CRÓNICAS PARA DORMIR (XXV)
I
Deito-me e reconheço os antigos hábitos. Não há resistência. A noite oferece uma forma exclusiva de paz material, a do momento, que nada promete. Na noite, não há futuro, nada se anuncia aos sentidos. Um manto recobre e esconde, o mundo hesita o suficiente para fingir parar e o corpo imita a paragem. Não é repouso que quer, algo assim tão temporário, que não protege tanto quanto ilude. O que almeja, verdadeiramente, é ser estático, viver como as rochas que nada despertam, nem grandes ódios nem grandes paixões. Um estado anémico, apático, onde as veias e as artérias recusam o sangue e este foge do corpo, deixando-o incólume. Com que sonham as rochas? Com nada, nem um só pesadelo as atormenta, nem a menor réstia de esperança. É o que o corpo ambiciona, toda a matéria – uma permanência imparcial. As rochas são os únicos habitantes noturnos, as que verdadeiramente compreendem a noite e onde reside a beleza do estático. Só esse existir ausente é resistência natural ao uso e abuso da vida, porque morrer é ainda uma consequência. Ser rocha é nunca sequer se deixar contaminar pelos ciclos. Afinal, todas as rochas são alvo das maiores violências (quem o negue, que atire a primeira pedra), mas também inteiramente indiferentes. É por isso que um crime à noite, não sendo mais condenável, moralmente, do que o mesmo crime de dia, é contudo mais terrível, ao quebrar com esse estado. Recorda o corpo que não é rocha, e que sonhará, e que, com a manhã, tudo recomeça.

II
Deito-me e reconheço os antigos hábitos. Quando vou dormir, deixo o corpo, qual rocha, a crer fervorosamente nessas ilusões, enquanto parto. À noite, há sempre uma forma diferente de subsistir que não depende da materialidade – longe e evitável, sem causalidade ou imperativos, como uma viagem que promete impossibilidades. Quem não se apaixona pelo toque noturno que promete, à alma, novidade? Pelo ludibriar perfeito que enamora duma distância infinita? Viver sem obediência, rasgar as leis da natureza e fazer o impossível como quem ergue um dedo, simplesmente porque sim, pela possibilidade infantil de o fazer. Afinal, o vento gélido é apenas gélido quando me toca. O corpo sente, sempre tão sensível, todo o aparato da existência que se projeta, implacável, sobre mim, e obriga-me a caminhar em trilhos desgastados e desinteressantes. As exigências de uma vida moderna, violada pela sobre-estimulação. Só à noite me deixo – ou melhor, só à noite reconheço essa possibilidade; como se, durante o dia, os sons e os toques e as cores e os sabores me inebriassem, condenando a existência a um reduto incontestável de plástico e leviandade. Nem me ocorre, tantas vezes, que poderia ser tudo diferente, que poderia ser tudo melhor ou mais adequado a cada um; que nada disto é definitivo, nem o bom nem o mau, e que num segundo o mar vem e consome os castelos que se construíram, e a areia retorna ao seu potencial absoluto; que o mundo pode ainda ser qualquer coisa, é só a gente querer, as gentes quererem, e a vontade tem um poder ilógico e subversivo que descobre um qualquer trilho novo, como o peixe que aprendeu a respirar oxigénio. Só a noite sabe quebrar os inquebrantáveis; quem resiste às tentações, só à noite sucumbirá, quando até o pecado se simplifica, se santifica.

III
O regresso é sempre a pior parte de qualquer viagem, porque descobre-se ainda tudo o que se deixou para trás, quando se partiu. Uma noite não é assim tão diferente. Acordar é uma ressaca agressiva, um desejo pelo saudável, um trauma onde tudo começa. As próprias doenças só nascem ao despertar; depois, o que surge, são metástases, desenvolvimentos, nunca tão terríveis como esse primeiro susto. É esse o epicentro, o momento em que a consciência retorna depois da noite, a lucidez desse primeiro assolar consciente, verdadeiro e sincero. Ninguém mente ao acordar, ninguém é tão eficaz que consiga usar e abusar desse instante, ele que agride de uma vez, como um súbito grito oscilante entre o real e o imaginário, logo caído em silêncio. Fica a dúvida, depois; como um rasgo no véu da estabilidade, como um pesadelo esquecido que deixa um rasto de pânico, como uma promessa tão messiânica quanto demoníaca, de outro mundo ou de um mundo diferente daquele que existia ao deitar e que existirá depois, no que se segue ao acordar, quando o resto do tempo já coseu o rasgo, silenciou a promessa. Nem a tecnologia conseguiu, até agora, submergir esse monstro que confronta, o terrível reconhecer das opções, de tudo o que se poderia fazer. Não tem mal, chegará lá, um dia, e as pessoas viverão em montras para poupar nas paredes e comprar a última grande revolução tecnológica. Se o prédio desabar, não tem mal, constrói-se outro, nada lá havia de qualquer forma que merecesse memórias, que fosse digno de ser passado às novas gerações. E não tem mal também se não houver forma de resistir, se for uma mão que nos sustenta no seu aperto, atenta às nossas necessidades e carências várias, porque então estará tudo bem, os homens serão felizes e a Terra será o paraíso prometido que romperá com as utopias para vigorar entre nós, carne e osso, mundo são. Higiénico e incontestável. Pão na boca dos esfomeados, abrigo para os caminheiros nos dias de chuva ou depois de um longo trilho circular. Que atire a primeira pedra quem nunca sonhou regressar, estar de volta, abrigar-se nas paredes que se conhecem. Imagine-se essa promessa infinita – regressar sem nunca ter de partir! Quem resistirá a essa deliciosa satisfação? Nunca se confrontar com o diferente ou o esquisito, o monstruoso, a aberração, o nojento e disforme. Um mundo feito à medida, sensível às oscilações, pronto a acomodar-se. Quando morrer o despertar, de onde virão as revoltas? O atrito irritante? Como se exprime um ser que encobre as próprias algemas? Como se exalta ou contesta? Como acorda?