
CRÓNICAS PARA DORMIR (XVIII)
A linguagem é uma farsa. Concedemos-lhe um título universal, como se expressasse em si tudo o que existe; mas é circular, o pensamento. Ao limitarmos a expressão às palavras, a extensão das palavras limita a expressão. Não é a linguagem uma ferramenta? De que outra ferramenta esperamos perfeição? A linguagem não foi criada para ser honesta ou detalhada – é um ponto de união. E há tanto que não se consegue expressar! O que se consegue, são formas românticas de falar, falsas noções comunitárias que não dizem nada, só o fantasma de uma sensação comum. Honesto é um espirro; o que enoja é, em geral, mais sincero do que o que apaixona – mas o amor é tão belo! Uma forma tensa de sexo, como um brinquedo numa fábrica chinesa.
No fundo, ninguém quer a verdade; todos desejam pela forma mais sincera de mentir. As palavras são o vazio que daí resulta, ocos sólidos geométricos que encaixamos uns nos outros e, quando o ambiente é propício, encaixamo-nos também, os nossos corpos, uns nos outros.
A luz liga – é para rir quando a luz liga – mas não tem piada nenhuma, e não sei porque me pedem para rir. Que desalento é viver nestas obrigações abstratas, até as moscas se riem de nós (não são zumbidos, são gargalhadas!). Rio na mesma; estão-me no sangue, estes delírios sistémicos. Como a paixão, ou o machismo – é o riso.
A luz voltou a ligar – não sei se fui eu que disse alguma coisa engraçada ou outro qualquer. De qualquer modo, daqui a cinco segundos, já nem conseguirei repetir o que me fez rir; mas é tão bom, partilhar esta expiração de ar, as partículas de saliva a colidirem umas com as outras, as minhas com as deles, nas expulsões violentas. Só é triste quando se calam, porque do silêncio nascem as limitações das palavras – não o que fica por dizer, mas o que não pode ser expresso. Mas o mais triste de tudo, que reverbera na solidão, é crer que os nossos intelectos não são capazes de compreender o universo.
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