VERDADE E CONFLITO
Num comboio, três estrangeiros conversam com o tom de quem desconhece que outros corpos se veem obrigados a coabitar o mesmo espaço, mas fazem-no num estilo monocórdico que agudiza de sobremodo o fastio do momento. À frente, um homem conta, em monólogo, uma qualquer história longa e aborrecida, repleta de momentos de exaltação pessoal, enquanto o seu interlocutor – talvez também ele ciente da imaginação do narrador – parece viver em desejos pelo fim do tema. Ao lado destes, dois indivíduos conversam ao telemóvel. Seria peculiarmente cómico se a chamada fosse entre os dois mas, ainda que cada um tenha, em princípio, um interlocutor diferente, as falas interligam-se numa dança quase harmoniosa pelo contraste com o tumultuoso momento. “Estou sim, mãe?“, diz um, “Estou bem.” afirma o outro, “Não, não é preciso, mãe.“, “Vou a pé quando sair.

Entretanto, do outro lado da janela, um outro sujeito fotografa primeiro o sol que se põe, cansado, exausto até, uma vez mais no mesmo sítio relativo, tal como em todos os outros tantos milhares de milhões de dias, a quebrar o horizonte num imenso rasgo luminoso. Aceitemos, no entanto, que poderá ser melhorado, o fulgor sublime não é ainda perfeito, e um toque pueril que aumente o contraste ou altere o brilho, a tonalidade, é suficiente para ir além da natureza. Em segundo, depois do sol, o sujeito fotografa então o amigo, em pose distraída, inevitavelmente apanhado pela câmara quando menos esperava. O amigo pergunta, por fim, “Ficou bem?” – do lado de dentro do comboio, nada se ouve, obviamente, mas as palavras dele não andarão longe disto e certamente que o sentido delas será o mesmo. Afinal, este não é um caso isolado; é só caminhar pela cidade, e a tendência dos humanos para se assemelharem no comportamento sobreleva-se rapidamente. As centenas de fotos, as centenas de “Ficou bem?” – só levemente variam as palavras e as poses; de resto, não se distinguem. O nosso fotógrafo, entretanto, deve ter transparecido uma leve desaprovação, quase impercetível porque ele a dissimula na esperança de que aquela experiência termine tão cedo quanto possível – o que o levou a aceitar em primeiro lugar, nunca saberemos – mas foi o suficiente para que o amigo exija um pouco mais, mais uma pelo menos, só mais uma.

No interior do comboio, um terceiro telemóvel é acionado num vibrar violento e desesperado. Poderia ser uma terceira chamada, em tudo semelhante às outras duas, mas esta destaca-se porque, para este terceiro companheiro, a voz não é suficiente; uma chamada de vídeo será. O companheiro não trouxe fones, terão ficado em casa ou no emprego, mas ele não demonstra grande embaraço por isso, “Olá, meu amor!“, exclama ele – será à filha ou à esposa, nunca saberemos – do outro lado a distorção responde, igualmente sem a menor das inibições, e o companheiro sorri num gesto franco, que seria doce, até, corresse o mundo mais devagar.

A este momento, temos 3 estrangeiros, 1 homem em monólogo, 2 indivíduos numa chamada, 1 sujeito a tirar fotos, e 1 companheiro numa chamada de vídeo. A cacofonia não parece assustar ninguém; dir-se-ia até que, o abismal, neste zénite humano, seria o silêncio. Eis então! Quem vem lá? Um quarto telemóvel insurge-se – mas este, à dissemelhança dos outros três, nem precisa de interlocutor: sozinho, exprime a mescla peculiar da época, o grito, o riso, o estridente, o absurdo. Cada som que emite, interrompe-se repentinamente para dar lugar a um novo, uma e outra vez, uma e outra vez. O olhar do proprietário deste quarto telemóvel alberga a opacidade absurda daquilo que está a fazer. Talvez até, se alguém o olhasse sem conhecimento de causa, pudesse pensar que ele estaria doente. Contudo, se se tratasse de uma doença, seria um mal comum, uma pandemia. Geralmente, as pessoas não querem morrer; estes, contudo, parecem satisfeitos – ou, talvez, acomodados, suficientemente acomodados.

Pela janela, o sol progride no seu movimento descendente avassalador. Talvez seja este o fim do mundo.



Quando me levanto, o sol ainda não nasceu. Há sempre um momento único em que antevejo as consequências de ele não nascer de todo – uma tentativa viciante de evasão que me devora e alucina. Viver é alucinante; e estes cenários fictícios relembram-me, por contraste, que cada dia que assim começa – no negrume – poderia realmente vir a ser qualquer outra coisa. Contudo, a realidade é que o mundo transfigura-se lentamente; é a vida, a nossa pelo menos, que exige uma insuportável rapidez.

Serenamente, o sol ergue-se nestas primeiras horas, por pouco resistindo à paixão do estático que lhe suplica que fique, que se mantenha. É o instante que se esforça por o agarrar, preservá-lo numa única posição para que assim se prolongue a acalmia própria das horas adormecidas da vida. Quem nunca conheceu o misticismo peculiar da noite, que nos seduz com a imobilidade das coisas, como se nada mudasse, verdadeiramente? O seu esforço, contudo, é sempre inconsequente, e seja ou não a contragosto, é então serenamente que o sol se desprende das amarras fictícias do instante, despede-se dele num aceno ao passado e anuncia, brilhante, o futuro que advém. Virá também a noite mas, por agora, se acaso aqui houvesse alguém que nada entendesse da passagem dos dias, certamente que seria ludibriado por esta visão. É que o sol entrega-se plenamente, e mesmo que as nuvens o recubram, ainda assim ele brilha com o mesmo esplendor, indiferente a quem o contempla. Até eu, que creio com alguma confiança que ele nascerá novamente amanhã, ainda assim, tal é o fulgor deste cenário, que sinto um temor rugir em mim de estar a presenciar o último amanhecer.

