PEDRO NUNES



brevidades. (V)

silêncio.

no futuro, as palavras serão dígitos;
dedos e números.

e eu já vejo
já pressinto
as raízes nas árvores,
as árvores nas sementes.

silêncio.

quando não falam
não vos sinto.

e as palavras são
no íntimo
um jeito de desprezo.

o crescendo.
a tensão.

nunca seguro o momento.

quantas vezes me perco
me desmembro assim?

mas volto sempre,
sedento,
e as ruínas que deixo,
os campos que queimo,
os corpos que caem,
que pesam em mim.

nunca aprendi a atar o momento.
sempre o senti a rir-se de mim.

há sangue onde repouso,
onde me acomodo –
as vertigens de existir.

ouço.
são zumbidos profundos
que reverberam em mim
nas paredes do corpo.
e os tendões, os ossos, os órgãos,
os cisnes que morrem e cantam o fim –
logo eu, que nunca choro,
comovo-me
sozinho
porque cada cisne que morre,
morre só para mim.

eu sei.
és tudo o que eu
não sei.
e eu não sou
ninguém.
eu sou
ninguém.
não sou
ninguém.