PEDRO NUNES
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SOBRE PAZ E ESPERANÇA
Os inícios são sempre irresistivelmente poderosos; marcam um nascer fulgurante, contendo, em si, o dinamismo daquilo que pode ainda escolher qualquer caminho, qualquer direção. Uma criança recém-nascida materializa esse fulgor inicial, a abertura das possibilidades, preservadas aquém das decisões. É aqui, nestes inícios, que a vida é mais intoxicante, pois é como se sugerisse uma alternativa para a morte, como se o nosso destino pudesse verdadeiramente ser outro. Não haverá, talvez, outro destino; e, contudo, é de esperanças infundadas que nascem as mais disruptivas ideias.
Poderia começar por dizer que é ao sentar-me, por entre o silêncio ponderado, que me reencontro com os meus sentidos. Contudo, na verdade, eles nunca se ausentam, verdadeiramente; ao sentar-me, por entre o silêncio ponderado, o que se manifesta é o seu salto para primeiro plano, os seus relatos poliglotas do mundo, finalmente centrados na minha atenção. Poliglotas, porque cada sentido expressa-se na sua língua singular, mas, em todas elas, expressam-se os mesmos espectros. Somos animais de contraste, e os nossos sentidos exaltam, invariavelmente, esses mesmos contrastes. Segurança e perigo, excitação e acalmia, guerra e paz. Animais de contraste, sim, mas não polarizados, pois estes não são conceitos estáticos, estacionários nas suas posições extremas, como se tão-só se negassem uns ao outros – pelo contrário, é o dinamismo inerente da vida que permite aprender o que verdadeiramente significa estar em segurança ou em perigo, excitado ou calmo, em guerra ou em paz. É a paz na guerra, a guerra na paz que mais fielmente expressa a experiência humana – não fosse sempre criada pelo ruído, a necessidade mais expressiva de silêncio.
Só quando me sento para escrever, quando centro os meus sentidos, é que verdadeiramente me apercebo do modo anómalo como o tempo caminha. Estes atos – sentar, escrever – remetem-me, como numa alucinação efervescente, para todos os momentos em que os realizei, emergindo dos meus movimentos num derradeiro grito antes de retornarem à penumbra da memória. Sou ainda eu, como era antes; e, contudo, há um universo que me distingue e distancia de quem eu era, impedindo-me de sentir o passado na primeira pessoa. Há tão-só um momento, um único momento em que a memória me assola e a sua efervescência, intensa e inegável, vivo-a como minha e atual; depois, como sombra, o que sobra é o diálogo onde me vejo, sem certezas, a conversar com esse passado – como um outro, um amigo distante, a quem novamente se estranha.
Quem é este estranho amigo, então? Quando dou por mim, estou em diálogos com ideais, orientações. Quem fui sobrevive assim, nestas indicações de sonhos, como peças soltas que indiciam o conjunto, apontam para ele sem verdadeiramente o mostrar. Recordo-me, portanto, como um ideal a que apontei, uma esperança em tudo semelhante a uma crença, à desmedida que transcende os limites da vida quotidiana. No entanto, é esse mesmo quotidiano que sempre retorna. A realidade, enfim, dificulta sempre a esperança e a crença – até porque evidencia o constante confronto entre o que idealizamos ser e o que concretamente somos, entre o que deveria ser e o que verdadeiramente é. A falha é sempre parte da experiência humana; a ausência é sempre parte da crença. Acreditar – tome a forma que tomar – requer, inevitavelmente, a fé em algo incerto, contestável, absurdo até. Por isso, dar por mim, recordar-me, é conhecer-me num mundo ao qual não posso escapar nem inserir-me, calmamente; dar por mim é viver o idílico e o possível, o quotidiano que sempre espelha o meu desejo de revolta, a minha condição de desterrado, imiscuída na necessidade de estar aqui e agora, no presente que é sempre o único tempo que verdadeiramente experienciamos.
É ao aproximar-me da cidade que essa evidência infecta os meus sentidos. Sinto, de imediato, a forma peculiar como ela me rejeita: vejo-a ao longe como um lugar fictício, uma idealização suave e humana, mas quando a encontro é já um lugar real, desapaixonado e detestável. A este ponto da minha vida, já com anos de vivências citadinas, seria ridículo afirmar inocentemente que é inesperada, a ilusão. Contudo, ainda me deixo enamorar pela sua aura apaixonante que só de longe se manifesta – a urgência, a velocidade, a efervescência esquizofrénica dos dias; e depois as noites, o eclipse temporal, a retenção do imparável. Um universo em constante mudança, constante aceleração – a vida e a morte, o amor e o ódio, são sempre passageiras aqui, vêm e vão, vão e vêm num piscar de olhos. O chão onde assassinaram ontem um sem-abrigo, é hoje terreno de passagem para todos os que vão trabalhar, terreno sem terra húmida que absorva o sangue; será a lixívia, sobre o cimento, a camuflar as evidências para acalmar os mais suscetíveis, até que a mancha integre o chão, já não mais remetendo para o corpo original. Nada se sustém no esmagar perpétuo da máquina que remove a qualquer nódoa, a humanidade; a qualquer resquício, o toque materno que equilibra as dificuldades do viver. A realidade, sempre a realidade, a dificultar a esperança.
