
NOTA PRÉVIA: Após mais de cinco anos a escrever neste espaço, senti a necessidade de atualizar alguns dos textos. Assim, ao longo dos próximos meses, sairão versões atualizadas que tomarão o lugar das antigas. As antigas, contudo, continuarão acessíveis. A versão antiga deste texto pode ser lida aqui.
CRÓNICAS PARA DORMIR (I)
I
A noite veste-se com os seus tons habituais. Estou a dialogar comigo mesmo, como se o passado fosse uma pessoa diferente que eu pudesse criticar sem vergonhas ou responsabilidades. O embaraço é uma força de opressão; e ter vergonha de mim, seja o de hoje ontem ou amanhã, é algo de que me terei eventualmente de libertar, se quero – e quero – descobrir onde terminam os jogos de egomania e o que existe para lá disso. Quando se põe de parte as coisas bonitas, as fantasias com que sempre me descrevi ou aos outros, influenciado por todas as coisas bonitas ditas aos longos dos séculos por pessoas também elas embaraçadas, quando se procura remover isso tudo, de que serve escrever, afinal? É por conexão, é porque a noite me assusta? É por ser isto um mecanismo de estimular o tédio, qual desfibrilador, a criar sentidos mais divertidos para a sua existência? As criancinhas a brincar no parque infantil nunca parecem parar para questionar como é que um escorrega foi ali ter, tão diferente das casas e estradas e carros. Escorregam por ali abaixo, a adrenalina da velocidade e do descontrolo imiscuída na ignorância da maioria das coisas, uma e outra vez uma e outra vez, até que se cansam e embirram em ir para casa descansar e dormir.
Escrever por cima das minhas próprias palavras parece só um outro exercício megalómano, como a criança que já não tira o mesmo prazer cego dos brinquedos mas volta ainda a eles, na esperança de obrigar as coisas a serem como a sua pequena vontade ordena. Talvez as pessoas que gostam de escrever sejam também assim, pequenos ditadores frustrados, incapazes de reconhecer a pequenez saudável de se ser mesmo isto, não só desprezável mas desprezível. À noite, tudo isto se torna evidente; é só reler o que escrevi. Afinal, seria tudo o mesmo e coisa nenhuma? Ou seriam essas palavras de algibeira, prontas a preencher uma página vazia? Não há frio, esta noite. Já nem saberia dizer se alguma vez houve, se o frio era real quando foi escrito. A criatividade e a mentira são quase a mesma coisa; e isso dá força à ideia de tudo isto ser apenas um exercício algo parvo, algo sinistro, como alguém que persegue um desconhecido na rua para passar o tempo, tira-lhe uma foto aqui e ali, chega a casa e junta as novas fotos ao portefólio. Contudo, qual é a alternativa? Tentar não mentir? Tentar não cair nesse jogo de personagens? Talvez seja essa a humildade possível que estas horas noturnas permitem, mais do que as diurnas. Nada disso parece existir durante o dia. O dia traz as sucessões, os papéis, os ajustes e reajustes, os cuidados extra e os descuidos, a meticulosa ciência de compreender um espaço e adequar-se a ele. O dia é o teatro, as subtilezas da comunicação humana, das palavras certas nas horas certas, dos sorrisos e toques e gestos rigorosos, escolhidos a dedo. A noite são os bastidores. O ator no canto em ataque de pânico, que inspira ar e expira ar, que quer viver no presente e aceitar o que tem e o que nunca irá ter, o que pode e o que nunca poderá fazer. A noite é um grito sóbrio, quando os pés sentem o chão e a terra húmida que se infiltra pelas unhas, e as mãos sentem a pele que se desune, que se quebra e mostra um interior horroroso, cheio de sangue e tripas e ossos, iguais ao sangue às tripas aos ossos que desembocaram numa praia qualquer ou num cidade em ruínas do outro lado do mundo. Preciso do presente, do agora mesmo, do isto aqui, como preciso de água. É verão, é verão, há calor, há um aperto na pele aquecida, há suor nas axilas, há uma noite quente. Ergo o braço. Ergo o corpo. Ajusto os chinelos de quarto. Ajusto o copo de água. Todas estas coisas não significam nada. São vícios – nisso tinha razão –, vícios que focam o presente, o aqui e agora, não o que virá, ou o terror das coisas que aconteceram ou até tudo o que acontece mas não aqui. Que morram os que morrem, sofram os que sofrem, só não aqui, onde a noite caiu e comprometeu a realidade das causas e efeitos, das sucessões. Só a noite possibilita a quebra do dia, desse universo físico, morto, entediante, sôfrego por espontaneidade. Só a noite propõe, verdadeiramente, uma alternativa.
II
Saltam-me palavras sinistras pelos dedos, como pequenos demónios com um raio de ação muito curto. Arreliam, mais do que fazem mal. Será que Deus perdoa estes pequenos pecados? Em criança, teria dado corpo e alma ao diabo para me salvar da escuridão, só não dei porque ele nunca me apareceu à frente. Se ele aparecesse, agora, envolto na escuridão, gostava de me sentar com ele e fazer-lhe algumas perguntas. O que faz o diabo, afinal? Queima os pecadores, chicoteia-os, estripa-os, inverte-os? Qual é o pior castigo? Como se decide o horror dos crimes? O mistério de tudo é ainda o que me motiva a viver, ao conjugar medo e curiosidade. Só Deus sabe as invenções que crio para dar sentido ao mundo, os malabarismos linguísticos que requer ver um genocídio no sofá. Saberá o diabo para que serve, verdadeiramente, uma guerra? Ou ficará ele entusiasmado ao ver que os humanos tanto ambicionam o inferno que o antecipam? Terá sido o diabo a conceber a ideia de progresso? Olho em redor, e já não se morre de fome no meu país. Não é essa a mais terrível ilusão, o maior feito do diabo?
III
Já não é noite. Pela persiana, há uma espécie de anúncio de que um novo dia está para nascer. Não é ainda luz, não são rasgos que entram no quarto, mas uma mudança tímida na atmosfera que entra pelos buracos, como uma certeza infundada. O corpo sabe, simplesmente, que já não dormira mais, que é inútil tentar, que a noite terminou. O diabo esconde-se. Preenche-me aquela estranheza única desta hora, como se o iniciar do dia fosse uma impossibilidade lógica a acontecer. Disjunta-se o tempo e, ao dar por mim, estou a viver todos os meus despertares ao mesmo tempo, todos os anos desde o primeiro. Já despertei mais de uma dezena de milhares de vezes e sol ainda hesita, lá fora, ainda não enviou o primeiro rasgo de luz. Prefiro acordar com o sol no céu, atrasado para o evento mais importante da minha vida, vestido com a minha mais afável personagem, aprumada e pré-disposta, a ter de atravessar este momento bizarro em que a noite já terminou mas o sol se recusa a nascer verdadeiramente. Prefiro um corte, uma facada, um ataque frontal, a uma ameaça que resiste na incerteza. Prefiro o inferno consumado à mais ténue esperança que nunca se desprende da possibilidade. A doença mais viscosa é a que vive aqui, neste limbo febril onde a vida anuncia tudo aquilo que poderia ser mas que nunca será.
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