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PEDRO NUNES
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Estou a escrever isto no meio de grande caos e barulheira. Não o tipo de caos e barulheira que uma pessoa pensa, quando pensa em finais de ano, mas não menos caótico ou barulhento, asseguro. Estou gravemente desconcentrado e a escrever estas frases conforme me ocorrem, com grandes intervalos de tempo entre elas, pelo que saem aos saltos, aos solavancos, como o xarope de agave do Continente, cuja tampa só tem dois modos: ou bloqueio total ou total derrame. Estou no final do ano, deste ano, 2025, que começou a 1 de janeiro e terminará a 31 de dezembro. Nunca uma coleção de frases poderá resumir um ano, e ter começado esta ideia de fazer um texto anual partiu de uma vontade de ter alguma coisa para escrever, primeiro, e segundo de querer dizer coisas importantes e que merecessem grande reflexão dos leitores. Ora, a primeira cumpriu-se, na medida em que algo se escreveu, mas a segunda não, obviamente.

O que estou a tentar dizer é que estes textos anuais, e pode ir comprová-lo quem quiser pois não os apagarei por causa disso, são conjuntos de frases inócuas, que não fazem mal nem bem nem coisa alguma. São sem interesse. E porque teriam qualquer interesse?, é a questão que eu deveria ter começado por colocar no final de 2020, quando escrevi o primeiro – ou melhor, tendo em conta que era o primeiro, deveria ter perguntado tenho eu alguma coisa de interessante para dizer sobre 2020? A resposta correta mas, infelizmente, não a que eu daria, porque em 2020 convencera-me que tinha algo de interessante para dizer, seria não. Ninguém que queira dizer coisas interessantes consegue realmente fazê-lo. É um motivador errado, que gera apenas a mesma massa amorfa e bolorenta que se vê em todo o lado. A um certo nível, eu estava consciente disso, ainda que essa consciência estivesse esmagada por uma aparente confiança a mascarar medo, vergonha e solidão. Estas três palavras estão também elas já contaminadas por bolor. Só dizê-las deixa-me com um sabor rançoso na boca, mas escrevo-as porque as imagino nas suas versões mais nojentas e pegajosas, como vómito ou cheiro a azeitona, que nada tem de bonito ou poético, que não motiva qualquer canção ou narrativa, e que não se conta, mais tarde, a quem quer que seja, como se fosse uma história bonita para adormecer. Quem idealiza estas coisas, vive no mundo bafiento do faz de conta, onde tudo é progresso e parte de uma qualquer jornada bonita de desenvolvimento pessoal. A minha experiência não é, nem nunca foi, de progresso. Os suores de medo e vergonha que atravessaram o meu corpo, não fizeram de mim uma pessoa melhor, nem foram degraus para o sucesso. Foram veneno do dia a dia, como um velho doente que quer voltar a ser jovem para que a sua pele volte a ser limpa e firme e bela. O que verdadeiramente lhe custa não é ser doente, que disso pode sempre tirar-se proveito, mas sim já não ser bonito como era e fazer agora parte dos feios e deformados que perdem o seu lugar no mundo simplesmente por existirem como existem.

Dá para notar que o barulho e o caos acalmaram? As frases estão mais conectadas, seguindo-se umas às outras como se caminhassem numa só direção. Posso dizer aqui, a este ponto do texto, que não sei bem para onde estão a ir, depreendo pelo que já disse até agora que vou tentar defender-me de ataques imaginários, argumentando que não ache que agora esteja a dizer coisas interessantes. Na verdade, e talvez até cada vez mais, não sei bem o que são as (AS!) coisas interessantes. Ouço sempre falar dos grandes eventos e dos grandes discursos e dos grandes livros e das grandes músicas e dos heróis do mundo antigo e dos heróis do mundo moderno e dos transcendentes e dos universais e dos realistas e dos que são a voz do povo que combatem as elites que revolucionam a sociedade. Tanta mas tanta conversa da treta, não as pessoas, essas que viveram e tentaram coisas, quer as tenham realizado ou não, mas as histórias que se contam sobre elas. Somos todos terríveis. Somos mesmo mesmo terríveis. Haverá, claro, os que entre nós se esforçam para ser os mais horríveis, como se fosse uma competição, retêm o que de pior podem do mundo e usam isso como combustível para justificar o que quer que lhes dê na telha. Mas vestir o fato de bom samaritano e escrever uma história bonita sobre as nossas vidas, só porque podemos, só porque temos medo de morrer e queremos que alguém no futuro ache que fomos mesmo seres humanos impecáveis, não muda o facto de sermos, ao longo dos anos que tenhamos para viver, pessoas terríveis.

