CRÓNICAS PARA DORMIR (XX)
Sirenes. O som de uma emergência. A mim, no entanto, acordam-me de um sono profundo, tão profundo que nem sei são reais, se realmente me despertaram ao passar lá fora, as sirenes, ou se só as sonhei no meu sonho profundo. Lembro-me de prados que não existem, da extensão do infinito à minha frente, e de quadros – autorretratos onde envelheço, a minha pele nas cores da velhice, rasgada de rugas.

Sirenes. Espero que alguém se tenha aleijado. É uma piada; como a que cria trânsito nos acidentes, não quero ver, tapo os olhos, espreito por entre os dedos porque assim abstenho-me da culpa, nada tem a ver comigo se alguém se espetou a 200 km/h. Sinto-me culpado na mesma. Aquele corpo desfeito no chão, de algum modo fui eu que o fiz acelerar, que lhe pesei as pálpebras e o embalei nos meus braços, sussurrei-lhe palavras doces porque eram tão bonitas, e beijei-o boa-noite. É impossível; até porque, daqui, deste quarto tenebroso, nem sei se foi um acidente na estrada; pode ser atropelamento ou um incêndio num edifício qualquer. Não faltam formas de morrer.

Sirenes. Já morei perto de um hospital, ouvia as sirenes toda a noite. De início, incomodava-me; depois, já não sabia dormir sem elas. Custava a adormecer, nos dias com menos acidentes; nada tem de macabro, é só a ideia, tão natural, de ser errado o aproveitar as tragédias dos outros. Mas a vida, a vida começa com um massacre; e podemos chamá-lo de poético, já que nos apazigua a culpa e não parece tão profundamente triste, mas há sempre algo que morre para que nós estejamos vivos, para nos mantermos vivos; e quando morremos, a nossa carne e a nossa culpa são o alimento de alguém, como o de alguém foi o nosso.

A poesia é o corpo a expurgar a tragédia; a arte é o testar dos limites entre o humano e a desgraça. Somos todos passageiros à espera de morrer; mas, ao menos, o comboio é bonito, melhor ainda é a paisagem.