2024

“Ecce agnus Dei, ecce qui tollit peccata mundi.”

“Eis o cordeiro de Deus, eis quem tira os pecados do mundo.”

Uma reflexão anual tem, desde logo, um ponto de partida erróneo, porque a memória é de uma modalidade diferente da experiência dos dias. A memória centra-se em acontecimentos-chave, em momentos maiores, cuja importância – seja ela positiva ou negativa – como que infesta e se sobrepõe. Assim, não é da experiência verdadeira que a memória se alimenta, mas de pequenos trechos, sensações internas poderosas que, entranhando-se na recordação, sugerem uma ingénua simplicidade. Um compêndio, em vez do estudo exaustivo.

Uma reflexão anual é, portanto, já à partida, falaciosa; e algumas falácias têm a particular delicadeza de ultrapassarem o seu próprio criador. A partir de certo ponto, já não mais interessa a realidade – ou melhor, a experiência que subjetivamente fazemos da realidade, o modo como sentimos e somos sentidos, como esteticamente nos surpreendemos – porque é essa recordação falaciosa que decidimos como verdade, como facto objetivo, e a partir da qual pensamos todas as outras coisas. Dizemos “Ai, eu nunca gostei de bolo-rei!” e essa interjeição sobrepõe-se a todos os bolos-reis com que nos deparamos; dizemos “Ai, as coisas não são como eram dantes!” e é todo o futuro, incerto, que se reduz à perda e ao luto; dizemos “Ai, amanhã é que vai estar bom!” e é todo o presente, o único que verdadeiramente nos toca, que se entristece no desprezo.

Assim, uma reflexão anual deveria ensinar a não fazer reflexões anuais, e estas seriam duzentas e tais palavras trágicas, a anunciar um fim. Parecemos condenados a generalizações, às pequenas mentiras que vamos contando a nós próprios, num esforço de conferir sentido a um mundo que nos escapa por entre os dedos. Agarramo-nos a essas pequenas mentiras porque é delas que sobrevivemos, é no âmago delas que encontramos segurança e conforto, vivendo, a maioria de nós, numa certa indiferença por certos ou errados. Afinal, a ética é bonita, mas quase sempre um exercício muito mais belo em teoria, no exotismo do pensamento, do que propriamente quando aplicado. Talvez queiramos ser boas pessoas, talvez sonhemos com boas ações e gestos solidários… Mas o presente, o viver de cada um, está sempre vinculado à violência, aos confrontos indeléveis em que agimos na ambiguidade, sem nunca sabermos se estamos corretos ou não. Por vezes, até reconhecemos o erro, até desejamos resistir-lhe… Mas o ambíguo toma forma, introduz-nos na situação e, de súbito, já nada é assim tão errado. Somos tentados a agir como nos convém, concebendo os nossos próprios espetáculos onde tudo é passível de transformação para se coadunar às narrativas que criamos. Essa tentação do erro, a tentação da falha, desse mal que a religião tanto procura remover do mundo, parece fazer parte da nossa experiência com a mesma potência de que se investe a fome ou o cansaço. A tragédia humana é sempre esta ambiguidade, a ausência de certezas omnipresentes, de um narrador fidedigno que exalte as virtudes e os vícios definitivamente. O que encontramos, em vez, é uma pluralidade de vozes sempre incoerentes, sempre contextuais, sempre hipotéticas, como maravilhas de uma criança, e que a realidade corrompe e corrói até à desfiguração total. Generalizar qualquer uma dessas vozes – assumi-la como verdade absoluta – é sempre uma forma de imposição, pois há sempre alguém que tem de ser esmagado, impiedosamente, para se criar uma narrativa única. A História, como uma dessas narrativas – pretensamente, a de toda a humanidade –, é tão-só o conjunto do que foi dito pelos vencedores das guerras, pelas classes dominantes, pelos heróis autoproclamados que ordenaram a alguém que a escrevesse.

E não é uma reflexão anual tudo isto? Uma tentativa desmensurada por criar uma narrativa única? Um exercício egoísta, de autojustificação, que se inflama na imensidão desse ego, cego a tanto, esquecido de outro tanto, incapaz de entender as consequências das suas ações – qual monarca tirânico – mas, ainda assim, sôfrego por narrar a história que o coloca no centro?… Sinto-me cada vez mais longe destas ideias megalómanas. Em todas as defesas de definições estáticas e absolutas, leio invariavelmente uma resolução que se tenta impor sobre a realidade. Querer este estático, querer esse sonho triunfante que nunca muda, num mundo que é ele próprio contínua mudança, será um desejo compreensível a qualquer humano que se descobre subitamente a viver. No entanto, se num esforço, procurássemos pensar a realidade fora da nossa humana visão dominante, que obrigação há de existir algo fixo ou – mais avassalador – porque haveríamos nós de ser capazes de o descobrir? O mistério do mundo – da vida, da morte – é o único mistério, a única pergunta, inolvidável, resistente a todas as respostas, fundacional para todas as outras perguntas. O que ela ensina – o único ensinamento – é a desafiante conceção de que não há conhecimento, domínio, ciência ou qualquer outro palavrão ocidental que a descodifique. Só a fé, quando é pura, a pressente; porque só a fé, quando é pura, não ambiciona qualquer posse ou entendimento.

Não enlouqueci nem me tornei beato, nem foram os meus sonhos que se reduziram ou um desespero que me tomou. Estou sim cansado do facilitismo de visões niilistas ou idealismos amorfos que infetam e reduzem a realidade a um insípido antropocentrismo. Em vez das insossas autocomiserações, o que se iniciou, em mim, foi o doloroso processo de me descentrar. Aos poucos, a beleza da insignificância, de ver o mundo correr em meu redor sem que a minha mão se sinta responsável, sem que o meu ego exija algo para si, é a única liberdade que ambiciono. Num inesperado – aos olhos de um rapaz dez anos mais novo – revés, parece ser nesta perda de mim que me encontro. Ao ausentar-me, ao escancarar a porta, abro espaço para que o mundo flua através de mim. Tudo o que não sou, usa-me, serve-se de mim; e nessa servidão que me desconstrói, descubro que a segurança e o conforto, as tais pequenas mentiras que agora colapsam, nunca existiram, nunca houve qualquer segurança. Viver nessas ilusões do que a vida deveria ser – tomem a forma que tomarem – é ficar sempre aquém do potencial humano. É escolher uma narrativa única e, por entre, esmagar o que não se coaduna. Fecha-se a porta, não se dá passagem. Odeia-se, despreza-se, censura-se.

O que, ainda assim, salva uma reflexão anual da condenação que antes lhe fiz, é a possibilidade que se enxerga nela e em todos os erros: a de aprender. Tudo o que acontece, o bom e o mau, o fácil e o difícil, são terríveis ou magníficas oportunidades. Somos sempre surpreendidos, traumatizados, sacudidos pela experiência dos dias. Momentos breves, em que a tal pergunta no fundo da mente se sobreleva. A hesitação, o medo, o recomeço, o exagero, a tentativa, a frustração – em tudo, vive a oportunidade de ver o mundo de uma forma diferente à que fomos ensinados. Um passo como tantos outros. Um erro a cometer, tantas vezes quantas necessárias. Aprender, aprender, aprender. Nunca ficar satisfeito, nunca pensar que terminou. Afinal, não será por acaso que as ambiciosas boas pessoas são, geralmente, as que mais longe estão de o ser; enquanto quem verdadeiramente o tenta, na difícil ambiguidade dos dias, raramente exige títulos ou compensações.