PEDRO NUNES
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SOBRE AUTENTICIDADE
Um chilrear. Um carro faz a curva. O vento oscila os altos ramos. Uma pinga viaja livre, por um momento, antes de embater. Logo outra se segue, mais distante, numa encenação da chuva que ainda há pouco caía. O sol espreita, num segundo, mas logo as nuvens recuperam o equilíbrio, o horizonte cinzento que retém o rasgo violento da luz. Um chilrear. Outro que lhe responde. Um carro faz a curva. Outro apita, mais distante. O odor da chuva emana de todas as coisas. Ásperos passos, apressados, incidem violentamente nas poças de água. As pingas voam, já não tão livres, estas, mas embatem também. Um carro faz a curva. Um chilrear distante, um próximo, sobrepõem-se. O vento acelera, e os ramos chicoteiam-se num movimento apressado. Um carro apita, duas buzinadelas rápidas, sinaleiras. Duas mais, mais próximas. Uma longa, por fim, agressiva. O chilrear pára e a euforia das asas afasta os pássaros chilreantes do perigo. Uma pinga cai. Um autocarro empurra os ramos ao fazer a curva, simulando o vento. O sol espreita novamente. As nuvens hesitam. Uma voz abafada ameaça o momento; acaba mesmo por quebrá-lo, ao entrar pela porta adentro. O que é aqui?, pergunta, as pessoas fazem sempre as mesmas perguntas. Uma exposição. As pinturas estão por cima de mesas e cadeiras, outras no chão. Algumas simulam os Nenúfares de Monet. Uns traços negros, densos, com camadas e camadas de tinta, sobrepõem-se em todas as pinturas, como uma mancha, um pecado, um sinal da fraqueza do pintor. O chão flutuante, as paredes brancas. O eco dos passos. O brilhar verde da saída de emergência, vermelho da câmara de vigilância, branco das luzes lineares no teto. Azulejos, que se escondem por detrás das paredes brancas, retratam a vida da Sagrada Família. Um papel indica o preço das pinturas, outro sugere ao espectador que participe nelas. Posso levar?, pergunta (sempre as mesmas perguntas), enquanto o dedo indicador aponta para a folha de sala. Claro. Obrigado. Os passos afastam-se, em ecos cada vez mais distantes. Ao longe, um carro faz a curva. O sol espreita, incidindo no chão de pedra, por um momento. Depois, as nuvens encobrem-no. Uma pinga. O vento. Os altos ramos. Um chilrear.
Para além de toda a fisicalidade e fisiologia, foi a consciência do tempo que primeiro me condicionou a interpretar a realidade no contexto da limitação. Frase longa para dizer, simplesmente, que faltará tempo, e que essa constatação me veio primeiro do que qualquer outra das várias que derrotam a invencibilidade da infância. De imediato, coloca-se a questão óbvia – faltará tempo para quê? – já que tanto apreciamos os encadeamentos lógicos, estas passagens claras e diretas de um para dois e dois para três e três para quatro e por aí fora até ao infinito. Pelo infinito, no entanto, não temos tanto apreço; e não temos, dir-se-á, porque é inimaginável. Podemos nomeá-lo, é certo, chamar-lhe todas as coisas que nos apetecer, mas verdadeiramente acolher o seu conteúdo, a vastidão de algo interminável, supera as nossas humanas limitações. No entanto, seria um erro histórico ver nesta falta de apreço, uma aversão. Tanto quanto desconfiamos, também nos fascina essa ausência de término, não estivesse a humanidade recheada de demandas infinitas. Ligam-se, aqui, o início e o resto deste parágrafo: faltará tempo, para mim, porque a única verdadeira luta da minha vida, o único esforço, é um de autenticidade, de onde tudo o resto deriva; e a autenticidade é um deserto infinito. Um horizonte que seduz, perpetuamente, ainda que na consciência da sua impossibilidade. Só compreendo o que compreendo, só sei o que sei, no contexto do tempo em que vivo. A dois mil anos de hoje, já nada restará desse esforço, sequer. O contexto em metamorfose dará origem a um novo mundo, a uma nova compreensão da realidade, e o meu tempo será um exercício histórico que se recordará sempre enviesado, sempre inautêntico. Viés sobre viés – é esse o ciclo onde sucumbe, que fere de morte, qualquer verdade, e obriga a confrontar o mundo sem fundamento, sem ordem, sem definição – infinito. Onde poderá sequer viver o autêntico num mundo sem base? No momento? Na inefabilidade do momento? Mas também o momento me mente, porque esse tempo vivido nunca está livre de condicionantes, de primazias que deturpam a sua suposta fidelidade. Afinal, quantas vezes já me escapou algo fundamental, simplesmente por ter ignorado a minha visão periférica? Quantas palavras, ditas de passagem, o meu cérebro desprezou? Por mais que procure autenticidade, pareço estar, ainda e sempre, invariavelmente preso a mim mesmo, ao mundo que vou concebendo num eterno exercício de recriação. E se esta recriação sugere algo de positivo, um certo romantismo divino de criador absoluto, é apenas uma sugestão mal fundamentada que não me livra do pecado. Na realidade, se abro os olhos, se encaro de frente tudo o resto e dou forma a meu bel-prazer, já cometi o erro, já caí. Porque em todas essas visões vivem os meus prejuízos, o viés que por hábito identifico comigo, nomeando-o com o meu nome, localizando-o nos meus pés. Humano, longe das fabulações etimológicas, é um viés nomeado e localizado, e por isso condenado a ser uma projeção limitada a um tempo e a um espaço. Inautêntico. Nunca conhecedor de qualquer conceito intransigente, um que não só perdure para além da humanidade mas seja mesmo indiferente a nós todos, precisamente por não termos sido o seu criador. Um deus, noutras palavras. Quero com isto dizer que, se enfrento o mundo, se me coloco perante ele em exigências, já me condenei a encontrar respostas enviesadas por mim. Pois o meu método de escuta, a minha atenção, está focada em detalhes, por assim dizer, presa às condições, como se apenas houvesse uma forma de ver, de ouvir, de estar no mundo. Como se tivesse de partir sempre de mim para pensar todas as coisas.
