PEDRO NUNES
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ARTISTA – A Revolução Tem Instagram, Somos Todos Artistas

NOTA PRÉVIA: Após mais de cinco anos a escrever neste espaço, senti a necessidade de atualizar alguns dos textos. Assim, ao longo dos próximos meses, sairão versões atualizadas que tomarão o lugar das antigas. As antigas, contudo, continuarão acessíveis. A versão antiga deste texto pode ser lida aqui.
CHUVAS DE OUTONO
Uma pequena gota de água cai de uma pequena distância, num curto intervalo de tempo, fazendo um pequeno som – um tímido pling – que viveu uma curta vida antes de morrer uma rápida morte e ir para o pequeno paraíso das pequenas gotas de água. Eu ouvi a pequena gota de água a fazer o seu tímido pling, como um pequeno anunciar do fim da desmedida chuvada que caía, ainda há pouco. Senti eu, então, um pequeno terror; como se a chuva fosse um veloz dilúvio e a água viesse encher esta pequena casa e sufocar este pequeno eu. Encontrariam este pequeno corpo, talvez inchado com tanta água, e teriam de fazer um sorteio e quem tirasse o pauzinho mais pequeno seria o condenado a espremer as minhas pequenas entranhas para que desinchasse. Quem sabe, talvez a pequena gota de água saísse de dentro de mim, expelida pela pessoa que tirasse o mais pequeno pauzinho, condenado a espremer os meus pequenos pulmões, expulsando assim a água de dentro dos minúsculos alvéolos e a pequena gota de água sair-me-ia pelo nariz.
Esse pequeno terror passou, com o anúncio tímido do fim do dilúvio. À minha frente, o dia nasce e um pequeno sol começa a emergir, imitando as cores que aparecem nos documentários dos pequenos domingos da RTP. Sentado, a ver o pequeno sol emergir, desconfortável com as pequenas perguntas que inevitavelmente coloco a mim mesmo, justas sem dúvida, mas não menos chatas por isso, ouvi a tal pequena gota de água a cair a sua pequena distância. De súbito, todo este pequeno eu fervilhou para fora de si, expulsou-se de si mesmo e foi atirar-se todo para cima daquela pequena gota que nada deixou, uma vez caída e morrida uma rápida morte, a não ser uma pequena pocinha, tão pequenina que me passaria despercebida, na maioria dos dias, não estivesse todo o pequeno eu atirado para cima dela.
Que coisa magnífica!, pensei o que só poderia ser um pequeno pensamento. Encantei-me ao esquecer-me de tudo, subitamente. Todos os pequenos traumas a ocupar os seus respetivos pequenos espaços, convergindo, de certa forma, num único pequeno eu, mas divergindo, de outra forma, em raiva heterogénea, como uma árvore sem tronco, só ramos frutíferos, todos subitamente longe, arrancados e atirados para tão grande distância.
Agora, todo o pequeno eu já voltou para dentro de si, e vejo, à minha frente, o dia a nascer e um pequeno sol a começar a emergir. A coisa magnífica que tão grande distância colocou entre mim e os meus pequenos traumas ainda está ali, pequena pocinha, outrora pequena gota de água, mas a sua força sedutora extinguiu-se, já não faz fervilhar o pequeno eu. Foi só um pequeno momento. O olhar que se surpreendeu com a queda dessa pequena distância de uma pequena gota de água, e nessa surpresa, foi como se o mundo me chamasse de volta para a inconsciência, para um qualquer modo diferente de existência que quase nada exige, só uma pequena exigência: a de viver fora deste pequeno eu, como buraco que se abre na terra. Tão pouco exige o mundo. Tão fácil seria viver em comunhão, uns nos outros, como os mortos que habitam os vivos porque os vivos abrem espaço, o seu espaço, a única verdadeira posse que um pequeno ser vivo tem no cosmos imenso, mas mesmo essa, que nasce connosco, de nada nos serve enquanto posse. Ter é um inferno venenoso que nunca se cansa, elevado a divindade das divindades, permeando até os tais alvéolos, minúsculos, e as pequenas gotas de água.
Que luz terrível brilha agora que o sol despertou! Aos poucos, esta luz vai tornando novamente inconcebível a sugestão daquela pequena gota de água, como se um manto cinzento fosse caindo sobre todas as coisas que poderiam mudar o mundo, homogeneizando-as numa única impossibilidade, uma pequena irritação no fundo da mente, uma sugestão bonita mas sempre só isso, nada mais. Não tarda, começarão as pequenas distrações sensitivas que facilitam o dia a dia, os jogos visuais, os ataques sonoros, os solavancos degustativos que no imediato são a salvação, removem a urgência do tempo e quase permitem gozar com os pecados imperdoáveis que vão ocorrendo. Por agora, é só o sol a dar o exemplo; a imensidão de confiança que exibe, que nem permite olhá-lo de frente sem pagar um pesado preço, é talvez o mais belo modelo sobre o qual se construiu a sociedade. Quem resiste a um Deus todo luminoso só porque, na sua exuberância, se secam as pocinhas e as pequenas gotas de água?
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