brevidades. (VIII)

I
quando liberto,
quando as palavras se expressam e se embrenham em mim,
e me descubro aberto,
escancarado o portão que me veste, e me despe e com um sopro no peito
me mantém desperto,
decerto não ousas tocar-me
ou ouvir-me
ou cantar-me tão sério
como te ris de mim.
e não nego,
és sincero quando dizes que é pior quando me calo.
porque também eu o pressinto:
um recriar do universo
um achatar do que te peço
um assoprar que faz temer
que a chama, de perverso,
se apague de viver.

II
tempestade.
quem,
conhecendo as manhãs puras,
esperaria deste vento,
um universo de amarguras?
temo os versos que não escrevo,
aqueles que não mastigo,
os que perco
entre o que faço e o que devo,
os que perco
entre o que penso e o que digo.
são eles também tempestuosos
formas incertas de chover
quando não peço, é quando voltam
e os seus trovões nervosos
ramificados no meu ser
mostram-me um mundo
sempre pobre.
sempre perto de morrer.

III
os homens não são homens.
foi o vento que trouxe, ou o pêlo de um rato, ou ainda,
talvez,
um ser que viveu, caiu e morreu e, no fim,
se desfez,
e libertou-se assim, da natureza ou dos corpos, essa pequena
semente
que te entrou pelos olhos, ou a boca ou os folhos, e em ti,
jacente,
aguardou pelo comando abstracto de germinar, o universo
a ordenar.
e os homens não são homens.
começou como um verde, um crescer indiferente, que rasgou a semente e
nasceu.
não chorou, a criança, não há ventre na planta para chamar
seu,
nem leite materno, ou de qualquer outro género, para alimentar a pequena
flor
que já surge, discreta, raízes na terra, e devagar se alimenta
da dor.
não sabe, a planta, o que é o sabor mas refaz-se, ao ver, que quanto mais come
mais tem de comer.
e os homens não são homens.
um novo dia que nasce, e o tempo lá vai, a flor já deu árvore e
suspira.
já não come há três dias, vê as folhas morrer e treme,
delira,
que será de uma árvore cuja terra, fingida, já não dá de comer?
uma voz,
ecoando no chão moribundo, gemendo de um outro mundo onde,
atroz,
lhe cuspiram no rosto, empurraram o corpo e, exausto de ser,
terminou-se.
é que os homens não são homens,
só fingem ser.
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