brevidades. (VI)

I
suavidades.
como uma ferida a sarar,
gradualmente,
assim eu me conduzo,
neste corpo que me consente
a conduzir.

II
é quando o piano entra,
quando a guitarra chora,
quando o comovido cão,
no desespero, se cala.
nestas pungentes melodias,
que nunca transformam
nunca divagam,
colido com o medo,
com o sono,
com o irrequieto desejo de calma.

III
oh meu querido amanhã,
que te vergas por um só novo
dia.
onde vamos, tão fundo?
já nem vejo a luz no topo
onde brilha o sol quente
o que nos rega
nos dá a mão.
oh meu triste naufrágio,
levas-me sempre contigo
e já ouço, profundo,
o kraken a chamar,
as exigências tardias,
definições
de pertença.
convalescença,
nunca te vi
recuperar.
qual é a biologia em ver sofrer?

IV
hoje
como sempre
é o sol que celebra.
foi ele,
céu nocturno,
quem te rasgou?
sangrou por ti
e te chorou?
foi ele,
meu sereno, triste momento,
quem te desfez?
riu-se de ti
e com um abano no braço
disse:
“sorri,
o dia vem aí.“?
Tu vens também,
meu querido defunto,
só sempre te atrasas
ou te adiantas
e eu,
que te espero,
sempre te vejo nascer,
crescer,
morrer.
em todos os instantes –
esses infames instantes –
és sempre,
visceralmente,
a renúncia do que te obrigam a ser.
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