
CRÓNICAS PARA DORMIR (XIII)
Sinto o sedimentar de um peculiar controlo. E tal como a rocha – a sedimentar, quero dizer – também a minha se forma por pequenos sedimentos; momentos acertados, em que as previsões, as probabilidades, se alinham com os resultados, e refresca-se a rocha, agregam-se os frouxos e precipitam os químicos. Dou por mim com ela na mão – a rocha – e, noite adentro, nasce-me uma possessão, um egoísmo afável, que me pede que a segure mais próximo, que me mantenha neste cerne onde precipitam e agregam os sedimentos solitários. Vejo, no entanto, quando os meus olhos se fecham, um deserto rochoso e, por todo o lado, em cada canto, rochas sedimentares predominam neste chão; variam as dimensões, as cores, os químicos, mas todas estão confiantes de si, nunca se rendendo às evidências: somos sempre parte de algo maior.
Procuro sempre som no silêncio. É algo que faço desde que me lembro: foco a audição mais na ausência, do que na generalidade dos sons. Não sei o que espero ouvir – se é que espero algo de todo – mas é curiosa esta contradição: afinal, eu não procuro os sons de um arrombamento, de um assalto ou apocalipse; procuro, somente, o som do silêncio. De igual modo e razão, esforço a vista no escuro, saboreio o insípido, inspiro o inodoro.
Nada é natural em sentidos obsoletos. Vivemos numa rapidez característica, que nos afasta até desta noção; os sentidos estão sempre ligados, processamos continuamente o meio que nos envolve. Ergue-se a questão: que somos quando removidos, por completo, a visão, tacto, olfacto, sabor, audição? Imagine-se um corpo assim, desprovido; não ver, sentir, cheirar, saborear, ouvir o mundo. Onde termina o sentido? Onde começa a razão?
Sinto sempre a vontade de terminar como as últimas músicas dos álbuns: num crescendo epopeico que se funde num único agregado sonoro. Depois, o silêncio vem de uma vez. Na escrita, no entanto, é mais difícil: posso escrever exaltado e ser lido no oposto, registar um sonho e interpretar-se como real, seccionar as partes e nunca se ver o todo – é o mal da percepção individual. Se uma mente comum nos coordenasse, salvaguardava-se melhor este mundo, ou discordava-se em conjunto, porque, no indivíduo, a percepção é sempre oprimida, submissa aos ambíguos desejos. Em qualquer dos casos são fantasias, especulações, que escrevo a dormir – ou dormitar, porque ainda não sei escrever nos sonhos.
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