PEDRO NUNES
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NOTA PRÉVIA: Após mais de cinco anos a escrever neste espaço, senti a necessidade de atualizar alguns dos textos. Assim, ao longo dos próximos meses, sairão versões atualizadas que tomarão o lugar das antigas. As antigas, contudo, continuarão acessíveis. A versão antiga deste texto pode ser lida aqui.
SOBRE HUMILDADE
Alguém acorda a boiar no oceano. Passa-lhe pela cabeça que boiar é uma das mais extraordinárias coisas de que o ser humano é capaz. Afinal, quem preveria, observando esta espécie a galopar em cavalos, a voar em parapentes e a visitar a lua, que os seus indivíduos poderiam simplesmente deitar-se na superfície do oceano sem recorrer a qualquer ferramenta? É certo que Jesus caminhou na água, deixando assim registada a sua origem divina, e de certa forma denegrindo esta coisa extraordinária de que somos todos capazes, mas nem os passos de Jesus, se pensarmos um pouco, podem remover a espetacularidade do ato de boiar – a boiação.
Como é que eu vim aqui ter?, pensa o nosso Alguém, já que não se recorda de se deitar no oceano, e ainda que se recordasse, parece-lhe um tanto improvável que fosse adormecer assim, como se nada fosse. É perspicaz, o nosso Alguém, mas infelizmente não encontrará as respostas aqui nem nas palavras que se seguem. Sem saber como, veio parar a uma reflexão sobre humildade, uma palavra que ironicamente, dadas as presentes circunstâncias, terá a sua ascendência no latino humus, -i, ‘solo, terra’.
Humildade?, pergunta Alguém. Sim, responde o narrador. O que há a dizer sobre humildade? Pelo que parece, dá para falar sobre pássaros, nómadas, artistas. O que tem isso a ver com humildade? Ora, uma excelente pergunta.
Alguém sente uma leve agitação na água, pequenas ondas que vão embatendo contra o seu corpo. Olha em redor, com a cabeça e o toráx a fazer um ângulo reto, mas sem que retire dessa acrobacia grande proveito, já que Alguém só vê a linha do horizonte desocupada, nem sequer a miragem de um barco. Não quer, mas acaba por arreliar-se um pouco com o seu próprio cérebro, por nem ser capaz de criar uma qualquer esperança fictícia, ao longe. Afinal, Alguém reconhece que está condenado. Mais tarde ou mais cedo, acabará no fundo do oceano.
O fundo do oceano. Um pensamento simples, mas que gera um novo ágil movimento, com Alguém a dar a volta ao corpo, permanecendo a boiar, mas agora numa posição bastante mais inútil, uma vez que tem o rosto submerso. Abre os olhos debaixo de água e espanta-se com o que vê, ouvindo-se aquele estranho grito afogado, transformado em bolhas e agitação. Por fim, volta-se, findado o nervosismo inicial, rosto novamente a encarar o céu.
Será importante o narrador esclarecer, antes que avancemos para diálogos mais longos onde tudo isto se tornará numa grande salganhada, que Alguém fala em itálico, assim, o que facilita a distinção do narrador que, como se pode ver, não tem direito a qualquer formatação.
Suponho que saibas o que está ali no fundo. Sim. Um sem fim de mortos, todos iguais a mim. Sim, estou a par. Só isso? Só isso o quê? Não vais explicar nada? O que queres que explique? Ora bem, podes começar por explicar o que fazem aqueles corpos todos ali. Morreram afogados. E são iguais a mim porque… É uma ideia algo simples. Ser humilde é reconhecer erros, fraquezas, falhas, certo? Aprender, reconhecer as limitações, renovar a visão, os sentidos. Um processo contínuo e interminável de renovação. Há sempre mais a aprender, sempre mais erros que se cometem. Quem vive, é confrontado – conscientemente ou não – com a estranha ideia de que a nossa vida implica, algures, um sacrifício. Um sacrifício que nos mantém vivos, pelo nosso tempo de vida. Não é só a comida ou o impacto ambiental; é a violência. Somos violentos, na medida em que ignoramos a extensão dos danos que causamos mas somos forçados a causá-los na mesma, se quisermos viver.