O carácter exclusivo desta postura de confronto é, também ele, produto desse enviesamento. Como uma câmara de eco, a sua força está no excluir de tudo o resto e permitir apenas a repetição da nossa própria voz. Sair dessa posição, rejeitá-la, é o maior exercício acrobático do século XXI, pois tudo em nosso redor alimenta-a e promove-a. Na generalidade das coisas, descobrimo-nos, com uma suposta naturalidade, a não querer nada mais do que possuir e satisfazer – esses dois motores insaciáveis da sociedade moderna, enraizados no nosso solo como veneno nas canalizações. Suposta pois, na verdade, queremos segurança e validação genuína, estar no lar e com a família, tome tudo isso a forma que tomar – e que não se reduz a elogios plásticos ou convulsões eróticas que, na sua base, não passam de formas evoluídas de desprezo – mas aprendemos, culturalmente, a misturar esse conforto existencial, imprescindível para o nosso bem-estar, com ideais abstrusos que nada mais são do que fabricações oleadas, profundamente eficazes na arte de reter controlo, do domínio. Uma vez criada essa ligação, somos facilmente controláveis porque nós – animais evoluídos e racionais do século XXI – dispensamos qualquer lei ou chefe, e submetemo-nos alegremente às tendências enquanto nos iludirem com a possibilidade de escolha. Entregamos gratuitamente a nossa autonomia a qualquer aparelho que nos prometa a abstração da assustadora realidade, desde que não nos oprimam de forma descarada, desde que não queimem os livros ou as bruxas ou as casas – apenas escondam-nos atrás de paywalls ou ridicularizem-nas ou façam-nos crer que viver em 20 m2 não é só saudável como ideal. Em grande medida, não somos assim tão diferentes da criança aterrorizada do escuro que se esconde debaixo dos lençóis dos pais. Envergamos as mais ridículas personagens – do mais forte ao mais sexy ao mais charmoso ao mais quirky ao mais demente ao mais zen ao mais culto ao mais idiota ao mais empreendedor ao mais frugal –, entretemo-nos entre nós, a idolatrar ou desprezar uns e outros conforme as ondas, e queixamo-nos passivamente do trânsito e do emprego e das horas a que entramos e saímos e os gays e os trans e os imigrantes e os emigrantes e o Trump que vai causar a III Guerra Mundial e o Putin que come criancinhas ao pequeno-almoço, a sexta-feira que nunca mais acaba, segunda que vem sempre depressa, domingo que é dia santo e podemos rezar pela saúde que é o mais importante enquanto apostamos em vinte ligas diferentes e usamos os 20 spins gratuitos do registo na Solverde – mas o Anticristo é o ChatGPT que vai matar a criatividade, o que vão fazer todos os poetas e pintores e escritores e fotógrafos e escultores e cineastas se não tiverem a exclusividade da palavra artista para esconderem as inseguranças, como é que o público vai discernir a verdadeira arte, Deus nos livre de só experienciarmos o que quer que seja sem primeiro fazermos o curso de iniciação à apreciação estética do mais reputado utilizador do LinkedIn que nos enviou vinte mensagens a perguntar se viste a minha mensagem? como técnica de marketing que aprendeu no curso de empreendedores a 499€/módulo (*conselhos exclusivos de investimentos – “Time in the market beats timing the market!”). Felizmente, ainda temos o riso histérico do tiktok para nos indicar quando é para rir, pois torna-se progressivamente mais difícil.
Para quem se sente insatisfeito, exasperado, vazio de qualquer experiência genuína, o passo mais difícil será, porventura, o primeiro de todos: o reconhecer do enviesamento em que cada um de nós se encontra. Há sacrifícios inevitáveis nesse caminho. Recusar os estímulos. Fechar os olhos. Não confrontar o mundo, como se tudo existisse para mim, em vista à minha satisfação e exaltação. Apreciar o aborrecimento, a insignificância, a temporalidade de tudo e a ausência de respostas. Estar perto e longe, a chegar e a partir, a uma distância infinita de qualquer forma de meta. Aceitar que a lucidez humana não é uma resposta, mas uma eterna pergunta, interminável, que sempre se faz, mesmo no desconforto, mesmo que fosse tão mais fácil sentar no sofá e abrir os olhos. Deus, autenticidade, sabedoria, amor, verdade – são palavras que, como fechaduras por onde se espreita para o outro lado da porta, designam o mesmo: uma demanda infinita. Espaços infinitos de aprendizagem.
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