
CRÓNICAS PARA DORMIR (XXIV)
I
De sentidos postos na natureza, nos recantos do mundo onde a pegada humana, embora indelével, inevitável, passa facilmente despercebida, os feitos humanos afiguram-se entediantes e negligenciáveis, mesmo os que revolucionaram a realidade. É só aqui que se compreende que a liberdade em nada se relaciona com o mundo físico, e é a visão que nos condiciona a acreditar que vivemos em coordenadas.
Lá fora, agitam-se as árvores. O vento que, violentamente, não as deixa dormir, é o mesmo que me embala para um limbo impossível. Não estou desperto; afinal, esta pele que me reveste, confundo-a com o anónimo tecido do lençol. Neste momento, pertenço-lhe tanto quanto pertenço a mim, numa partilha metafísica de sangue e fibras que me restrutura num ser sobrenatural, uma entidade mítica qualquer que os gregos desprezaram, talvez por não manifestar quaisquer capacidades fantásticas (afinal, sou só um homem-lençol), omitindo-o das suas narrativas milenares. Contudo, também não durmo, pois as árvores agitam-se lá fora desde que repousei a cabeça na almofada. Desde então, contei cada um dos 872 segundos que passaram, preservando um ritmo inquebrantável e alucinante, precisamente pela impossível estabilidade a que aludem. Onde estão os humanos? Neste momento, no octingentésimo septuagésimo terceiro segundo, a minha perceção informa-me tão-só de um mundo que me atravessa calmamente, resumindo-se, nessa função, a minha existência.
Talvez por isso hesite entre o desperto e o onírico – resisto a ambas as polaridades no desejo de me preservar neste limbo. Há uma beleza única na noite, nestas horas surreais em que é o próprio organismo a exigir descanso, porque nada daqui se espera, deste momento em que o cansaço dissolve a individualidade. A hesitação que me percorre, vem de saber que, ao despertar, serei novamente assolado pela identidade, terei desejos e vontades próprias que me colocarão no centro da minha própria vida, marginalizando a natureza que me usa como abertura. Serei forçado, então, a pensar em tudo o resto que preenche o espaço e o tempo, tudo o resto que não é este momento, esta liberdade espiritual. A serenidade da existência é facilmente desprezável pela facilidade com que se afoga no mundo moderno – pensá-la, teorizá-la, é já tê-la como perdida, como passado, porque a realidade deste momento exige vivê-lo plenamente, desapegado da mundanidade e em absoluta devoção. A escrita é já perda, luto, como qualquer outra atividade humana, e as suas descrições forçam a descida da experiência não-verbal, nada mais atingindo do que o fantasma, a sombra daquilo a que aludem, ao dilatarem os limites flexíveis das palavras.
Por isso é aqui, neste momento, que se esquece a humanidade; o negrume e o silêncio nada ameaçam, em vez convidam a integrar o inexistente. De resto, de que me servem as atrocidades das eras? Os atos heroicos? As violências inomináveis? Longe de humilhado, nesta dimensão, o meu papel resume-se a deixar o mundo fluir através de mim. Ao não ser nada nem ninguém, desintoxico a minha função vital das ficções humanas: não tenho tempo nem espaço, sou em vez o tempo e o espaço onde o mundo se manifesta. O paraíso é este privilégio de viver e, momentaneamente, estar aqui para que a realidade me use. Essa função vital – longe da conformidade da ciência – só aqui, neste limbo assombroso; só aqui a vida se desembaraça do nosso enxerto, o algo, como doença projetada na expressão.
II
“A porta. Estará trancada?”
Foi a pergunta que concebi como remissão para o lar e para a segurança de um edifício que se conhece intimamente. Estar aqui – sendo aqui qualquer lugar que não o meu – é viver entre lugares, onde cada repouso nunca tem o sabor de casa, do lar, tão-só à pousada que inevitavelmente se estranha porque tudo é impercetivelmente diferente do que deveria ser. Clandestino é todo aquele que se vê forçado a conviver com este pressentimento de estar no lugar errado. Não faz sentido, até porque não há outro lugar para ir, pelo menos não agora, às altas horas da noite, tornando este, inevitavelmente, enquanto se prolongar este momento, o lugar certo. E, ainda assim, não o é, ainda assim gera-se a revolta, como se o corpo soubesse algo a mais do que a alma e exigisse, de uma vez, insubordinação, cinesia, distância do local do crime. Essa exigência de apartamento, ao não ser possível fisicamente, é no espírito que se concretiza. Assim, a memória flui sem limitações, como um convidado sem mundo que deseja prolongar a visita, só mais um pouco, sempre só mais um pouco. Quebram-se as barreiras temporais que conjugam a minha mortalidade, e sinto-me capaz de albergar qualquer um dos humanos que fui ou virei a ser; a ilusão da cronologia apaga-se e vivo toda a minha temporalidade num único instante.
Como no súbito despertar de um sonho, a idealização de um pensamento assim, vertiginoso, eclipsa-me daqui, ao manifestar-se num amnésico segundo. Logo depois, no entanto, sou bruscamente impelido de volta pelos barulhos das canalizações – não pela sua violência, afinal só são audíveis por estar no âmago do silêncio, mas pela sua extravagância. Num quarto de hotel não se conhecem os ruídos; estes são matéria bruta, infinita da imaginação que – vívida, venenosa – os estrutura a seu bel-prazer. São estes momentos que ensinam a falácia maior do domínio, a fragilidade absoluta do ser humano; que é o mesmo que dizer que ninguém é senhor de si nos segundos cruciais, aqueles em que os instintos, os movimentos, longe de qualquer reflexão, são decididos por algo em nós que nos ultrapassa. Objetivamente, deveria poder estancar a corrente imaginativa que me fulmina com imagens quiméricas de hipotéticos; concretamente, no entanto, estou condenado a vivê-las, neste limbo impossível.
É talvez aqui que se fundamenta a mágoa profunda do desprezo, nesta fragilidade perturbante: todos admitimos a necessidade de sermos cordiais, de evitar os grandes confrontos, de resfriar a exaltada vontade de, aos berros, acusar a mais inocente criatura do mais hediondo crime. Por isso, quando tal acontece – e sobretudo quando somos nós a criatura acusada injustamente – embora possamos admitir que o nosso acusador não o faça conscientemente, é certo que a acusação tem por base algo de mais profundo e, invariavelmente, mais sincero. Cada momento irrefletido é – qual pensamento abstrato ou ação reflexa – um articular poético onde o pensar encarna em ação, e ao agir pensa-se em ato. A sinceridade vem, precisamente, dessa ligação direta, dessa indistinção entre pensar e agir, porque elimina a distância que possibilitaria a fraude e a mentira. O que daí emerge é, assim, incapaz de se encobrir em máscaras, e a mágoa dilacerante do desprezo vem do reconhecer intuitivo dessa realidade.
No decorrer dos dias, o conforto da estabilidade é a maior sedução, ainda que aquilo que se preserve seja uma fonte de amargura e desencanto. Só quem visceralmente despreza, quer o queira quer não, tem em si o ímpeto para quebrar as convenções, a harmonia sintética que nos preserva em comunhão, no quotidiano.
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