Alguém fecha os olhos e inspira fundo, e liberta-se aos poucos da exasperação que as palavras do narrador lhe causaram. Ao falar, agora, já nada na sua voz denuncia essa irritação. E então? E então o quê? O que tem isso a ver comigo? Tu és um mecanismo para refletir sobre essa situação. Eu sou um mecanismo? Sim. E isso não te parece um bocado injusto? Na medida em que não tens grande escolha, sim, é um bocado injusto.
Alguém fecha novamente os olhos; por um lado, para considerar as suas opções, por outro, decidido a ignorar o narrador antes que o sangue lhe ferva. Passados alguns minutos, não vê mais do que três opções: ou 1) nada até perder as forças e morre algures; ou 2) deixa-se ficar a boiar até perder as forças e morre; ou 3) mergulha e procura por alguma coisa no fundo do oceano, eventualmente perdendo as forças e morrendo. Nenhuma opção lhe parece ideal, certamente nenhuma lhe parece justa, mas reconhece que acabará por se decidir por uma delas, quer queira quer não.
O que é que eu represento, exatamente? Um esforço contínuo por humildade. E os afogados? As exigências desse esforço, como tirar as escamas a um peixe. Mas não é tudo isto um bocado contraditório? Como assim? Falar sobre humildade através de uma historinha? Não estás logo a minar-te à partida? Em que sentido? No sentido em que estás mascarado por personagens e metáforas, evitando assim ter de dizer alguma coisa direta ou assumir uma posição. O narrador pensa um pouco antes de responder. É possível que tenhas razão, mas falar sobre estas coisas não é fácil. Está-se sempre na corda bamba, entre o simples e o ridículo.
Alguém deixa escapar um lamento de ar, e pondera novamente nas suas três opções. Rapidamente toma consciência de que seria impensável ficar ali, à espera da morte, sem fazer nada. Assim, e após várias respirações profundas, gira sobre si uma vez mais e mergulha, vertical.
Paralelo aos seus sósias empilhados, a quem vai observando de soslaio, à medida que mais fundo vai, Alguém repara que certas mudanças vão ocorrendo. Como é próprio do tempo e da degradação natural das coisas, os corpos, quanto mais fundo, menos retêm dos seus aspetos originais, misturando-se o que sobra com a vida animal e vegetal em proliferação, penetrando nos corpos e saindo pelas bocas e pelos olhos em grande esplendor. Vasos humanos, pensa Alguém, ao chegar mesmo ao fundo, onde já nada humano resta, e só tempo tem de se assombrar com a massa exótica de bichos, texturas e cores, antes de nadar apressadamente para cima, ávido por ar.
E toda aquela aberração profana no fundo do mar, diz Alguém, após uns momentos para recuperar o fôlego e já novamente a boiar na posição inicial, é suposto ser o quê? A humildade implica deixar alguma coisa para trás. Mas, nesse processo em que se perde, também se abre um novo espaço; e nesse espaço, surgem coisas novas, de que nem se tinha consciência antes. E o que é que isso significa? Como é que posso dizê-lo de outra forma? Bem… não faltam palavras.
É a vez do narrador fechar os olhos e ponderar as suas opções.
Uma pessoa humilde reconhece as suas limitações melhor do que uma pessoa que não é? Suponho que sim. Supões? É difícil ter certezas nestas coisas. Assumamos, então. Se assim é, essa pessoa humilde será, mais do que a outra, capaz de compreender essas limitações, não? O que queres dizer com limitações? A maneira como interpretamos o mundo. O que nos assusta, o que nos empolga. O que valorizamos e desprezamos. Até aquilo que simplesmente vemos, que percecionamos. Um macaco nascido longe das cidades e que nunca tenha visto um ser humano, vive a sua vida sem nunca despender um segundo que seja do seu pensamento connosco. Todos nós fazemos o mesmo, com tudo aquilo que escapa à nossa realidade próxima, ao que não nos é familiar. Está bem, mas o que é que isso importa? Importa porque, sem humildade, cada um vive a pensar que o que vê e o que sente e o que pensa é tudo o que existe! Das pequenas às grandes coisas, e na perspetiva de cada um, o que não corresponde a esse prisma, nem sequer tem o direito a ser percecionado, é remetido para uma forma de desprezo única que é a negação da sua existência. Não morre nem nasce, não tem pais nem irmãos, nem sequer ter direito ao sofrimento – como todos os micróbios na maior parte do tempo.
Alguém tenta fazer sentido de várias coisas; e agradece por estar a boiar, reconhecendo que a leveza da água e a forma serena como lhe sustenta o corpo ajuda-o a concentrar-se.
