PEDRO NUNES



brevidades. (XI)

eu só sonho no verão.
é quando a brisa me perdoa.
quando o medo que destoa
as cores dos rostos, surge em vão.

eu só vivo no verão.
é quando a vida se propaga.
quando a mente que divaga
verga o corpo à razão.

eu só choro no verão.
é quando a cidade dorme.
e, das lágrimas, a fome
dá sentido à viagem,
corpo à miragem,
alma à criação.

em primeiro sou humano
num efémero segundo,
em terceiro sou um escravo
num quarto em que vislumbro
a quinta onde sou gado.
sexta é dia de abate.

saltei ao alto do mundo.

a brisa embrenhou-se em mim
despejou-me do meu corpo,
(carne gasta e poliéster)
e fundiu-me com o éter.

a brisa é quem semeia
eu germino as tempestades,
e dos incêndios que eu crio
nasce vida eterna em ciclo.

desci do alto do mundo.

a brisa fugiu de mim.
deixou-me caído a um canto.
e consumido, indefeso,
vi-me parte do que desprezo.

do peito, eu sangro sempre,
mas sangro sempre pouco.
e não germina, do meu sangue,
nem incêndios nem um sopro
que simule o que a brisa
faz do alto do mundo todo.

III

vergo-me.
quero viver livre de culpa.
quero sentir a minha pele,
um resguardo absoluto,
e nunca querer mais.

limito-me.
o ser perfeito é limitado.
de que foge o infinito?
sei tudo o que preciso
pelas fronteiras do que peço.

somos, tão-somente,
a fachada de uma grande casa.