SOBRE
O que fazes da vida?” é uma pergunta corriqueira, mas com a virtude de sugerir, desde logo, a perspetiva de algo a ser trabalhado. Uma tarefa. Algo que se está a fazer partindo da vida como matéria bruta, como terra fresca, negra e húmida, trabalhada e semeada por alguém que, no fim, vem colher o que semeou, reiniciando assim o ciclo. Uma e outra vez.

Digo estas coisas sem ter calos nas mãos, e o mais verde dos camponeses de todos os tempos faria de mim gato-sapato, com toda a justiça. “Quem julga este que é?”, pensaria ele, reconhecendo de imediato a minha virgindade nestes temas que são o seu trabalho e a sua vida, e eu não teria como me defender pois tentara apoderar-me do seu ganha-pão a troco de nada.

Pretendo, verdadeiramente, que este espaço não fale do topo de uma montanha ou da cova dos infinitos sofrimentos. Há já disso suficiente, penso eu, para quem disso gosta, não fosse a literatura uma história dessas coisas bonitas e de como aprendemos a dizê-las de forma conveniente e tantas vezes inócua. São ainda, e talvez mais do que nunca, os vencedores grandes e pequenos a definir as histórias do mundo.

O que aqui tento – e em geral desejo – é descobrir como se contam as outras histórias.