PEDRO NUNES
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ARTISTA – A Revolução Tem Instagram, Somos Todos Artistas

UM AUTOCARRO COMO TEATRO DO MUNDO
Os transportes públicos são um teatro do mundo, e quem estiver atento numa viagem longa, verá figurado aqui, mais tarde ou mais cedo, todas as relações que se vulgarizam lá fora. Amor e ódio, raiva e prazer, descanso e frustração – cada um desempenha o seu papel, e com trinta e tal pessoas enclausuradas num veículo tão pouco eficiente a acelerar a passagem do tempo, parece-me natural que se intensifiquem as reações, possibilitando um estudo pseudocientífico da humanidade. Se não por mais, pelo menos em nome da distração e do entretenimento.
Como seria de esperar, eu vejo-me sempre remetido para o papel do que observa o mundo pela janela. É pela janela de um autocarro, de qualquer forma, que o mundo me surge mais natural. O movimento é, ainda e sempre, o meu maior calmante, o único capaz de se aprofundar em mim, ao embrenhar-se no âmago do que me faz. O meu olhar conflui com o arrastar da imagem que nunca está verdadeiramente presente, porque não é estática; pelo contrário, precipita-se desde logo para o passado mas acomodando, em simultâneo, vislumbres do futuro, numa dialética interminável que desconhece começos absolutos ou fins permanentes. Nada há aqui, neste movimento, para capturar; vivê-lo é contemplá-lo, deixá-lo vir e ir, sem ameaças de posse ou poder, de domínio ou controlo.
Muitas vezes descubro-me a ansiar por este movimento, e é nele que me liberto das ilusões triviais que atulham os dias. Hoje e sempre, a cada momento, vejo-me aqui figurado, mais do que em qualquer espelho ou obra humana, como se partilhássemos – eu e o movimento – algo de fundamental e inominável, anterior às palavras e à civilização. Como nada mais, este movimento retrata-me ao articular, em si, as mesmas relações que se articulam em mim. É por isso que, nesta perpétua passagem, imperturbável, vejo configurada a única verdade que aceito como absoluta: o dinamismo. O eterno, ininterrupto dinamismo que articula as relações entre todas as coisas, porque nada mais há, nada é, em vácuo. Somos sempre produto das relações recíprocas e inevitáveis que estabelecemos com cada uma e todas as coisas. Organismos em incessante movimento – e é esse movimento que a janela reproduz, que a arte intenciona, que eu personifico.
Por curiosidade – e motivado por um riso abafado e repetitivo – afasto o olhar da janela e atento no cenário ao meu redor, no interior deste veículo, onde o ruído dos tiktoks asfixia os breves interlúdios de contacto humano. Para mim, todos parecem envergar o mesmo papel, o que lhes permite insinuar-se na inércia que os transfigura numa multidão amorfa e estagnada. Não será justo, talvez, criticar trinta e tal pessoas com base nas minhas suposições do que nos faz, do que compõe a nossa frágil face humana que se dissimula tão facilmente nestes ecrãs. No entanto, surpreende-me, ainda e sempre, esta paixão pelo estático. Quer-se a juventude prolongada, o amar perpétuo e fixo, a felicidade num crescente de êxtase; quer-se o que já se fez, o que já se teve, os bons velhos tempos num loop infinito; quer-se viver com certezas, sabendo o amanhã ao detalhe por se espelhar no ontem de sempre. Contudo, o que a janela me mostra, ao meu lado, no mundo lá fora – o mesmo mundo de que somos todos parte intrínseca, e onde as pausas são sempre provisórias e articuladas nas relações – não se vislumbra qualquer repetição passiva. Cada segundo, herda e transforma – produz algo inédito e transitório que, de imediato, volta a transformar-se. Nada fica, nada se mantém. Cada filho não é o seu pai – é herança e transformação. Cada vivência é inequivocamente única. Cada um é, na essência das suas experiências, algo de profundamente singular; uma personificação desta perpétua passagem, deste contínuo movimento. Estes corpos que me rodeiam, no entanto, como habitantes de um mundo alternativo e imóvel, parecem perfeitamente resignados à inércia, ao estabilizarem num estado de passiva aceitação do ciclo de desilusão, de exploração, de submissão, que redes sociais como o tiktok apropriam e rentabilizam de forma sublime.
