brevidades. (XI)

I
eu só sonho no verão.
é quando a brisa me perdoa.
quando o medo que destoa
as cores dos rostos, surge em vão.
eu só vivo no verão.
é quando a vida se propaga.
quando a mente que divaga
verga o corpo à razão.
eu só choro no verão.
é quando a cidade dorme.
e, das lágrimas, a fome
dá sentido à viagem,
corpo à miragem,
alma à criação.

II
em primeiro sou humano
num efémero segundo,
em terceiro sou um escravo
num quarto em que vislumbro
a quinta onde sou gado.
sexta é dia de abate.
⁂
saltei ao alto do mundo.
a brisa embrenhou-se em mim
despejou-me do meu corpo,
(carne gasta e poliéster)
e fundiu-me com o éter.
a brisa é quem semeia
eu germino as tempestades,
e dos incêndios que eu crio
nasce vida eterna em ciclo.
desci do alto do mundo.
a brisa fugiu de mim.
deixou-me caído a um canto.
e consumido, indefeso,
vi-me parte do que desprezo.
do peito, eu sangro sempre,
mas sangro sempre pouco.
e não germina, do meu sangue,
nem incêndios nem um sopro
que simule o que a brisa
faz do alto do mundo todo.

III
vergo-me.
quero viver livre de culpa.
quero sentir a minha pele,
um resguardo absoluto,
e nunca querer mais.
limito-me.
o ser perfeito é limitado.
de que foge o infinito?
sei tudo o que preciso
pelas fronteiras do que peço.
somos, tão-somente,
a fachada de uma grande casa.
Deverá estar ligado para publicar um comentário.