PEDRO NUNES



A verdade é uma questão de crença.

Imagine-se o discurso do I Have A Dream do Martin Luther King Jr. num tweet.
O primeiro numa sequência de 28.

(Quem quer saber? TL;DR)

É 2021.
2012 trouxe um fim do mundo, alguém ainda se lembra? Veio e foi sem grandes tumultos. Talvez porque os fins não sejam sempre assim tão evidentes, e ao findar-se em silêncio, ninguém lhe deu atenção; talvez porque até isso – o fim do mundo – já tenhamos dessensibilizado, no processo de aprender a viver. Foi longo e árduo, mas estamos finalmente a chegar a algum lado.

Finalmente, a verdade é uma questão de crença: a ciência é ficção governamental; a natureza é um recurso infindável, como a bondade e o amor, o planeta já aquecia antes, e com as chuvas e os nevões, onde anda o aquecimento global?; o humano nunca foi à lua, foi o Kubrick quem realizou o filme; e a história é a herança, ser contra-protestante é ser patriota, não vá ninguém desrespeitar os que viveram há meio século atrás.

A verdade é digital; a informação é livre, tão livre que ninguém a quer, e para quê quando há tanto mais na verdade. Numa frase, sou eu, quem nasci para ser; sou maior do que todos os vizinhos, todos os desprezíveis que para aí caminham e se pavoneiam, no meu tempo não era assim; eles não justificam ideologias em 280 caracteres como eu, eu carrego o peso de um universo ignorante, todos eles, os que não compreendem, é tão fácil de entender: não há racismo, não há homofobia, não há privilégio; estão aqui, são estes os valores que fizeram tempos pacíficos dos últimos séculos.

A verdade é a mais recente religião; talvez a mais libertina. Os deuses vêm em todas as formas e feitios, até perfeitamente ausentes; não há indumentária ou costumes, cada um veste o que quer – não o que quer, o que é digno – todos os dias são dias crentes e todos os dias há uma nova crença, outra que se apaga, quem quer saber? É fechar o punho, é gritar pulmões, é agitar bandeiras, é sentir a mais violenta razão na violência, o mais perfeito sentido no absurdo. Quando me irrito, quando o ódio me percorre as veias, quando ergo este meu braço, quem o faz descer não sou eu; é algo maior, é um restabelecer da ordem, um restituir dos costumes.

Já ninguém faz relógios.
Somos máquinas de fazer crentes.