Contudo, o sentimento de desilusão é mútuo, na medida em que também a cidade me imaginava diferente. Nada no universo é estático, nada simplesmente aguarda sem movimento, e, por isso, também as cidades sonham. Criam ficções sobre a vida humana – o que poderia ser – e expressam esses sonhos na arquitetura. Os prédios são manifestações desses sonhos febris, sonhos citadinos, o projetar de milhões de pedras que se sustentam umas às outras, na esperança de um ideal. Arquitetos que vivem nas pedras, sonhos manifestos em edifícios. Mas claro está, ninguém sonhou com uma cidade assim; a distância entre o sonho febril do projeto citadino – o ideal esperançoso das pedras – e a realidade quotidiana é a mesma que encontro em mim, nas minhas memórias. Sonhei, outrora, como os arquitetos também sonharam; orientei-me como os arquitetos orientaram as cidades. A mais terrível experiência da condição humana é o despertar para esta desilusão de ambas as partes. Não sou eu contra a cidade; sou eu e a cidade, e a realidade a conspirar contra nós. A perda, a falha, a quebra, o desgaste da rocha-mãe sob a perpétua ação das águas; as ruínas que se sobrelevam, em mim e na cidade. Talvez o meu ódio citadino provenha deste reconhecer das semelhanças. O pastor só se confronta com o idílico, o permanecer da mãe natureza como a mais pura das crenças e a que perdura por mais tempo; só a cidade é um reflexo, filha das nossas mãos.
O que justifica a esperança, então?
No mesmo chão onde morreu ontem um sem-abrigo, um ridículo ser humano desvia, com o pé, uma pedrinha minúscula no meio do passeio em direção ao precipício dos caminhos de ferro. São-me alheios, os seus objetivos, mas imagino que o preocupe a possibilidade de alguém nela tropeçar, ou, talvez, esteja em desejos de apreciar o ordenamento do passeio, sem aquela pedrinha que interrompe o padrão de cores. Há todo um esforço que ele coloca nesta tarefa, porque a pedrinha, de tão pequena, fica presa entre as fendas do passeio, e vai pontapé, vem pontapé, com uma inútil perseverança que até a Sísifo intimidaria. Por fim, já frustrado, foi com a mão que a agarrou e a atirou para o precipício; mas nem assim o seu rosto mostrou qualquer satisfação – novamente se encostou à parede de onde iniciara a labuta, e colou o olhar ao chão, aí permanecendo. Ao meu lado, uma criança, nem cinco anos terá, colocou-se no meio do passeio e ergue as mãos com a postura mais autoritária que o seu pequeno corpo consegue conjugar, ordenando aos transeuntes que parem, de imediato, e até ordem em contrário. Uma boa parte ignora, claro está; terão certamente as suas obrigações, urgências a atender, horários a cumprir. Contudo, a criança não desiste, e é recompensada pela persistência com breves segundos de reconhecimento: ora alguém lhe sorri; ora alguém estanca, obediente, por um momento; ora alguém lhe passa a mão pelo cabelo, num gesto de anónimo carinho. Inutilidades!, exclamar-se-á, porque passado tempo suficiente, já ninguém recordará estas minúsculas interações sociais. O calor do tempo, ininterrupto, incinerará tudo isto a cinzas que o vento, indiferente, espalhará para longe, impossibilitando qualquer reconstrução. Sem registos literários, sem reimaginações poéticas, sucumbirão no abismo alucinante do passado. Estes momentos obscuros, estes rasgões no tecido quotidiano; o que importam, então, se ninguém os recorda?
À calamidade das guerras, ao sem fim de injustiças e profanações, contrapõe-se este ser humano que desvia a pedrinha, ou aquele que responde ao fútil pedido da criança. Deslumbro-me com estas ações de absoluto e desnecessário cuidado, pois este inútil quotidiano é a antítese das grandes desgraças. Morte e reconhecimento, horror e humanidade – os dinâmicos polos humanos – transmutam-se de tantas formas na realidade, que é difícil, por vezes, reconhecê-los. Contudo, para um olhar atento, para sentidos despertos, a distância entre a guerra e a criança, aqui ao meu lado, é muito menor do que inicialmente aparenta. A antítese não significa uma separação definitiva; é o dinamismo da vida que assegura a presença desta criança naquela guerra, daquela guerra nesta criança. O ser humano, como o deus Jano, tem um só corpo, uma só carne e um só sangue, mas dois rostos, quatro olhos, uma multiplicação de sentidos – e, ainda assim, finge-se cego. Apela ao inútil, vergonhosamente, e encobre assim um dos seus rostos, um véu sobre a pele frágil… mas o que justifica o inútil? Só um presente desligado, irreconhecível da sua humanidade, é que pode pensar assim o inútil, enquanto os atos públicos, com grandes audiências, são vistos como altruístas. O único verdadeiro ato altruísta é o inútil! E estamos no nosso melhor – humanamente falando – quando somos absolutamente inúteis, quando as nossas ações traduzem a mais sincera futilidade. É este presente, com as loucuras que o movem – o irreprimível desejo de eficácia, a constante aceleração, o estímulo insaciável que não descansa até consumir o tutano de cada matéria – que nos incapacita de adorar o inútil. Tudo tem de ter finalidade no século XXI! – e, no entanto, aqui chegados, ao viver prolongado do futuro, sem a fome ou o medo de outros tempos, o que sobra de nós, verdadeiramente? A oscilação entre a fadiga assalariada do dia-a-dia e o frenético consumo compensatório – será este o único modo de vida que nos resta? Irá o humano morrer aqui, nesta pocilga embelezada?
É agir em prol de outro, consciente de que essas ações serão pulverizadas – como as de tantos outros milhões de seres humanos de quem nem o nome a história recorda –, que, subitamente, como um violento relâmpago na penumbra da noite, nos apresenta a outra face de Jano. A porta aberta que convida ao retorno a casa, o olhar destemido que assegura que, mesmo no cenário bélico mais devastador, enquanto não nos extinguirmos, há sempre um outro caminho. Ergue-se o véu, removem-se as falácias, e a realidade – humana, sensível – é tão dialogante como nós. A ética só se pode fundamentar aqui – neste homem, nesta criança.
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