A verdade, no entanto, é que estarei tão-só a projetar; afinal, parece-me impossível que creia verdadeiramente nestas palavras – quem se manteria sentado perante o fim do mundo? E, contudo, esta consciência da projeção não me livra de só poder ver através de mim, como se, para onde quer que olhasse, fosse a mim que encontrasse, fundamentalmente. Serei eu, talvez, o paradigma que estrutura a minha realidade, pelo que tudo o que eu sou estará então ali, naquela chama imensa. Será assim, fatidicamente, o meu modo de compreender o mundo; e é certo que isso dirá algo sobre mim, mas sobre o mundo, a tela de projeção? Sobre isso, nada diz.

A vida que se prolonga por gerações e gerações, só é possível por um ténue equilíbrio de inúmeras coisas. No sol a nascer, sublime, a súbita consciência da minha reduzida dimensão, ruge em desejos de algo absoluto, uma verdade ou certeza. No entanto, é esse mesmo desejo que me relembra que sou, ainda e sempre, um ponto central de consequências; qualquer ameaça ou prazer, dor ou compaixão, enfaixa-se em cada um dos meus sentidos, em cada pensamento. Não penso ou sinto, sem pensar ou sentir através de mim – quer isto dizer que nunca estou livre de mim mesmo para experienciar o mundo sem pressupostos. O meu mundo é ainda o que eu pressuponho dele, e será sempre, quer eu expanda ou contraia estes preconceitos.

Não será um crime afirmar que as pessoas, em geral, querem sintonia; um equilíbrio alinhado entre o que pressupõem, cada uma, e o que encontram no mundo. É este encaixe entre antecipação e concretização que confere estabilidade. Por isso, é tão violento o choque com o que nos é estranho ou contrário, pois é aquilo que não se enquadra no que esperávamos do mundo e arrebata-nos do conforto, abala-nos profundamente e exige solução. Empurrados para fora dos nossos pressupostos, somos confrontados com as nossas próprias limitações, e é nesse confronto que se gera o que nos individualiza. Somos o que somos, pelo menos em parte, pela tentativa de resolver esse conflito. Se vejo o que não compreendo como uma ameaça, serei profundamente díspar de alguém que, no mesmo confronto, encontre a curiosidade do diferente. Se me atraí tudo o que se apresenta como novo, caminho num outro chão de quem se recolhe, temente do devir. Entenda-se: ninguém está correto. Somos todos, cada um, produto de circunstâncias próprias, particulares, e profundamente desconhecidas para qualquer outro. Em última instância, somos isso mesmo: desconhecidos, sentindo o cosmos em redor de modo único. Todos procuramos compreender, dar sentido ao caos, mas é a tentativa que nos assemelha, não o modo de compreensão. O fulcral ponto é este: a abertura para reconhecer o outro como alguém que, desperto no mundo, expressa uma tentativa, tal como eu também expresso, é reconhecer nele a humanidade que o liga a mim. Qualquer esforço de imposição é, em suma, desumanização.

Hoje, toma-se tudo em absoluto. Afirma-se uma verdade individual que não conhece limites e que torna o diálogo, a discussão, inútil. Nenhuma parte reconhece a temporalidade do que diz. Somos seres atravessados pela finitude – estamos invariavelmente posicionados num ponto específico da história e enclausurados entre o nascimento e a morte. Nada do que dizemos ou pensamos é intemporal. Nada é verdadeiro, sequer. Não temos verdade, tão-só sintonia. E, contudo, quem nos ouvisse, nunca suspeitaria da nossa ignorância. Expressamos mais confiança em fazer guerra, do que esperança em compreender o outro; e cada vez mais nos restringimos aos nossos pequenos universos, resguardados de qualquer ideia externa, qualquer fonte de tensão. Na ausência de confronto com as nossas próprias limitações, na ausência do reconhecimento da legitimidade do outro para interpretar o mundo, a guerra é, não uma eventualidade, mas a mais direta consequência, em qualquer que seja a sua escala. É aqui que os humanos, reduzindo o mundo a dualidades – bom/mau, certo/errado – permitem a justificação de qualquer ato cruel, qualquer atrocidade. O passado é exemplar das consequências destas narrativas, que visam impor uma visão do mundo, em nome de um qualquer ideal incomportável. Retornamos hoje a elas, num profundo contrassenso e desrespeito pela herança do século anterior que, não obstante os seus erros, procurou fugir dessas mesmas reduções, desse mundo pequeno sem subtilezas. Se eu compreendo o mundo de um certo jeito, profundamente marcado por todas as coisas que experiencio, então mais ninguém verá o mundo assim – mas não é essa mesma a natureza da coisa humana? Viver entre a solidão e a multitude, entre o abismo e a ponte? Não é o esforço inconsequente de compreensão, o mais humano dos gestos – precisamente pela sua inconsequência? Não tenta um pai proteger o filho, sabendo-se incapaz de deter o mundo?

Lá fora, a cidade, barulhenta e demoníaca, é também ela banhada pela luz do amanhecer. Os humanos acordam, cada um a seu tempo, com menor ou maior esforço, num retrato singular da pluralidade da vida que, em metamorfose, reverbera por todo o planeta. Estar vivo é, ainda e sempre, o maior enigma – o dilacerante existir entre o eu e o nós, imagem da distância sempre presente que nos exila, por entre um indomável desejo de pertença.