PEDRO NUNES



brevidades. (II)

I

brevidades.
momentos em que tropeço.

não esperes por mim.

são incêndios, estes momentos,
queimam quem aguarda.

são rasgos universais em que sinto
o vibrar da terra.
os silêncios.
as amnésias.

eu sei.
não penses que não.
a noite vem sempre tão tarde,
só atrasa mais o dia novo,
o nascer de um novo sol.

mas não faz mal.

ninguém chora em silêncio.
há tanto som em cada gesto.


II

segues cantando
nesses teus jeitos bonitos.
sabe deus que te deu.
amanhã, cantas, seremos malditos.

fizeste-me rimar.
diabo nos dedos limita-me os sentidos.

são espasmos,
nervosos cuspidos,
é um bater cardíaco
fora de sítio.

já nem sei se cantas para mim.
é cansativo ser espectador
quando tenho de ouvir.
preferia dormir até te calares.

mas segues cantando
nos teus jeitos bonitos.

és fogo, decerto.
tão bom de ver.
tão mau de morrer.


III

forretas de merda.
(desculpem-me a indecência.)

lebres em corrida,
invertem sentidos conforme o perigo,
se frontal recuam, se detrás avançam,
esquerda direita esquerda direita.

é tudo tão fútil.

amor e sexo.
neste mundo violento,
só se apreciam as palavras bonitas.

todos querem gozar,
ninguém quer ser gozado.


IV

abismo.
por vezes começamos pelos fins,
e daí em retaguarda,
porque não há quem aprecie penhascos
sem temer cair.

abismo.
vemos o fundo e fugimos de ti.
e há neste mundo tanto pior
do que fugir do fim.