Estou a boiar agora, como sabes; e, ao boiar assim, calmamente, esqueço-me até que tenho braços e pernas. Sou pouco humilde por causa disso? Não, serias pouco humilde se tivesses um terceiro braço em que nunca tinhas reparado, por estar nas tuas costas e por não te servir para nada; e eu te mostrasse o braço num espelho, e tu continuasses a negar-lhe a existência. A humildade seria o processo de reconhecer o terceiro braço? A humildade seria o processo de reconheceres que não és tu quem decide se o braço existe; e que é o braço que vive em ti, através de ti, como os teus amigos ali em baixo, que são agora terra onde outras coisas nascem e proliferam.
Alguém recorda a imagem do fundo do oceano, o crescimento desalmado de espécies que nunca tinha visto, mas a imagem quase lhe traz o vómito à boca, ao rever as expressões desfiguradas, as cavidades oculares trespassadas por algas e fungos e crustáceos.
Posso fazer-te uma pergunta? Claro. Como é que esperas que as pessoas queiram sequer saber destas coisas, no dia-a-dia? Mesmo desconsiderando quem passa fome e vive de desgraça em desgraça, onde, ao longo do dia, é que se deve colocar a preocupação com os micróbios? Com aquilo que nem se sente, nem se vê, nem se sabe que existe? Quanta culpa queres atribuir a cada um? Somos todos culpados? Ninguém é? Porque eu certamente não escolhi estar aqui, nem sei se me podes culpar por não ter consciência dos micróbios enquanto boio no oceano no meio do nada. Não tenho resposta para nenhuma dessas perguntas. Gostava de poder dizer que há uma base objetiva para sermos todos responsáveis, um Deus que impusesse isso a cada um, mas dificilmente esse dia chegará. É certo que há um privilégio em ter nascido do lado certo do mundo, mas mesmo esse privilégio não foi uma decisão que cada um tomou para si e pela qual possa necessariamente ser responsabilizado. Qual é o lado certo do mundo? É uma forma de falar – é o lado que sempre pôde definir o que era certo e o que era errado, tanto para si como para os outros. Muitas pessoas nascem, vivem e morrem a pensar que a sua forma de viver é a única correta. Sobem a montanha no teleférico e, lá no sopé da montanha, veem alguém a preparar-se para a escalar e pensam que é um coitado que não pôde pagar para subir como eles. Nem lhes ocorre que há experiências profundas que em nada se relacionam com o delírio deles pela eficácia. Os esquisitos, os pobres, os estranhos, os defeituosos, os velhos, os burros, os doentes – são tudo pessoas que sabem coisas sobre o mundo, sobre a vida, que nenhuma pessoa perfeitamente saudável e enquadrada no seu mundo sabe.
Alguém sabe que deveria agora dizer alguma coisa. Pensa, até, para si, que bastaria concordar ou acenar que fosse para dar um fim mais digno à estranha conversa. Contudo, mesmo quando está quase a convencer-se a fazê-lo, é subitamente incapaz. Não quer ser digno, não quer ser bom. Está irritado. Detesta saber que não tem escolha, que morrerá no meio do nada independentemente da sua vontade e, pior, que a sua raiva, a sua revolta é insignificante. Ninguém descobrirá o seu corpo, ninguém investigará a sua morte, e ninguém recordará a injustiça que lhe pregaram aqui, no meio do oceano.
Eu quero lá saber dos pobres! E dos zarolhos e dos disformes e das aberrações. O que me interessa tudo isso? Num par de horas estarei afogado! De que me acusas, afinal? Estou aqui para ser castigado? Castiga-me, então, mas não me venhas com sermões. Se te faz sentir melhor, diz essas coisas a ti mesmo, mas deixa-me em paz de resto! Tu não és real, estás escrito num pedaço de papel digital, és um mecanismo, como te disse, a tua raiva é ela própria um mecanismo. Ora bem, se não és rápido a tornares-te no que criticas!
Alguém e narrador viram costas um ao outro, dentro do possível, dadas as circunstâncias. Só horas depois, já a noite caiu e o frio enregela Alguém, tornando as suas palavras fracas, volta a falar. Estás aí? Sim. Desculpa lá, mas estou assustado. Como te compreendo.
Deverá estar ligado para publicar um comentário.