brevidades. (V)

I
silêncio.
no futuro, as palavras serão dígitos;
dedos e números.
e eu já vejo
já pressinto
as raízes nas árvores,
as árvores nas sementes.
silêncio.
quando não falam
não vos sinto.
e as palavras são
no íntimo
um jeito de desprezo.

II
o crescendo.
a tensão.
nunca seguro o momento.
quantas vezes me perco
me desmembro assim?
mas volto sempre,
sedento,
e as ruínas que deixo,
os campos que queimo,
os corpos que caem,
que pesam em mim.
nunca aprendi a atar o momento.
sempre o senti a rir-se de mim.

III
há sangue onde repouso,
onde me acomodo –
as vertigens de existir.
ouço.
são zumbidos profundos
que reverberam em mim
nas paredes do corpo.
e os tendões, os ossos, os órgãos,
os cisnes que morrem e cantam o fim –
logo eu, que nunca choro,
comovo-me
sozinho
porque cada cisne que morre,
morre só para mim.

IV
eu sei.
és tudo o que eu
não sei.
e eu não sou
ninguém.
eu sou
ninguém.
não sou
ninguém.
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