longitudes. (XII)

Resisto a entrar, o mundo assusta mais de dentro.
Aqui está frio, está frio cá fora, um frio que se acomoda
Nas minhas pregas de pele, de carne, sinto-o em mim.
Há um mar aqui, os pés mergulham na água,
A água vai e vem, vai e vem, nunca me cumprimenta
Mas divide-me os dedos, como rochas que apreciam o eterno ciclo.
Haverá um oceano, um oceano que não vejo,
Estendo a visão e não o vejo mas o fim do mundo será ali,
Onde desagua o mar, no oceano que o recebe.
A água vai e vem, vai e vem, mas nada me conta,
Talvez não saiba também.
Acredita como eu.

Ouço as vozes; as vozes são memória.
Outrora via um dia de cada vez, cada um em si
Contendo um universo. As vozes lembram-me.
Contudo, não me lembro de mim.
É um lapso emocional, amnésia do ego.
Sei o contexto: a cor da camisola que me fazia bonito,
O modo como achava que o meu nome se escrevia.
Mas hoje já não sei, hoje não me lembro, não me lembro
De quem era o corpo que se vestia; a mão que escrevia
O nome não é a minha, foi a de outro qualquer.
Hoje já não sei, não me lembro se deixei, naquele lugar,
O nome abreviado e a camisola preferida.
Não me lembro de os largar.
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