas e desejos e vontades e ódios e desprezos. As palavras que usamos dentro de um dicionário tão vasto, as escolhas no modo de construir as frases, de as pronunciar e enunciar – em tudo, histórias e herdeiros.