PEDRO NUNES
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SOBRE EDUCAÇÃO
Em criança, vi num filme que amar é sorrir ao mesmo tempo; apanhou-me desprevenido, eu sempre pensei que houvesse mais do que isso no amor. Via tantos rostos pesados, tenebrosos, sombrios, que me fez pensar se nunca o teriam experienciado; mas mais compaixão ainda tinha por todos aqueles com paralisias faciais – esses estariam fisicamente impossibilitados de amar. Já na escola, ensinaram-me das hormonas; como nos compelem, somos insetos elas são a luz e, no reino hormonal, pouco mais há a saber do que as comparações e extrapolações, é só olhar para a natureza: os cães na rua, os pássaros, os homens. A química do sexo. Nunca me fez sentido como é que um corpo deseja tantos outros, tão promíscuo, mas um género quer-se resumido, não vá eu ofender alguém comigo. Nas músicas, ouvi a repetição das sequências coincidir com a repetição dos temas. E quem não gosta de regularidade? É tão prazeroso saber o que aí vem, é dominante também – quando entendo as peças, entendo o jogo; e que modo mais fácil de entender as peças, do que resumi-las sempre às mesmas?
Diz-me os números 1, 2, 3
Diz-me as letras A, B, C
Pintura? Nunca ouvi falar. Mas gosto de retratos, principalmente se feitos em caricaturas, em câmara rápida, com a pessoa ao lado a sorrir e a adorar a experiência, para que eu possa ver as semelhanças, estamos a falar do Instagram, certo? Museus? São como os livros – muito lentos… Onde está a emoção? O representar da tristeza, da solidão de viver, do desassossego da alma, como num bom filme? Mas gosto do Fernando Pessoa, é criativo! Da Joana Vasconcelos é que não, tem tanto de artista plástico como eu!
A educação parece-me, às vezes, como a demanda de alguém, não por simplificar o mundo, mas por um mundo simplificado; o vender de uma utopia sem propósito; o satisfazer de um medo, porque o mundo lá fora é enorme, é violento, é capaz de tão absurdos genocídios, cai um prédio e morrem tantos, são todos culpados? Não. Morreram na mesma? Sim. E nós? E nós. Nós criamos um mundo estável, regular, previsível. Dá-me entretenimento; cria-me em entretenimento – quero ser cada uma das personagens, quero as luzes nos meus olhos, a contínua estimulação, já nem sei pensar sem me ser dito, já nem sei olhar se não tiver um ponto no centro, a indicação para focar, a linha do horizonte, a perspetiva. É tão aborrecido viver; onde estão as erupções de adrenalina? Foi-me prometido um mundo na minha mão, o suave despertar das emoções profundas com um simples toque, uma mão sobre a minha e transcendo, o meu sexto sentido, o preencher, o clímax da existência. Ninguém me disse que eu tinha de aprender a gostar de arte; mas o telejornal preenche a lacuna: orgulho, ódio, pátria, emigrante, militar, estado, futebol, subsidiodependência. Entretenimento é tudo o que os olhos veem, é tudo o que os olhos querem; na televisão e lá fora – até o voluntariado só se faz quando é para salvar o mundo; nas pequenas causas falta a teatralidade, nos pequenos gestos faltam as artes cénicas. É tão fácil ser privilegiado – permite vestir o mundo nos mais belo dos trapos, e de lá o manter por uma vida inteira.
Em Porto Príncipe fazem arte com caveiras e lixo; tudo o que ficou do tsunami. Eu sei que já o disse mas não o consigo esquecer. Intitulam-se Atis Rezistans – Resistência Artística – um museu, galeria, coleção de arte ao ar-livre, por entre ruas de pobreza. No mesmo país, numa das margens paradisíacas, o Labadee é um resort privado, de acesso vedado onde não é permitido aos turistas saírem para fora das vedações. Dois mundos? Não, é só um. As barreiras são ideológicas, económicas, políticas, sociais – mas são humanas, acima de tudo. A natureza criou as montanhas e os oceanos; nós criámos as vedações.
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