NOTA PRÉVIA: Após mais de cinco anos a escrever neste espaço, senti a necessidade de atualizar alguns dos textos. Assim, ao longo dos próximos meses, sairão versões atualizadas que tomarão o lugar das antigas. As antigas, contudo, continuarão acessíveis. A versão antiga deste texto pode ser lida aqui.

SOBRE CONFORMISMO
Há um pássaro na gaiola. A inocência remete-nos para os mesmos paralelismos, as mesmas inócuas metáforas de sempre. É terrivelmente fácil usar estes símbolos universais, dizer as mesmas universalidades de onde nada se aprende, e esperar pacientemente pelo reconhecimento. É aqui, nestas coisas, que o conformismo mais ilude. É aqui que se exaltam as mais apáticas almas, as mais desnutridas emoções, as revoluções de algibeira. Só o conformismo confere o privilégio de encarnar um pobre sem o ser, de preservar essas representações como realidade. Só o conformismo possibilita a verdadeira violência da memória, a dos vitoriosos, a dos que definem a posteriori como alguém, uma família, uma classe, é recordada. Nenhuma história é verdadeira; reveste-se sempre em ilusões de justiça e ordem que na experiência vivida, os que verdadeiramente a vivem, não existem. Pelo simples facto de ser escrita, de poder ser lida e interpretada, uma história já escapa à experiência de quem a viveu, toma uma vida própria, paralela, solo de perspetivas que, por mais benévolas que sejam, ou até pretensamente alheias e desinteressadas, são ainda violência pois enterram mais fundo o morto de onde partem. O pássaro, na gaiola, não tem voto na minha decisão de o escrever; não tem escolha em como será recordado. Tantos anos depois do primeiro texto, já não existirá pássaro ou gaiola, os seus restos materiais já terão sido consumidos e distribuídos pelas novas coisas do mundo, as que surgiram entretanto. Aqui, neste texto, volta a tornar-se numa personagem, num mecanismo para conduzir uma ideia, uma arma de arremesso, com falas que não são suas mas que lhe são associadas, como se nem a voz, o piar, tivesse sido seu.

Nada há de errado, por si, com o conforto que brota do corpo conformado, e quem nunca se refastelou no sofá que atire a primeira pedra; mas é esse estado que condiz com qualquer sistema. Ninguém se revolta a partir do conforto da sua cama, mesmo que reconheça a injustiça da sua posição. Condoam-se, talvez, com os pobres e os malditos, os que a sorte nada reservou além de um buraco no chão, choram os seus sofrimentos e contemplam as planícies a pensar neles, nos seus dilemas, na maneira como caem que nem tordos com qualquer desgraça. Entristecem-se quando ouvem os números, x subterrados nas minas, y com as tempestades, z com as cheias súbitas, e ainda todos os que morrem na guerra, cada tiro cada melro, as carnes ainda quentes e já foram transmutados em dados estatísticos. Tudo, para o corpo conformado, é entretenimento emocional; é querer sentir só para passar o tempo, para trazer uma excitação inócua aos dias quando eles se assemelham em demasia. Na gaiola, o pássaro não tem grande escolha. Talvez nunca sequer tenha provado a liberdade; aquela portinha que, pelo uso, podia nem estar ali, provavelmente nunca voltou a ser aberta depois do bicho ali entrar. Come uma mistura de sementes, com todos os nutrientes essenciais para uma dieta equilibrada, mas que sabe a merda desenxabida, depois dá dois saltos como se voasse, para frente e para trás, de volta às sementes onde enfia o bico, irritado com a comida, e manda as sementes para o chão onde a merda se acumula. Vive assim no meio da merda e das sementes que sabem a merda. Fecha os olhos, por um momento, como se precisasse de ir ao inferno buscar alguém, e então pia, pia com os pulmões todos, como uma bomba atómica a rebentar, como é que algo tão pequenino faz tanto barulho?

Ainda ecoa por aqui hoje – só ecos, nada de histórias ou morais ou mandamentos, que os animais não têm essas coisas, não sabem humilhar os outros, usam em vez o toque e o canto e os movimentos e a sensação. Herdam, nos genes, os que os antecedem, vivendo-os na sua pele numa homeostasia geracional. Nós também já fomos assim, já soubemos herdar e conhecer os mortos dentro de nós, e também nós temos um grito milenar, ecos que cá chegam desde o início da humanidade, quando descobrimos as ferramentas e a agricultura e o sustento sedentário. Terão então pensado os nossos antepassados que, em menos de nada, os dias de fome seriam uma memória distante, e que as lutas, as hierarquias, as violências desnecessárias naturalmente se dissolveriam, perdida a sua função de sobrevivência. Tal não se deu, e por não se ter dado, esses ecos milenares conduzem uma raiva inominável, uma força colossal sempre crescente, que atravessa todas as épocas e toma forma nessa entidade abstrata que é o povo. Nada nem ninguém tem a força subversiva, a possibilidade de mudança, que reside nessa estranheza de uma existência coletiva que vive mal desnecessariamente, que vive prejudicada e humilhada desde que há memória. As histórias, as narrativas, as morais – com todas essas ficções mudam-se as cores das grades, a conjugação de sementes, acrescenta-se um poleiro para que o pássaro dê um salto extra e finja assim mais dignamente voar. Mas é quando pia, quando os pulmões se enchem e derramam tudo cá para fora, é então que o pássaro enverga os antepassados, os milénios de humilhação e violência, desde o primeiro pássaro colocado numa gaiola para morrer no meio da merda e das sementes que sabem a merda.