PEDRO NUNES



brevidades. (VII)

sangrar.
vermelho-vivo.
o estrábico sentir.
vou arder a vida inteira.
vou morrer quando extinguir.

A ideia de,
sem entender
sem ter noção,
apreender o sentido,
o âmago
da questão.

haverá tanto,
neste corpo em delírio
saudoso por amanho,
tanto que não vivo
por não saber
pescar o bicho
por não saber
como o apanho.

poesia é
o sentir atrasado.
o zunido de uma seta.
a ilação do efémero.
o vomitar de um poeta.

poesia é
a tradução dos momentos.

eu sei.
corro exausto das falácias que sempre
usei.
procuro o expressar de um novo jeito,
um novo corpo por onde nunca grito e sempre
espreito,
um novo texto que não escrevo, a página surge perfeita, e eu
não me arrependo, não ressaco desses
vícios,
não me perco nos caminhos,
não desenho os seus
inícios.

sou, tão-só, o ventrículo do coração,
encarregue de uma acção vazia
que termina mal começa e logo, de novo, se inicia.