É perante este cenário, que em igual medida me enfurece e desilude, que tomo consciência de como o ser humano é ainda o meu maior assombro e arrepio – e isto será, talvez, a minha mais fundamental premissa, a que define a direção do caminho que tomo. Não há fé sem este assombro; e acreditar no ser humano é o maior salto de fé, porque ao contrário de Deus – que testa a crença através de um silêncio sedutor – o homem não se esconde na calada, onde se possibilitariam diferentes interpretações. Não, o homem age sobre o mundo e, em cada ação, entrevêem-se as suas motivações. Atentar sobre a ação humana é, em última instância, atentar sobre estas motivações, que nunca são simples e acessíveis. Vislumbra-se, em todas elas, um conflito profundo e humano entre visões ideais e reais, entre experiência empírica e utopia, entre crenças e comportamento. Descobrimo-nos, continuamente, na necessidade de agir sem certezas, na obrigação de arriscar – imersos numa insegurança que perverte todas as decisões, e onde se sustentam os atos mais cruéis e desumanos.
E contudo, apesar de tudo isso que perscruto, descubro ainda em mim este salto de fé. Sou crente, religiosamente crente, nas possibilidades humanas. Porquê? Talvez por pura sobrevivência – pois, sem esta fervorosa fé, desconheço outro princípio, outro instigador tão violento capaz de inflamar toda a minha atenção e vontade. No entanto, neste meu olhar em redor, dentro deste abafado veículo que nos transporta a todos, e por entre toda a raiva e desdém que projeto nestes indivíduos por não me conseguir identificar com eles, reconheço em mim, ainda assim, inexplicavelmente, uma enorme curiosidade. Quero saber quem eles são. Quero saber o que os faz. Quero saber as suas histórias, o que os preocupa, o que os trouxe aqui e para onde vão. Quero escutá-los sem nada dizer, observá-los enquanto partilham as suas fragilidades. É neste paradoxo, neste absurdo paradoxo que me sinto humano; e o humanismo talvez não seja mais do que isto: querer escutar o outro; ouvir, de cada voz, as idiossincrasias que nos fundamentam.
Estes rostos que me rodeiam, talvez também eles pressintam a insegurança e anseiem por honestidade; tenho consciência, contudo, de ser este o mais difícil exercício humano. Somos animais atravessados pelo instinto de sobrevivência, e a honestidade é o exercício mais vulnerável, ao ponto de nos ludibriarmos a nós próprios para coexistirmos num refúgio de ilusões. De igual modo será, talvez, inconsequente – porque a singularidade das nossas vivências torna-as também, pelo menos em parte, intransmissíveis. Nunca compreendemos completamente os outros, tal como os outros não nos compreendem a nós, e há nisto sustento para um profundo solipsismo. No entanto, o que o movimento ensina, lá fora, não é a descoberta de um hipotético fim do movimento, como se tudo se movesse sempre para um término cognoscível, alcançável. Pelo contrário, o movimento ensina o dinamismo perpétuo, ou seja, que nada nunca termina nem começa, que há sempre uma dimensão de mistério que nunca se desvela. O caminho que se escolhe é sempre um caminho de entre infindáveis possíveis, e do qual nunca temos quaisquer certezas, mas tão-só hipóteses, esperanças. Talvez, por isso, o que se sobreleva como fundamental não seja a compreensão; mas, em vez, este ato de escutar, de dar ouvidos aos outros.
Deus é sempre quem escuta, seja qual for a sua origem. Talvez porque, no fundo, todos queiramos ser ouvidos – um papel humilde que cada um pode encarnar pelos outros.
“Oh, podem ter a certeza de que Colombo era feliz não no momento em que descobriu a América, mas quando ia descobri-la; podem ter a certeza de que o momento mais alto da sua felicidade foi, talvez, três dias antes da descoberta do Novo Mundo, quando a tripulação amotinada em desespero por pouco não fez voltar o navio para trás, em direcção à Europa. A questão aqui não é o Novo Mundo, que bem podia desaparecer: Colombo morreu quase sem o ver e no fundo sem saber o que tinha descoberto. A questão é a vida, apenas a vida – o processo de a descobrir, processo constante e eterno, e não a descoberta em si!”
Fiódor Dostoievski – O Idiota
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