PEDRO NUNES



Avós e netos. (II)

Desperto.
Os sons da vida que se exaltam, lá fora, não me dizem os bons-dias, tão somente existem por si, irreverentes.

Fica-me sempre a questão, quando desperto:

– Para um corpo adormecer, são os olhos que primeiro se fecham? Ou estes fecham-se, em reflexo ao corpo adormecer?

Não parece, mas faz toda a diferença.

Lembro-me de correr pelo trecho de terra; de subir o pequeno declive e descê-lo com impulso, mais veloz do que qualquer outro miúdo a correr.

Ia sempre embater com a parede de pedra, húmida e afável, protegendo-me de mais violentos embates ao conceder-me o musgo, onde as minhas pequenas mãos se apoiaram para suspender o movimento.

Num segundo, sou veloz.
No seguinte, agarro o musgo e sinto a vida húmida enlaçada em mim, como se a minha pele e a superfície do musgo se compreendessem melhor do que eu, em inteiro, e o musgo, em inteiro.

Voltei a subir o pequeno declive e, num acto prematuro de coragem, exigi maior velocidade.
Por um breve momento, em que saltei ao alto do mundo, foi a vez da brisa se embrenhar em mim e, num jeito singelo e efémero, tornei-me a natureza que semeia e cria tempestades.

Desci, desconecto do meu corpo, pés esquecidos do equilíbrio que neles começa, e agarrei as pedras, em desespero.
Pensei que o musgo me salvasse, mas não dei por ele; dei sim, com o arame por trás das pedra, e o meu dedo aterrou, indolor, rasgando num único ponto.

Ergui o dedo, rasgar presente, e num movimento adquirido, apertei-o.
Vi nascer, igual em tudo, um vermelho incandescente, juvenil como eu mas, no profundo, no âmago profundo, uma idade que me estende ao início do mundo.