O HOMEM SEM PERNAS
18:55 – Mesa circular, sete pessoas
– “Não me leves a mal, somos todos amigos aqui.” – Esclarece ela, não fosse ele esquecer.

– “Eu sei, não levo nada a mal.” – Diz ele, abanando o ar com a mão, como para gesticular o sentido das suas próprias palavras – “Diz lá.”

– “A primeira coisa que pensei quando te vi é que tens ar de quem tem falta de algo.” – Nasceu um leve riso geral, uma suave nuance de gozo – “Careces de uma certa… qual é a palavra? Qualquer coisa.”

– “Vá lá! já me disseram pior…” – Graceja ele, recordando-se de todas as vezes que ouviu exactamente a mesma resposta de bocas diferentes, e como em todas essas bocas as palavras lhe pareceram tão mais confiantes do que na sua.

– “Mas percebes o que estou a dizer?” – Pergunta ela, numa peculiar busca por absolvição, em parte, noutra parte humilhação.

– “Sim, sim.” – Responde ele, qualquer coisa que funcione – “Vá, quem é agora?”

– “És tu a mim.” – Diz ela, recorrendo ao teatro para expressar um medo exagerado, e a plateia ri.

Vai-te foder.”

19:55 – Mesa circular, uma pessoa
Vieram ver o sol morrer. O sol morreu, por isso foram embora. Ele ficou; não por encontrar alguma forma perversa de prazer em ver a noite sozinho num miradouro, mas porque ficou sem pernas. Quem olhar para ele, vê-as, obviamente – as pernas. No mundo físico, raramente há mudanças drásticas sem acções drásticas. Por isso, quem o olhar, pensaria que todas as ferramentas necessárias para ele se erguer e caminhar estão ali – os ossos, as articulações, os músculos, e todos os enfeites. Mas não. As conexões do cérebro com a espinha com os nervos, estão todas no sítio como deve de ser. É certo que não foi ele próprio a confirmar – como poderia? – mas confiem no narrador: está tudo no sítio, não há qualquer problema nervoso, muscular ou articular. E contudo, as pernas não movem.

Se todos nós percebemos, lá pela segunda frase, que o problema é psicológico, também ele – que nunca foi burro nenhum – o percebeu. E se a ligação entre as pernas não moverem e a conversa com a rapariga parece menos óbvia, talvez seja porque o texto deu a entender que ele disse “vai-te foder.” quando, na verdade, só o pensou. Na realidade, disse: “a primeira coisa que pensei, foi que tinhas um sorriso simpático.”

Agora, entender a ligação entre reprimir algo que se pensa, e as pernas deixarem de funcionar, já é um desafio quer para ele quer para nós. A última meia-hora passou-a ele em desgostoso pensamento, esforçando-se por entender a ligação, o ponto comum, a linha que estabelece a comunidade. No entanto, meia-hora depois, ele avançou tanto como recuou, que é outra forma de dizer que não saiu do sítio. A imaginação do pensamento, no entanto, serviu-lhe para considerar outra coisa: entre passar a noite ali e pedir para ser assaltado não há grande diferença. Ainda assim, a curiosa força-motriz que o fez pegar no telemóvel, de um momento para o outro, nem foi o medo do assalto – já que, roubando-lhe a carteira, roubam-lhe dois euros e cêntimos – mas sim o confronto com o assaltante. Se pudesse, por algum poder sobrenatural – já que estamos dentro desse campo – desligar o cérebro até depois do assalto, por ele, nem lhe incomodaria assim tanto; agora, ter de estar consciente quando ele chegar, de faca ao alto, enche-o de um constrangimento que, podendo, evitará.

Assim, pega no telemóvel e pede o número dela a um amigo comum, um dos sete. A resposta vem rápido “ahah ficaste interessado?”. O número vem logo a seguir. Ele ainda pensou em responder, mas a urgência da situação venceu à urgência de corrigir as más-intenções subjacentes. Ligou à rapariga, que atendeu dentro dos primeiros três toques.

– “Sim?”

– “Estou sim. Sou eu.” – A frase é sem sentido mas justificada pelo sangue a correr-lhe no rosto ao aperceber-se que não se recorda do nome da rapariga. Do outro lado da linha, curiosamente, e apesar de ela reconhecer a voz, acontece o mesmo, não se recordando ela do nome dele.

– “Ah sim. O que se passa?” – As palavras chegam velozes, na velocidade de quem quer passar por cima de um assunto.

– “Nada.” – Diz ele, automático – “Quer dizer, estou aqui com um problema.

– “Aí sim?” – Pergunta ela, indecisa se a curiosidade é maior do que o constrangimento.

– “Acho que te tenho de dizer uma coisa desagradável.”

– “O quê?” – Agora com a curiosidade definitivamente maior do que o constrangimento.

– “Entende que é uma obrigação, eu não te dizia isto se não tivesse mesmo de ser.”

– “Desembucha, homem!”

Ele quis, mas a voz morreu-se-lhe, ainda na fase da criação das palavras. Viu-se, assim, obrigado a dançar.

“Imagina que não tinhas gostado nada de mim, que eu era um completo idiota contigo. O que é que tu me dizias?”

– “Para te ires lixar?” – Perguntou ela, já as tonalidades negras a notarem-se no timbre.

– “Pior.”

– “Para te ires foder?”

– “Sim, isso mesmo!” – E, qual magia, ambas as pernas saltaram como lebres – “Porra, que alívio!”

De repente, já ele se tinha levantado e dado dois saltos olímpicos – só para comprovar o funcionamento total dos membros – quando ouviu soluçares reprimidos vindos do outro lado da linha.

– “Estás bem?” – Perguntou ele, mas a resposta que recebeu foram os mesmos soluços que desencadearam a pergunta. Nasceu-lhe uma impaciência, ao considerar o percurso que ainda tinha de fazer para chegar a casa.

– “Olha, eu tenho que ir indo. Mas obrigado!” – Disse ele, esperando, em vão, por sonoridades responsivas – “Adeus!” – E desligou a chamada para um dilúvio desenvolto.

Pôs-se a caminho, mão no bolso, sorriso no rosto.