brevidades. (XII)

I
também tremes de faca ao pescoço?
quando rasgas um peluche,
dilaceras-lhe o corpo,
vês nascer um lamento
ou o medo de um choro?
como a vida nasce da terra,
e dos caules nascem flores,
e das flores, o pólen rega
outras terras para nascer;
também eu quero deserta
dar vida a uma serra
sem nunca lá viver.

II
solavancos de viver.
há quem ame todas as semanas.
outros não.
esquece a pressão dos dias,
sabes que a vida é tão-só
uma perpétua corrida
circular.
olha a meta.
é o início.
quantas vezes a natureza colapsa
e nós nem o sentimos?
e se o sentimos
não queremos saber
é do outro lado do mundo
na face oculta da lua
a vida aqui continua
e se lá morre alguém
não é aqui que me toca
é lá que o corpo
desmembrado
é enterrado.
é a agonia de viver
sem se saber onde fica
a natureza.
e contam-nos
soletram-nos
que em cada um
vive um amor para dar.
meus filhos,
neste corpo vive muito
mas nada aqui há
que seja amor
e muito menos
um dador.
mas serena-me
com as tuas crenças
eu desconheço a arte
de julgar.
vivo,
porque não?
e se amanhã já não houver
um corpo para viver,
viverei na terra
que alimenta o gado
que nós matamos
para enfeitar.
mas não faz mal,
a dor cessa sempre,
o pesar é eterno.

III
do profundo do meu ser –
o que quer que um ser seja –
arranquei cada degrau.
no calabouço o dia é noite.
o sol nasce, lá no topo
mas aqui ninguém o vê.
no calabouço o chão é frio.
o corpo deita-se, sozinho,
mas a pedra não lhe crê.
no calabouço a vida é nua.
rasga-se a pele, e a carne crua
despovoada morre à mercê.
vivo eu, no calabouço,
menos de carne, mais de osso.
e neste chão que não me quer
onde me deito sem sequer
ter uma pele para me esconder;
vejo o terminar dos rios,
o finito dos caminhos,
o vazio dos sentidos,
o chorar dos infinitos.
no calabouço, morrem os homens.
morrem os trevos e as sequoias,
as previsões e as memórias,
as criações e as histórias.
no calabouço,
cogito, ergo sum.
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