PEDRO NUNES



brevidades. (IX)

prazerosos sentidos,
escolho um momento para viver.

aqui, onde nasci
neste agregado vital
cimento nervoso
domado animal,
navego um segundo,
orbito sem querer,
e o espaço que ocupo
no fim do segundo
já deixou de me querer.

vivo o tempo que tenho a perder.
cada resmungo meu é um herege profundo,
que condena este mundo por não querer saber.

pretensões em subir retornam-me à carne.
e eu aceito, percebo, mas no fundo,
odeio, mais do que tudo, o ter de entender.

não é saber que nada sei,
(isso é tão corriqueiro.)

é saber que hoje sei
que o que sabia já não sei.

Platão condenava a arte imitativa.
(o raio do homem)
iludir por imitação.

no presente, que Platão pensaria
(o raio do homem)
da arte da programação.

todos gostam do Pessoa.
ninguém o quer conhecer.

que seria de nós,
do nosso intelecto,
do que nas veias nos corre,
no cérebro, nos rege,
no trato, nos liga,
nos esconde e protege,
se o Pessoa viesse
erguesse o chapéu e dissesse
estes são meus amigos.”
e ninguém lá estivesse?