devaneios. (III)

Há um mingar estranho do tempo.
Cada página que se vira – ciente do seu próprio movimento, como se os elementos fibrosos fossem fibras musculares – vira sem o meu consentimento, e já só a posso ver à transparência.
Onde morrem as palavras?
Que fim tem o conhecimento?
As páginas empoleiram-se, amontoados de rascunhos descontextualizados, que perdem os sentidos conforme os anos se fundem em passado. Ainda assim, devagarinho, as páginas são degraus, e os degraus são impulsos para ver as janelas.
Gosto de ver as janelas do mundo.
Vivo para observar o que se estende de onde estou.
É um severo exercício de maus-tratos – só o entende quem viveu a ver maldade mas não a embrenhou.

Faço a omeleta do mesmo modo desde que aprendi a fazer omeletas.
Acedo que deverão haver melhores modos – até, quem sabe, um divinal, superior a todos os outros.
Mas a faço a omeleta do mesmo modo desde que aprendi a fazer omeletas.

Em 500 anos, olharão para os nossos pobres e doentes mentais como nós olhamos para a queima de bruxas da idade média.
Desprezamos, facilmente – é sinónimo de sobrevivência.
Ainda mais fácil é idolatrar – é sinónimo de propósito.
Em 500 anos, quando a vida for esta mas ó tão diferente, que será feito da Mona Lisa?
E das pobres coitadas das pessoas?
Imagine-se um mundo que se idolatra a si mesmo, ciente de si, da finitude de todas as coisas; e esse mundo, que idolatra mas não cega, que ama pecados e vicissitudes, que reconhece o mais pequeno dos insectos como pequeno e as aves no céu como voadoras e os homens sentados como homens que estão sentados; esse mundo viverá para se conhecer – não o belo, ou o feio, porque não há belo nem feio, nem riquezas ou escassos; num mundo que só se quer conhecer, há o mundo e o que se quer conhecer.
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