Voltou um pouco do caos e barulheira. Há uma espécie de sensação que se espalha pelo corpo, como se um arrepio viesse em câmara lenta e apenas irritasse a pele e ela quisesse esticar-se toda ao mesmo tempo em todas as direções. As decisões que se tomam ao longo de um ano podem muito bem estar a tentar fugir. Tenho a mente a mil porque tive pesadelos ontem. Vi alguém morrer no quarto e pensei, enquanto arrumava o resto da casa pois estava de saída, que era uma chatice interminável ter um morto no quarto. Alguém o descobriria, eventualmente, e a minha vida ficaria para sempre marcada por esse erro crasso. Acordei depois, obviamente, mas essa sensação de inevitabilidade mantém-se comigo como uma âncora, e estas sensações ancorosas têm o condor de envenenar o ambiente, como se tudo se deturpasse ou se virasse do avesso e até o simples perdesse a simplicidade ao forçar-me a reaprendê-lo. Ups, acho que estou outra vez a cair em metáforas e jogos de palavras. Só queria dizer que estes dias, como o ano novo, que se repetem ciclicamente, nunca são o mesmo dia e mostram precisamente isso pois podemos chamar-lhe o mesmo, repetir as tradições, mas nunca se vive de forma igual. Talvez por isso tenha sonhado com o morto no quarto, ficou lá como um empecilho, agarrado a mim pela memória e por esta sensação de saber que ele lá está, mesmo que limpe a casa toda, sinalizando que nada voltará a ser igual.

É agora um dia depois, um dia de um novo ano. Arrebentaram foguetes em todo o lado, talvez ainda alguns estejam para arrebentar num qualquer canto do mundo. As pessoas juntam-se, há um momento de bondosa amnésia coletiva onde, quem pode – e nem todos podem –, esquece os problemas grandes e pequenos. Admiro este género de experiências, como uma reza conjunta ou uma ida ao cinema. Eu sei lá o que o Ricardo no meio do Terreiro do Paço quer para o próximo ano ou se ele sequer fez alguma coisa para merecer uma vida melhor ou se não será ele a reencarnação do Jack, O Estripador, todo arrogante por nunca ter sido apanhado. Tudo o que sei sobre ele é que, aparentemente, o Ricardo está esperançoso pelo novo ano, disse-o ao jornalista e sorriu e o amigo atrás berrou e saltou-lhe para os ombros e são felizes agora. Por quanto tempo serão felizes? Há um lado meu muito romântico que quer dizer que aquela experiência do Ricardo com o amigo é algo bonito que mostra uma faceta simpática da humanidade, mas isso seria conversa da treta, lá está, e qualquer pessoa que tenha vivido cinco anos adultos saberá que estas coisas são só coisas que se dizem por dizer, num folgo de momento, porque sabe bem dizê-lo e pensá-lo neste momento em particular, mas que passará muito rapidamente, assim que o Ricardo e o amigo deixem de ser um espetáculo para apreciar e se tornem, por que razão seja, um entrave, um empecilho. Somos uma multidão de espetáculo. Queremos ser entretidos e que isso nos faça sentir bem. Queremos ver os pobrezinhos ao longe, onde nos dão pena sem estarem à nossa frente de mão estendida, a pedir a nós, em particular. Queremos complicar muito as ideias simples para justificar que nada se faça, verdadeiramente, que nada se tente.

Já chega de afirmações bombásticas. Há tanta coisa boa em nós, ainda assim. O novo ano traz verdadeiros desejos de mudança, na medida em que as pessoas parecem verdadeiramente desejar mudar para melhor. Se o conseguem, aparentemente a maioria não, mas é difícil culpar alguém por evitar riscos quando dormem à noite e a almofada sussurra as dívidas ao banco e os custos da educação e a saúde que já não é o que era. Antigamente, muitas pessoas eram pobres e só morriam, não havia nada a fazer. Hoje, também se morre, mas é-se menos pobre e há uma maior esperança na cura, e quem não gostaria de ser curado e viver mais? O emprego que se conseguiu, tantas vezes foi tão difícil de ali chegar, o contrato, a segurança, a estabilidade para comprar uma casa que será a casa para toda a vida. Talvez não seja a casa ideal, talvez as paredes não isolem tão bem, talvez o frio entre e talvez os vizinhos sejam ruidosos e talvez o espaço não chegue para todos os filhos que se queria ter, mas é alguma coisa. Tem que se tirar alguma satisfação dessa alguma coisa, ou então tem que se encontrar um bom vício para o dia a dia, algo que simule esta fantástica sensação do novo ano, quando a mudança parece simples e a vida livre de uma forma expansiva e empolgante.

Já chega de afirmações bombásticas! O primeiro dia deste ano vai terminar em pouco tempo e, ao terminar, dissipar-se-ão essas bonitas fugazes esperanças. Volta o mundo e as pessoas aos seus respetivos estados terríveis, com todo o respeito, à espera do próximo espetáculo que nos irrite ou emocione antes de irmos dormir, pois somos boas pessoas mas estamos com sono e amanhã é dia de trabalho. Não fosse isso, e haveria tanto para fazer.

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