PEDRO NUNES



brevidades. (VI)

suavidades.
como uma ferida a sarar,
gradualmente,
assim eu me conduzo,
neste corpo que me consente
a conduzir.

é quando o piano entra,
quando a guitarra chora,
quando o comovido cão,
no desespero, se cala.

nestas pungentes melodias,
que nunca transformam
nunca divagam,
colido com o medo,
com o sono,
com o irrequieto desejo de calma.

oh meu querido amanhã,
que te vergas por um só novo
dia.
onde vamos, tão fundo?
já nem vejo a luz no topo
onde brilha o sol quente
o que nos rega
nos dá a mão.

oh meu triste naufrágio,
levas-me sempre contigo
e já ouço, profundo,
o kraken a chamar,
as exigências tardias,
definições
de pertença.

convalescença,
nunca te vi
recuperar.

qual é a biologia em ver sofrer?

hoje
como sempre
é o sol que celebra.

foi ele,
céu nocturno,
quem te rasgou?
sangrou por ti
e te chorou?

foi ele,
meu sereno, triste momento,
quem te desfez?
riu-se de ti
e com um abano no braço
disse:
sorri,
o dia vem aí.“?

Tu vens também,
meu querido defunto,
só sempre te atrasas
ou te adiantas
e eu,
que te espero,
sempre te vejo nascer,
crescer,
morrer.

em todos os instantes –
esses infames instantes –
és sempre,
visceralmente,
a renúncia do que te obrigam a ser.