PEDRO NUNES
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SOBRE CONFORMISMO
Há um pássaro na gaiola. Atento nele, não porque queira mas porque ele chama por mim – não é só um pássaro na gaiola como todos os pássaros na gaiola; este tem consciência, e ao ver-me e ouvir-me, processa-me com perguntas: quem és? O que és? Quem sou eu? Vejo-o a ouvir: há cantares lá fora, outros pássaros que chilreiam por aí e, nas suas vozes, ele ouve algo diferente, algo que não se assemelha à sua – um sabor que se distingue, como um amar que se sabe finito. Vejo-o saltitar – pelos artifícios que lhe embelezam a casa – e, de olhos na porta que leva ao exterior, ele canta baixinho, num temor que deseja.
Nada há de errado com o conforto; mas viver exige um equilíbrio entre o que é rígido e o que é elástico. Veja-se a natureza, como em tudo esse equilíbrio subsiste: das plantas e os seus ramos a suportar os ventos, à pele e asas e dentes. A medida é, no entanto, subjetiva; esperar o mesmo equilíbrio para todos, é aceitarmos todos iguais, sem variações, sem influência dos contextos – uma predisposição universal. Talvez, contudo, se removido tudo o que criamos para nos defender, todas as barreiras que erguemos, os alarmes que ecoam – se tudo ruir, num único momento, talvez a medida seja a mesma, talvez todos desejemos o mesmo: segurança – ou maior – a crença na segurança, num estar seguro, pleno. Não é fraqueza que nos conforma, é o cansaço. E há conforto, descanso nos moldes; em conhecermos as regras. Ninguém quer aprender um jogo novo todos os dias.
Talvez a gaiola não seja realmente uma gaiola; só uma rede, num único plano, uma única face do cubo – e o pássaro, ao ver e ouvir e saber do mundo, lá fora, onde os seus voam e procriam e fazem ninhos com galhos; talvez o pássaro escolha ficar. Escolher – estar ciente da diferença.
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