PEDRO NUNES



brevidades. (IV)

a tua violência não se sente
mas pressinto
quando queres quebrar.
quando não suportas os homens
os que te arrastam
e a lama
o lodo.

pouco.
é,
por vezes,
pouco.
e nasce
rouco,
o teu grito,
meu bem,
o teu direito
de viveres livre,
de amares como quem vive.

constrangimentos.
achas que me revejo nestes momentos?

é sangue que se apega
o meu corpo fraqueja por algo
que não é nada
nada de todo.

constrangimentos?

oh não te percas em sentidos
foca-te antes no ruído
o que te faz sentir
deslocado.
assustado.
a tua alma projecta-se
à frente do corpo
e o passo que dás
já o deste antes
já o conheces
é o que sentiste
quando ainda nem sabias
que eu constrinjo.

oh meu amigo,
não entendes?
dentro de ti vive também
o mesmo redondo desdém.
ninguém
nem eu, meu bem,
vai mais além.
somos desenhos de alguém
sempre, sempre aquém.

mas eu posso estar errado.

o maldito sorriso com que maldigo os teus jeitos.
o âmago destes dias desfeitos,
em que o tempo passa supérfluo
como se não registasse
e eu não perguntasse,
e nesse âmago meigo
cuidador do meu peito
vive um jeito de ser
que é sempre breve
mas sempre perfeito.

corres a foice e admito,
ceifado,
eu posso sempre estar errado.