
NOTA PRÉVIA: Após mais de cinco anos a escrever neste espaço, senti a necessidade de atualizar alguns dos textos. Assim, ao longo dos próximos meses, sairão versões atualizadas que tomarão o lugar das antigas. As antigas, contudo, continuarão acessíveis. A versão antiga deste texto pode ser lida aqui.
CRÓNICAS PARA DORMIR (II)
Grande parte deste processo de escrever por cima de mim próprio envolve debater-me com o ridículo jogo de ter escrito palavras ridículas, tendo porém a certeza de que daqui a seis meses direi o mesmo sobre estas novas palavras. Chove lá fora intensamente, e clarões súbitos de luz antecipam o estonteante ruído dos trovões. Sempre que presencio isto, concordo com a decisão dos antigos gregos e romanos em dar a este fenómeno uma posição central nas mitologias. Questiono-me, contudo, o que pensariam eles do estranho atraso do som em relação ao raio. Não os grandes pensadores, que esses têm sempre respostas para tudo, mas os outros comuns mortais gregos e romanos que nada de especial fizeram para lá de trabalhar e comer e cometer os pecados comuns do seu tempo, entre esses há de ter existido pelo menos um ou dois que, de vez em quando, ao reparar que via um rasgo de luz sem som e depois ouvia um estrondo sem luz, e apesar de estar certamente habituado a trovoadas, ter-lhe-à percorrido o pensamento, talvez à noite, deitado cheio de frio, agarrado à mulher aos filhos e até talvez aos escravos – que com o frio, tal como com a fome, perdem-se muitas das esquisitices – que era realmente estranho um atraso tão significativo entre um fenómeno e outro, a luz e o som. É que eu, por exemplo, chego mesmo a duvidar de mim, dado o tempo que por vezes passa entre um e outro, e aguardo, feito estúpido, nem que seja por ouvi-lo ao longe, qualquer sinal que me confirme que realmente vi um clarão. Ver clarões que não existem já causou problemas suficientes no mundo e à noite, dentro do possível, não gosto de alimentar ideias que me ponham em causa. Pelo menos, não a este nível. Tenho de confiar nos meus sentidos; no mínimo, confiar que todos concordam com as coisas que eu sinto. Se visse um clarão e não ouvisse depois o som, então os meus olhos e os meus ouvidos estariam em mundos diferentes, e isso seria terrível, como aquela brincadeira de dar voltas e mais voltas, e depois tentar andar em frente. Ora, essa tal pessoa cheia de frio que reparou na estranheza da velocidade do som, se calhar voltou-se para o escravo a quem estava agarrado, sabendo que ele acordaria facilmente por ter um sono leve, e disse-lhe, depois de um safanão, Já reparaste que se vê o relâmpago mas não se ouve nada, e depois ouve-se o trovão mas não se vê nada? e o escravo, coitado, cheio de sono, cheio de frio, cheio de fome talvez, mas certamente cheio do dono, se pudesse, mandava-o para um sítio desagradável mas, não podendo, terá talvez grunhido um som de concordância na esperança que o homem se calasse. O homem, no entanto, ao ver a sua observação ignorada, e dependendo do seu feitio, poderá ter-se sentido desprezado, ridicularizado até, e não fosse o frio que tinha, expulsaria o escravo da cama. Dada a situação, talvez escolha embrulhar-se mais apertadamente nos corpos à sua volta e deixar os castigos para o dia seguinte.
