brevidades. (X)

I
anafilaxia.
eu ouço sempre duas vezes:
quando te ouço e quando te sinto.
matava por só te ouvir.
crer nas falas em que mentes.
aceitar o que suspendes, como bem maior.
não te dispas.
eu vejo sempre duas vezes:
quando te vejo e quando te espreito.
cegava-me para só te ver.
o baço em que te vestes.
o fígado a que decresces, e em que me pedes para crer.
concupiscência.
a solidão bate sempre duas vezes:
uma que ouves, outra que não.

II
minhocas nos vislumbres de luz de um candeeiro.
e o sol,
o sol que observa:
O candeeiro, que ilumina; as minhocas, que dançam; e eu, que as vejo.
a lupa, que amplia; os insectos, que deliram; e eu, que os vejo.
a terra, que humedece; as sementes, que germinam; e eu, que as vejo.
como o vinho que mancha.
como o sol que queima.
como o homem que mata.
tudo é, a todo o momento, parte de um todo.
um expoente
de imitações e consequências.

III
procuro sempre som no silêncio.
o som
do silêncio.
procuro sempre a visão no escuro.
procuro sempre o sabor no insípido.
procuro sempre o odor no inodoro.
quero quebrar os meus sentidos.
quero-os sentir primitivos.
quero achatar os infinitos, guardá-los no bolso e,
sob a luz do sol da manhã,
decifrar os mistérios do mundo.
quero fazer sangrar um deus,
e sentar-me depois com ele para almoçar.

IV
tropeço em mim.
por vezes, tropeço em mim.
e
vejo-me cair.
por vezes, vejo-me cair.
tropeço em mim.
deitado, estendido na cama, num colchão que me sustenta o corpo e se entranha
e
vejo-me cair.
descosido, desunido, perfaço círculos perfeitos que me embalam os sentidos.
por vezes, não me vejo,
não me encontro onde tropeço.
e
num surreal inquieto, pergunto:
quando foi o meu regresso?
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