—
Ao contrário desse tal homem, eu acredito que é um bom sinal, ver-me como ridículo; odiar o que fiz e o que faço mas continuar a fazê-lo, obsessivamente. Em geral, aprendo mais sobre mim nestas coisas, nesta frustração palpável, do que a fazer aquilo que me dá gosto sem me provocar. O desagrado, a irritação, o desconforto, são emoções que rejeitam a ideia de um valor passivo das coisas; exigem mais, exigem sempre aliás. Será contraditório fazer algo que frustra? Viver num perpétuo debate de se ser uma aparente merda precisamente onde se coloca esforço? Penso já não temer, hoje, essas contradições. Desde criança que sempre vivi na pressa de fazer algo antes de envelhecer; ao estar hoje invariavelmente no processo de envelhecimento, apercebo-me que faltará sempre tempo, e que tudo o que comecei e começo ficará a meio, tal como é, em geral, próprio das coisas. Claro que sinto uma quase obrigação de humilhar o mundo até que ele concorde comigo de que tem de existir um fim último, tangível e definido, como um número ou uma meta, mas tudo isso não passa de uma ideia de um qualquer ser humano, há muito tempo atrás, que quis dar sentido à sua vida, e depois criou uma sociedade à volta dessa ideia, e depois promoveu-a em tudo o que pôde, para que todos nós acreditássemos e fosse assim mais fácil, para ele, acreditar também. Numa noite como esta essa ideia desmorona facilmente, porque está frio e chuva e veem-se relâmpagos e ouvem-se trovões, e porque todas essas coisas mostram, uma e outra vez, que a criatividade é uma brincadeira tão poderosa que chegamos a acreditar nas mentiras que criamos, mas nada disso obriga a realidade a obedecer. Deitado, no escuro, qualquer um perde vivacidade nas mentiras que conta a si mesmo. Essa, em particular, de um fim último, por estar no centro do nosso mundo, tem uma resistência maior do que as outras no dia a dia, não anda para aí a quebrar com cada pequeno entrave ou contradição, como quando dizemos que somos saudáveis porque não vamos ao médico, mas cai, ainda, se for forçada o suficiente.
Estou a pensar nisto agora, deitado, a meio da noite, a ver relâmpagos e a ouvir trovões. Estou a pensar nisto e em como amanhã de manhã, ao acordar, vou estar novamente dominado pela ideia que esse qualquer ser humano criou, e como vou espontaneamente sacrificar as horas do dia a fazer coisas que ambicionam um fim abstrato, e em como esse fim abstrato, que eu nem sei o que é, justifica que sacrifique essas horas e todas as outras que virão depois, nos dias meses e anos seguintes. É muito difícil transportar este desmoronar dessa ideia que agora sinto para amanhã de manhã e transformá-lo em algo prático, que me convencesse que as horas do dia poderiam não ser um sacrifício, e que nos dias meses e anos seguintes poderia verdadeiramente viver num mundo diferente. Amanhã vou acordar, e o mundo vai oferecer-me – como a criança que coloca cubos no buraco quadrangular, bolas no circular – um conjunto de regras para me manter saudável. 1) É saudável morrer de tédio ambicioso, desde que intercale as horas dessa morte lenta com pausas para café; 2) a luz solar é perigosa, e a quinze minutos de exposição direta devem seguir-se seis horas de proteção num edifício de arquitetura moderna para não danificar as íris; e 3) ter espaço ou poder de decisão paralisa o ser humano, que se vê com demasiadas opções e cai numa espiral depressiva por não conseguir decidir, pelo que, pelo seu bem estar mental e emocional, devemos restringir toda a dimensão e juízo a um mínimo. A regra fundamental é que é preciso proteger as pessoas de si mesmas, ajudá-las a viver tantos anos quanto possível, e ser produtivo em todos eles para que, com muito esforço e dedicação, atinjamos a acumulação de capital que nos liberte de todos esses hábitos saudáveis – porque até o saudável em excesso é cansativo – permitindo por fim uma ou outra extravagância, como um jazigo familiar ou uma vala comum. As feridas que se façam, no caminho, tratam-se facilmente – estancar, desinfetar, meter um penso –, o importante é não ficar doente, seriamente doente, nunca se deixar contaminar nos espaços públicos, no nojo das ruas e das pessoas que por lá moram, nunca se deixar envergonhar ou cair no ridículo como eles, e nunca ter tempo e disposição para olhar à volta e pensar espera aí, o que é que eu estou a fazer?
Afinal, uma vez doente, como se cura um ridículo? Como se cura um esquisitoide, uma aberração, um delinquente? Horas depois daquela observação ignorada, se alguém observasse a tal cama, descobriria o homem, a mulher, os filhos e os escravos, todos a dormir agarrados uns aos outros, verticalmente à mesma altura. É só deitados, no escuro, que grande parte da aberrante população tem a benesse de se sentir normal, ao abraçar o sono e adormecer, como os reis e as rainhas e os caloteiros e os aldrabões de todos os tempos. Hoje em dia, parece que já só a noite preserva esta sugestão. A cegueira que o sol causa está hoje destilada, nas mãos de quem sabe que se controlar os olhos, poderá até vender um cigarro saudável; a lua encobre todos com o mesmo manto, sem prometer nada por aí além, mas abre um espaço de sugestões onde tudo pode ser dito, até as coisas mais ridículas.
Deverá estar ligado para publicar um comentário.